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Vivienne Westwood (1941-2022). Eterna rainha do punk e do chic selvagem

Irreverente e provocadora, Vivienne Westwood, que nos deixou a 29 de dezembro de 2022 aos 81 anos, fica para a História como a "mãe" da moda punk. Mas o seu legado, feito de rigor e empatia, é mais profundo do que qualquer rótulo.

Foto: Getty Images
30 de dezembro de 2022 Maria João Martins
Está para a moda como os Sex Pistols ou os Joy Division estão para a música: Vivienne Westwood subverteu os cânones, submeteu-a à estética punk das ruas de Londres e Manchester e, sem nunca ceder, conquistou as semanas de moda internacionais, as "bíblias" da imprensa especializada como a Vogue ou a Harper's Bazaar e acabou condecorada pela rainha Isabel II. Em 1983, pouco depois da sua estreia em Paris, os críticos já lhe chamavam "a resposta britânica a Christian Lacroix", responsabilizando-a pelo regresso da moda inglesa à sua melhor forma, mas foi John Fairchild quem, em 1989, acertou na mouche ao chamar-lhe "a Alice no País das Maravilhas da Moda". 
No seu estúdio em Londres, 1982.
No seu estúdio em Londres, 1982. Foto: Getty Images

Vivienne Isabel Swire nasceu a 8 de abril de 1941 numa pequena cidade do condado de Derbyshire, em Inglaterra. Filha mais velha de uma família operária com três crianças, passou a adolescência a sonhar com a vida efervescente da swinging London dos anos 60. Aos 17 anos largou amarras e partiu para a capital, inscrevendo-se na Harrow School of Art (hoje integrada na Universidade de Westminster). Tornou-se professora primária, uma profissão de que guardou recordações muito felizes. Muitos anos mais tarde (em 2007), já consagrada no topo do mundo da moda, Vivienne disse numa entrevista ao jornal The Guardian: "Era uma professora muito boa. Mas confesso que preferia os miúdos que toda a gente considerava difíceis. Os pequenos rebeldes." 

Com Kate Moss nos British Fashion Awards, nos Royal Courts of Justice, Londres, em 2005.
Com Kate Moss nos British Fashion Awards, nos Royal Courts of Justice, Londres, em 2005. Foto: Getty Images

Em 1962, casou com Derek Westwood, que dirigia um night club londrino, e teve o seu primeiro filho, Benjamin. As responsabilidades da maternidade precoce não lhe sustiveram o passo, que continuava rápido e determinado. Em 1965, o encontro com Malcom McLaren, estudante de Artes Plásticas e futuro manager da banda Sex Pistols, revelar-se-ia decisivo. No ano seguinte, Vivienne divorciou-se e foi viver com ele. Juntos, tiveram um filho - Joseph - e lançaram-se na criação de moda com marca Let It Rock, inicialmente muito baseada na recuperação de alguns modelos rockabilies dos anos 50, mas, depois, cada vez mais ousada e livre.

Vivienne começou a criar t-shirts com mensagens anti-sistema e calças bondage, que não ocultavam a inspiração no imaginário sado-masoquista. Ao choque de alguns correspondeu o entusiasmo de muitos mais, que procuravam cada vez mais as novas criações. Para "surfar" esta onda de notoriedade, o duo deu um passo em frente, abrindo uma loja própria em King's Road, que começou por se chamar Paradise Garage, mas depois se tornou Too Fast to Live, Too Young to Die e - last but not leastSEX. É a partir deste palco londrino que Vivienne começa a tornar-se notada.  Veste as bandas New York Dolls e Sex Pistols e os anos 80 marcarão a sua consagração, conquistando faixas cada vez mais amplas de público. Com um toque de irreverência que talvez só seja possível na Grã-Bretanha, até a "dama de ferro" Margaret Thatcher lhe encomendou um tailleur, que a própria criadora vestiu na capa da revista Tatler, uma espécie de órgão oficial da aristocracia e realeza britânicas. Nesse mesmo ano, que foi 1989, a Women's wear Daily distinguiu-a na lista dos seis melhores estilistas do mundo. No ano seguinte foi considerada Designer Britânica do Ano, título que viria renovado no ano seguinte.

Separada de Malcom McLaren, apresentou, em 1981, o seu primeiro desfile em Londres. O nome da coleção? Pirates, inspirado, como o nome indica, no universo rebelde, mas cheio de estilo, desses fora da lei que sulcavam os mares à espreita de um bom saque. A crítica rende-se. Na primavera-verão de 1982, a coleção chama-se Savage e mistura peças de inspiração ameríndia com elementos da farda da Legião Estrangeira. Em 1983, regressa ao punk (com Punkature), numa coleção que torna clara a inspiração num dos grandes filmes do ano, Blade Runner, de Ridley Scott. 

Culta e visualmente erudita, Vivienne Westwood cruzou referências no seu trabalho criativo. A provocação persistia, mas nunca foi gratuita ou um mero trunfo comercial. Mais tarde, diria: "Tens de investir no mundo, tens de ler, tens de ir às galerias de arte, tens de descobrir os nomes das plantas. Tens de começar a amar o mundo e conhecer todo o génio da raça humana. Somos pessoas incríveis." Enquanto se inspirava em pintores clássicos como Jean-Honoré Fragonard e François Boucher, não cedia na forma e recuperava o rigor da arte da alfaiataria inglesa da londrina Saville Row.

Em 1983, no seu atelier em Londres.
Em 1983, no seu atelier em Londres. Foto: Getty Images

Em 1988, os tablóides entusiasmaram-se com Vivienne Westwood, ao descobrirem que esta mantinha um relacionamento amoroso com Andreas Kronthaler, um estudante da Escola de Artes Aplicadas de Viena, de 22 anos. Mas a pressão mediática e a diferença de idades (a designer tinha então 47 anos) não os assustaram. Casaram no princípio da década de 1990 e Vivienne dizia sempre que lhe devia uma consciência ecológica e ambiental que não tinha. No final do século, Vivienne tornar-se-ia uma das primeiras criadoras de moda a empenhar-se no uso de matérias-primas naturais e a banir as peles animais das suas coleções. Envolveu-se na campanha da Greenpeace em defesa do Ártico, desenhando uma t-shirt para o efeito. O produto das vendas reverteu inteiramente para a ONG. Não mais parou, usando a notoriedade conquistada em prol das causas que defendia. Em março de 2021 (já depois de ter cedido a direção artística da sua marca ao marido), dizia numa entrevista à Elle francesa: "O que me dá esperança é ver que, finalmente, as pessoas começam a tomar consciência da gravidade da crise ambiental." Deu então rosto à campanha "Comprar menos, escolher melhor", que sublinhava a importância das escolhas conscientes de consumo.

Num dos seus desfiles em 1994.
Num dos seus desfiles em 1994. Foto: Getty Images

Em 1992, pela relevância internacional do seu trabalho, recebeu das mãos da rainha Isabel II o título de oficial da Ordem do Império britânico e, em 2006, o então príncipe de Gales (atual rei Carlos III)  tornou-a Dame. Mas o reconhecimento real não a domou. No mesmo ano em que recebeu esta última condecoração, criou uma coleção de t-shirts em que se podia ler "I Am Not A Terrorist, Please Don’t Arrest Me". Em 2008, na apresentação da sua coleção de outono-inverno, as modelos executavam uma performance que denunciava os abusos cometidos contra os prisioneiros de Guatanamo. Em 2011, usaria ainda a sua coleção para defender Julian Assange, o "criador" da plataforma Wikileaks.

Numa festa na Clarence House, Londres, em 2010.
Numa festa na Clarence House, Londres, em 2010. Foto: Getty Images

A rebeldia, de que nunca abdicou, pode ser simbolizada pelo facto (descoberto pelos paparazzi) de não ter usado cuecas quando recebeu a condecoração das mãos da rainha, mas está longe de se resumir a isso. Para Vivienne Westwood, nunca houve subversão sem ideias. E estas nunca lhe faltaram.  

"I Am Not A Terrorist, Please Don’t Arrest Me", t-shirt criado por Westwood. Foto: Getty Images
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