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O desplante de ser-se privilegiado e o tanto que se pode fazer com isso

Foto: Tár / IMDB
29 de março de 2023 Patrícia Barnabé

Nunca pensei muito sobre o facto de ser branca ou privilegiada. Mas sempre que visitava Luanda, várias vezes por ano e durante uma década, e onde ainda tenho parentes, tínhamos acesso a lugares onde a maioria da população não ia, de facto. Lembro-me dos meus pais mostrarem às filhas como era importante agradecer certos pratos e facilidades num país em guerra civil, pobre, para onde desapareciam os poucos amigos que conseguia fazer numa vida de hotel. Nos anos 80, ainda a milhas da internet e do enriquecimento dos espertos, Luanda era um mundo à parte, como todas as capitais, nós vivíamos na bolha dos europeus, como havia outras tantas. O meu pai não foi à guerra, o seu trabalho era ajudar um país em reconstrução, por isso tive a sorte de crescer numa família que falava de anti-racismo à mesa, como falava de feminismo e de tantas outras causas. No liceu havia um rapaz africano, imagine-se na província portuguesa, e Lisboa era uma cidade branca europeia como Luanda era uma cidade negra africana. Tudo parecia natural. De repente, sou branca privilegiada, como se fosse uma pessoa má.

Também nunca pensei na sorte de ter livros em casa, os meus pais investiram na nossa educação e cedo levaram-nos a ver o mundo, que também nos chegava pela parabólica, uma década antes de o cabo chegar à casa da maioria. Só quando entrei no liceu é que percebi que estava mais bem preparada que os meus colegas que não estudaram em colégios, e só quando comecei a gravar cassetes de vídeo para os músicos meus amigos é que percebi a sorte que tinha. Depois, ninguém escolhe o jornalismo para enriquecer, somos uns eternos sonhadores remediados, mas como lancei as áreas (então) novas que cruzavam as artes, a moda e o lifestyle (ainda nem existia esta palavra), recebo bocas de que sou privilegiada, como se não tivesse suado noites de fecho até às cinco da manhã, engolido várias raças diferentes de sapos e aturado demasiadas divas.

Da mesma forma, nunca pensei que fosse uma sorte ser jovem, ou ter nascido loura numa terra de morenos, ou magra numa terra de roliços. Vá lá, sou petit e nasci mulher no conservador sul da Europa, por isso ainda devo ter direito a queixar-me um bocadinho. Não, espera, há quem viva num país muçulmano, em guerra ou sobrelotado. Por isso, serei sempre uma privilegiada. Está tudo certo, tirando a forma como essa sorte nos é atirada à cara como uma acusação, para gerar culpa ou qualquer coisa desconfortável do género, sem que gere nada de construtivo.

Na era da fulanização e do cancelamento, que até proibe livros nas escolas e piadas aos humoristas, porque não se brinca com coisas sérias, que propõe mudar os romances, para esconder a mentalidade de outras épocas, ou enfia minorias étnicas em cenários e épocas onde nunca estiveram, todos parecemos culpados. Agora ninguém se pode queixar, nem num desabafo, e sentimos o peso do mundo e de tudo, mesmo do que não fizémos, nem para o qual contribuímos – até muito pelo contrário, diz o beiço do meu coração ativista profundo. Claro que herdámos os erros do passado, ainda mais num país colonialista e católico e machista onde a culpa ainda tem um peso ancestral e inconsciente - mas será que é este o caminho?

Conheci há dias uma mulher extraordinária do Mali, que desfilou no Portugal Fashion: Awa Meite. Também ela privilegiada, e muito mais do que eu, por várias razões que só fui percebendo ao longo da conversa, pela primeira vez falava de raça e género com alguém que sentia, à sua escala, o que eu sentia no peso do discurso extremado dos outros. Por termos tido o privilégio de não precisar de sobreviver, concluímos juntas, tivemos espaço, curiosidade e amor para pensar o mundo, nas suas duras diferenças e nos seus pequenos encantos. Porque quem está a esbracejar para se manter à tona não consegue ajudar quem se está a afogar. Ouvi da boca de uma mulher do Mali as palavras mais sábias e tolerantes em relação ao racismo e ao feminismo que alguma vez ouvi, e julgava-me eu tolerante. Awa vai mais longe nas suas causas, ela enraiza o trabalho dos artesãos do seu país e mostra-o ao mundo, ao mesmo tempo que ajuda uma comunidade de mulheres em pequenas aldeias, através da moda. Eu sou apenas uma jornalista que gosta de temas humanistas, mas ao falar com ela, percebi que o preconceito, que esmagara a minha ingenuidade toda a vida, é transversal ao mundo inteiro – não é producente antes levanta as piores reações conservadoras das pessoas mais insuspeitas, como as que aderem ao populismo.

Dias depois de conhecer Awa, entrevistei Elen, uma modelo brasileira que se tornou influencer, mas resolveu usar o seu pódio de beleza e badalação para se dedicar à sustentabilidade ambiental e ao empoderamento feminino como motor de mudança. Entre vários projetos, já criou uma fundação que ajuda diferentes partes do mundo a florescer. Confessava-me, depois de uma hora à conversa, que no início foi duro porque não a levavam a sério. É demasiado bela, alta, magra, jovem, tudo o que existe para invejar.

Vivemos numa era que aponta o dedo a torto e a direito, como se fossemos todos uns grandes culpados por termos tido a sorte de ser amados e cuidados num mundo profundamente injusto. Pomos as pessoas em caixas para falar de diversidade, o que é ridículo. No fundo, somos todos ainda uns aprendizes da justiça e do humanismo. As bocas da reação são pequenas frustrações. Por exemplo, não como carne há quase 30 anos, imagine-se a quantidades de bocas que ouvi toda a vida, do sentimento das couves às minhas estafadas sabrinas em pele. Certas piadas e a sua pequenez nada são mais do que um pedido de desculpas, uma justificação, porque não se consegue ser melhor. O que não tem mal nenhum, cada um tem o seu tempo.

Tudo isto é pequeno se visto lá de cima, de um prisma maior como é o olhar de Awa, como foi o olhar de Elen, duas mulheres tão diferentes, mas das quais nunca ouvimos uma palavra de raiva ou revolta contra o mundo do homem branco privilegiado. Em escalas diferentes, obviamente, ambas acreditam que o mundo só melhora no encontro e a fazer acontecer já e sem concessões. Somos todos iguais no privilégio, como no seu contrário, mas quando a este se junta uma certa nobreza de carácter e aquela ação, que avança sobre as pedras e contra todos os avisos, com um pouco de loucura e desapego, sobressaem os raros que mudam mesmo o mundo a partir do seu pequeno quintal de possibilidade. E são tolerantes e leves porque brincam com coisas sérias, não se limitam a observá-las da bancada e a gritar cá para baixo.
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Crónica, Discussão, Opinião, Privilégio, Patrícia Barnabé
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