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Testemunhos de guerra na Ucrânia. “Agora não sinto nada, chorei durante cinco horas. Só queremos estar em paz no nosso país"

Sasha, Anastasia e Dariia têm entre 24 e 26 anos, acordaram à mesma hora, num país que enfrenta um ataque massivo por parte da Rússia. Contaram à Máxima o que estão a viver e a sentir, junto das suas famílias e amigos.

Foto: Getty Images
24 de fevereiro de 2022 Rita Silva Avelar

Sasha Kolomiiets está longe do centro de Kiev e atende-nos com os olhos vermelhos e inchados. Está a chorar desde as cinco da manhã, hora em que começaram a ouvir-se bombardeamentos por toda a cidade. Sasha tem 26 anos e está com a avó, a mãe e a irmã de cinco anos. São 15h e a cidade está cinzenta, mostra-nos a vista da janela, que entretanto foi reforçada da maneira possível. "Todos os meus amigos me mandaram mensagens à mesma hora, a dizer a mesma coisa, todos ouvimos bombardeamentos pelas 5h da manhã." Sasha e a família pensaram fugir para a sua casa fora de Kiev, "mas percebemos que a zona está cheia de militares e aviões russos."

"Ninguém esperava isto", desabafa. "Bombardearam os aeroportos fora da cidade. Não podemos mover-nos para lado nenhum, há trânsito por toda a cidade e em todo o país há forças militares a impedir as pessoas de sair e circular. "A nossa esperança está nas Nações Unidas, nos EUA, precisamos muito de ajuda."

Sasha é social media manager e criadora de conteúdos, e está sempre colada ao ecrã para ver as notícias.  Está em choque, e está ainda mais preocupada no momento em que lhe ligamos porque a mãe saiu de casa para ir ajudar turistas que estavam no seu Airbnb, a sair da cidade, ou a decidir para onde ir e ficar a salvo. A irmã de cinco anos está a ver desenhos animados, "é difícil explicar-lhe o que está a acontecer, mas ela pergunta." Neste momento mostra-me a sua mala de viagem, aberta no chão, com o mínimo de coisas para se precisarem de correr para um abrigo mais próximo. 

Interrompe o discurso várias vezes, em silêncios que não precisam de explicação. Sentimos-lhe o terror na voz, o pânico no olhar incerto. "Eu estava a gravar um áudio a uma amiga, que está em Espanha, e consegue-se ouvir os estrondos, mesmo que longe." Pelas 13h, os bombardeamentos eram de dez em dez minutos, diz-nos. Sasha sabe que o país sofreu ataques um pouco por todo o lado. 

De momento não pensam em ir, por exemplo, para a Polónia. "Não há aeroportos, não é boa altura para sair, comboios não sabemos se há. A minha mãe tem um carro, mas não nos sentimos seguras para sair. Iremos para o abrigo em breve, há vários na cidade, temos um mapa. Há um a dois prédios de distância de nós."

"Agora não sinto nada, chorei durante horas. Não percebemos porque isto está a acontecer. Só queremos estar em paz no nosso país. Não queremos mais nada. Só queremos viver no nosso país." As suas palavras têm força e honestidade. Ela é apenas uma miúda, sem saber o que fazer. Custa-nos desligar a chamada entre mais silêncios e lágrimas de desespero.

Anastasia Petrova, markeeter, da mesma idade, atende-nos do centro de Kiev. Pede-nos tempo para se mover para um lugar seguro. Atende-nos menos consternada que Sasha, mas não menos preocupada e alerta para o que está a acontecer na Ucrânia. "Ouvi barulhos muito fortes, pareciam explosões, não sabia se era perto ou não. As pessoas começaram todas a ir para a rua, para ir buscar comida e água, levantar dinheiro. Começou tudo às 5h da manhã" diz.

"Aqui no centro não é tão perigoso como nas zonas fora de Kiev, junto aos aeroportos, há bases militares, e algumas pessoas começaram a sair pelas 6h e 7h, a bloquear as estradas, ninguém se conseguia mover. Decidi ficar em casa, tenho abrigos perto."

Nesse momento, a imagem de Anastasia congela, e esperamos 10 minutos em suspenso. Escreve-nos que ouviu explosões perto e sirenes e que ia a caminho de um abrigo subterrâneo. Promete que nos escreve. Esperamos. Esperamos como o mundo espera um desfecho pacífico para a Ucrânia. 

Mais tarde liga-nos Dariia Pashkova, designer, 24 anos, que está neste momento em Lviv com amigos. "Acordei com sirenes esta manhã às 7h30, desde então tudo parece estranho, não posso acreditar que isto esteja realmente a acontecer. Estou preocupada com a família e amigos, mas também tenho o desejo de ajudar o exército a lutar" diz-nos. "Mudei-me para Lviv há uma semana, mas os meus pais estão em Sumy, a minha cidade natal, que está sob ataque, tento guiá-los de alguma forma, mas há demasiadas incertezas." 

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Sobre o que se passa nas redes sociais e na televisão, Dariia diz que está a tentar evitar as fake news, uma vez que circulam informações erradas plantadas pela Rússia. "Estou a tentar filtrar as notícias que estou a ler. As últimas coisas foram que há um possível bombardeamento em breve, um ataque recente à minha cidade natal. Há outras notícias mais recentes, sobre como agir durante os ataques, e que cidades estão a ser atacadas." Sobre isso, sabe que estar na rua é impensável. "Bem, eu e a minha família vimos um vídeo sobre bombardeamentos há algumas semanas, por isso sei que não devemos estar lá fora, o melhor é estar num abrigo."

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