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Portugal dos pequenitos

Giambattista Valli Campanha Pre-fall 2021
Giambattista Valli Campanha Pre-fall 2021 Foto: D.R.
23 de julho de 2021 | Patrícia Barnabé

Desde que me tornei freelancer que a ingenuidade que herdei com abundância da infância é ameaçada. Passei a ter de lidar com as coisinhas da vida. Mas também com as descobertas e a liberdade. A ‘nova’ era pós-pandemia está a devolver a alguns de nós, obrigados ou não, uma certa independência, um reset de vida. Descobrir que a sensação de deixar uma equipa – depois do apego se deslaçar – também pode ser de paz e horizonte. Se o mundo fosse justo e bem pago era melhor. É que no fim de cada fim está o princípio de cada princípio. É uma sensação magnífica a da possibilidade, de um futuro, um espaço e um tempo onde tudo pode ser possível. Temos tanto medo de ficar sozinhos porque somos frágeis, e não sabemos que as pessoas mais independentes são, muitas vezes, mais interessantes porque são mais disponíveis. Claro que sinto saudades todos os dias, mas aprendemos tudo, principalmente a largar.

Não é fácil destronar uma optimista empedernida, mas depressa percebi no freelancing a vulgaridade daquela velha ideia de que a boa gente se põe a jeito. É claro que os espertalhões, que não têm piada nenhuma e são demasiado previsíveis, escolhem os bem-intencionados como alvos preferenciais do esticanço. E começa, desde logo, no pormenor de que o trabalho que dá parece sempre muito menor a quem o encomenda. Há momentos em que o chico-espertismo até tem piada, quando é tão ingénuo no seu desespero que é descarado, a chamada distinta lata. Não tem piada nenhuma quando atenta à inteligência básica e se torna sistema, o salve-se quem puder.

Neste ano de equilibrismo desempregado já tive de tudo: projetos que ficaram pendurados e nem água vai; propostas indecentes e sem qualquer noção; orçamentos misteriosos onde a justiça equitativa é altamente subjectiva, é um manancial. Na maior parte das vezes nem se fala em valores, a menos que se pergunte e mesmo assim às vezes demora. Pena, as contas ao fim do mês para pagar não terem essa displicência. Também tive entrevistas de trabalho, agora por Zoom, essa plataforma da empatia moderna, para perceber depois que, afinal, já haviam candidatos preferenciais, mais familiares, por assim dizer, ainda que muito menos experientes, mas isso não interessa nada. As mulheres nas aldeias dantes diziam que "pior do que me trocarem é trocarem-me por uma pior." É o pão de cada dia, no trabalho como nas relações, vale mais a humildade que serve todas as aparências, tantas vezes confundida com a sua versão mais pobre, a modéstia.

Tenho sido igualmente surpreendida por gente boa, a bem da verdade. Que me chama para trabalhos que parecem feitos à minha medida; já fui surpreendida por telefonemas a avisar que o trabalho está a pagamento, uma sorte para quem é péssimo a pedir, seja o que for, principalmente dinheiro. E já fui agraciada por arredondamentos acima do previsto, por se considerarem valores mais justos. Isto para uma otimista empedernida, que acredita na bondade natural do ser humano, corrompida apenas pela sociedade em que vive, de que Rousseau falava, é um verdadeiro bálsamo. O pessimismo é uma grande perda de tempo.

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Estas manigâncias subjetivas no mundo do trabalho são naturalmente mais vigentes em sociedades pequenas. E Portugal, essa grande aldeia em forma de país, é um viveiro de informalidade. O pessoal estica-se porque pode e porque cola, e parece que tem vindo a compensar: para não ter chatices menores acabamos a conviver numa chatice maior. E todos se queixam, mas ninguém refila, é uma chatice, deixa lá, somos especialistas em comer e calar, a amaldiçoar nas costas e, por isso, a admirar os espertos em detrimento dos inteligentes. Basta ver as notícias: até os nossos ladrões são pouco sofisticados. A informalidade portuguesa é a de uma grande família, o país dos amigos, do clientelismo, dos filhos, enteados e apelidos, e que é tão velha Europa das monarquias. O que é que um apelido diz do valor, ou da graça, de seja quem for, alguém me explica?

O melhor é quando esta cultura da informalidade faz aqueles jeitinhos. Quando nos perdoam os trocos que não temos, ou nos enfiam ervas aromáticas no saco das compras no mercado e nos piscam o olho a seguir. É deliciosa a ajuda informal que não pede retorno, do senhor que se agacha para apanhar os papéis que espalhaste no chão desastradamente, a alguém que conhece alguém que conhece alguém no hospital quando estamos com o coração apertado. A flexibilidade de horários no restaurante no bairro, que às vezes nos serve coisas que não estão no menu e doses avantajadas que sobram para um doggy bag, e aquele chiripiti extra para o caminho.

Os portugueses são muito pessoas do bem, não há estrangeiro que para cá se mude que não os elogie, já entrevistei dezenas, que não se cansam de exaltar uma simplicidade e generosidade naturais que parecemos não ter perdido. Muitos deles, no fundo, procuram resgatá-las, vindos de cidades anónimas e implacáveis. Um amigo sueco disse-me, uma vez: "Aposto que se alguém cair no chão em Lisboa algumas pessoas acodem." Algumas? Às vezes são tantas que só atrapalham. A primeira vez que fui a Londres, tinha 23 anos e vi uma multidão galgar um pobre diabo que teve o azar de cair de bêbado à saída do metro. Fiquei em choque. Adoro ser ‘tuga’ e tive a sorte de nascer ingénua como o meu país. Mesmo quando percebo que me estão a trapacear, faço de conta que estão distraídos ou não fizeram por mal.

 

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