“Estás zangado comigo?” A pergunta que pode estar a governar a sua vida

A adulação é uma resposta ao stress que se manifesta em agradar aos outros como mecanismo de defesa. Se teve uma infância complicada, é possível que a tenha adoptado. Um livro recém-publicado vai ensiná-la a libertar-se.

Em pintura, casal discute em interior luxuoso, questionando dinâmicas de poder e adulação Foto: Getty Images
03 de março de 2026 às 17:30 Madalena Haderer

Fugir ou lutar. Já toda a gente ouviu falar nestas famosas respostas ao stress. A paralisia, ou ficar muito quieta na esperança de que o predador não a veja, é outra resposta bastante útil. E já sabemos que, se antigamente o bicho a temer era o tigre dentes-de-sabre, hoje em dia “predador” costuma ser eufemismo para “chefe muito mal disposto” ou “sogra que gosta de embirrar”. O que talvez não saiba é que há uma quarta resposta, muito menos falada, mas, em certa medida, muito mais perniciosa porque, em vez de ser espontânea e temporária, como as outras três, torna-se muito rapidamente uma atitude por defeito, que permeia toda a nossa vida e da qual é muito difícil escapar. Se teve uma infância difícil, conflituosa ou emocionalmente desgastante, é muito provável que a tenha adoptado. Mas está na hora de se libertar.

Falamos de adulação. Uma resposta que “consiste em tornarmo-nos mais apelativos para a ameaça, fazê-la gostar de nós, satisfazê-la, ser útil e agradável para ela – para nos podermos sentir seguros. Adular é aproximarmo-nos inconscientemente, em vez de nos afastarmos, de relações e situações ameaçadoras”. Neste contexto, adulação pode ser, por exemplo, o mecanismo de defesa de uma criança cuja mãe não consegue gerir as emoções e desata aos berros por tudo e por nada, ou cujo pai fica amargo e psicologicamente abusivo quando consome álcool. E adular, neste caso, não tem necessariamente que ser com palavras, pode ser com comportamento. E como é que uma criança adula progenitores difíceis? Faz tudo o que é preciso antes de ser preciso. Adivinha vontade e humores. Sabe quando aparecer e quando se fechar no quarto. Sabe que o melhor que tem a fazer é nunca pedir nada. Quando uma criança vive assim, tende a repetir estes padrões na idade adulta, e vai adulando chefes, namorados, amigos, parentes, vizinhos pela vida fora, sem nunca se pôr em primeiro lugar e vivendo num estado de quase paranóia.

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Se esta descrição soa familiar para si ou para alguém próximo, o melhor que tem a fazer é ler o recém-editado Estás Zangado Comigo?. Um livro que é muitíssimo mais interessante e útil do que seria de julgar pelo título e pela capa. A autora, Meg Josephson, é uma psicoterapeuta especializada em cuidados informados sobre trauma, adoptando na sua prática e neste livro uma abordagem centrada na compaixão. É mestre em Serviço Social pela Universidade de Columbia e professora certificada de meditação. Este é o seu primeiro livro e a versão inglesa foi um bestseller do The New York Times. É fácil perceber porquê. 

Meg foi ela própria uma aduladora profissional. Filha de uma mãe que tinha ataques de fúria à mínima coisa e de um pai que fingia que era tudo normal, até não aguentar mais esta “normalidade” tóxica e se ter começado a refugiar no álcool. A vida não foi tão má quanto poderia ter sido – pelo menos, é isso que uma criança pensa para se defender –, ninguém lhe batia, nem a ela, nem aos irmãos, mas o terror psicológico de um ambiente que passa de tranquilo para um concurso de gritaria de um momento para o outro, como quem liga o interruptor da luz, fica para sempre. Além de que, já se sabe, as crianças têm tendência para se culparem por tudo o que acontece de mau nas suas vidas. A alternativa seria aceitar que os pais nunca deviam ter tido filhos porque não sabem cuidar deles, e isso é muito mais assustador. É muito mais fácil pensar que as nossas amigas têm mães boazinhas porque elas também são boazinhas e que se a nossa mãe é má é porque nós somos más.

Mas não se vá embora se a sua mãe também era boazinha. A resposta de adulação pode desenvolver-se por outros motivos e é tão pouco falada que merece mesmo atenção. 

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“Esta hipervigilância – a sensação inconsciente de estar sempre em alerta máximo, de guarda – foi o fio condutor da minha infância e idade adulta”, conta a autora. Esta sensação traduz-se, muitas vezes, no pensamento que dá título ao livro, como explica Meg: “Muitas pessoas, sobretudo mulheres, debatem-se constantemente com a ideia de que os outros estão zangados com elas. ‘Estás zangado comigo?’, perguntamos, a medo, aos nossos companheiros quando estão de mau humor, aos nossos melhores amigos quando não nos respondem às mensagens, aos nossos colegas quando não nos cumprimentaram quando nos cruzámos à saída da casa de banho.” Ou então não perguntamos nada, mas , repassando conversas e atitudes.

Josephson vai mais fundo para clarificar por que razão esta é uma tendência tão feminina: “As mulheres, em particular, são condicionadas para se sobrecarregarem, para darem demasiadas explicações, pedirem demasiadas desculpas. Somos cuidadoras. Acalentadoras. Pacificadoras. Ensinam-nos a ser boas meninas, raparigas fixes, e a dar um grande abraço ao tio Richard, por amor de Deus, apesar de ele nos fazer sentir extremamente desconfortáveis. Ensinam-nos a não ser, nem querer, demasiado, por isso aprendemos a habituar-nos a estar insatisfeitas com as nossas vidas.”

Sem dúvida um cenário desanimador. E, então? O que tenciona Meg Josephson fazer a esse propósito? Tenciona ajudar-nos a libertar-nos deste padrão usando este livro como ferramenta. Para tal, Meg combina a sua história pessoal com casos reais de pacientes, aos quais mudou os nomes e detalhes, transformando os episódios em compósitos que não identificam os seus pacientes, mas que exemplificam bem situações que são, na verdade, bastante universais. A isso a autora junta perguntas de reflexão, no fim de cada capítulo, e “exercícios práticos que ajudam quem vive em função do outros a reencontrar-se consigo mesmo”.

“Uma das práticas mais importantes e difíceis que quero que leves deste livro”, diz a autora a páginas tantas, “é esta: acredita no que te dizem. Põe-te confortável com o desconforto de aceitar a palavra das pessoas, sem imaginares o que mais pode significar ou o que podem estar secretamente a sentir.” Até porque “se alguém for passivo-agressivo na sua comunicação e não te apresentar nada diretamente, não tens nada para reparar.” Sábias palavras.

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