Histórias de Amor Moderno: “Acabámos por fazer as pazes comigo sentada em cima da mesa e ele de pé, a agarrar-me pela cintura”
"O carro que me perseguia atravessou-se à minha frente e obrigou-me a travar bruscamente." Todos os sábados, a Máxima publica um conto sobre o amor no século XXI, a partir de um caso real.
Tudo começou numa dessas plataformas de venda de coisas em segunda mão. Faço muitos negócios, vendo malas e roupas que já não uso enquanto procuro outros produtos, por exemplo, cremes para a pele, perfumes, alguma cosmética. Só compro produto certificado, claro. O que costumo vender é tudo de confiança, são coisas que comprei há mais ou menos tempo, mas nada está velho nem demasiado usado.
Há alguns utilizadores - por norma, utilizadoras - da plataforma com quem mantenho contacto de alguma espécie, normalmente porque já fechámos negócios diversas vezes e correu sempre bem. É normal que se desenvolva uma relação de, pelo menos, alguma cordialidade, qualquer coisa no âmbito do “como está, como tem passado, como vai”. Eventualmente, em alguns casos, a conversa evolui um bocadinho para lá desse ponto.
Houve dois ou três casos em que os utilizadores - sempre utilizadores, nunca utilizadoras - tentaram estreitar um bocadinho mais os laços, criar proximidade. No fundo, e para ser mais clara, fazer conversa de engate. Foi isso. Acontece que não tenho talento nem espírito para conversas desse tipo. Essas coisas que não tenho. Coisas que tenho: um marido. Um marido que eu amo. Portanto, essas mensagens que recebi foram invariavelmente becos sem saída.
Nem todos os becos sem saída são iguais. Alguns têm configurações muito particulares. Um desses utilizadores, apesar das minhas constantes deflexões e silêncios, não parava de insistir em meter conversa. Por vezes, fazia-o com gentileza, até com subtileza. Noutras ocasiões, era deliberadamente inconveniente, direto, ácido, a roçar a malcriação.
Independentemente do registo, limitava as minhas reações ao mínimo. Fizemos alguns negócios, supostamente com produtos que a mulher do utilizador trazia para casa e pretendia vender. Não sei se é verdade, suspeito que não. Mas os negócios foram sempre corretos, nada tenho a apontar. O que me incomodava era mesmo a forma como ele me abordava constantemente.
Um dia, à saída do estacionamento do centro comercial que habitualmente frequento, notei que um carro branco seguia atrás de mim. Como o trajeto que faço até casa é bastante específico, temi que o carro branco que continuava no meu encalce estivesse a perseguir-me. Mudei de velocidade, acelerei, travei, mudei de direção, e o carro sempre atrás. Era certo que me estava a perseguir. Assustada, liguei para o meu marido, que ligou para a polícia antes de se dirigir para um certo ponto onde eu disse que ia parar. “Não pares, Isabel, continua a conduzir”, ordenou-me. E foi o que tentei fazer. Só que o carro que me perseguia às tantas atravessou-se à minha frente e obrigou-me a travar bruscamente para não lhe bater.
Assim que parámos, uma mulher saiu de dentro do carro e veio direito a mim. Vinha vestida com uma certa elegância, com um estilo vincado. Botas de salto alto, meias pretas, saia moderadamente curta, um casaco branco e longo, óculos de sol muito escuros e muito grandes, uma carteira pendurada no braço.
Aproximou-se da janela do meu carro e bateu com as nozes dos dedos, como se estivesse a bater à porta. Notei que tinha os lábios preenchidos com algum exagero. Percebia-se que fazia correções faciais e a maquilhagem pareceu-me deselegante e forçada, revelando alguns contornos quase masculinos. As pestanas postiças, demasiado longas, eram um claro erro de casting.
Comigo nesta espécie de torpor crítico, avaliando o estilo da mulher, voltou a bater no vidro com alguma impaciência. Estava zangada. Olhei para ela assustada e não abri. “Baixa o vidro, sua velhaca!” Achei alguma piada ao termo escolhido para me ofender, “velhaca”. “Abre a janela, já!” Eu disse-lhe que não. Perguntei-lhe o que queria, quem era ela afinal. Começou a bater-me nos vidros com mais força, estava possuída. Bateu, bateu, bateu, com aquela sua maneira estranha, com a carteira no braço e os óculos a baloiçar-lhe sobre o nariz. Começou a perder a compostura, o cabelo ficou despenteado. Só gritava “velhaca, és uma velhaca, sai da minha vida! Deixa-me em paz!” E depois, do nada, meteu-se no carro dela e arrancou.
Eu estava em pânico. Devo ter ficado uns bons 10 minutos a olhar para o vazio e a tentar perceber o que tinha acabado de acontecer. O meu marido não parava de me ligar, também em pânico, claro. Mas eu nem conseguia atender. Por fim, lá despertei do meu estado letárgico e comecei, de novo, a recuperar a capacidade de reação. Liguei para o Zé Miguel, o meu marido. Contei-lhe o que tinha acontecido e disse-lhe que ia para casa. Antes de desligar, ainda lhe perguntei se andava metido com aquela mulher. Ele desligou-me o telefone.
Em casa, o Zé Miguel chegou e sentou-se junto a mim. “Mas tu és louca?”, perguntou-me, num tom entre o incrédulo e o irritado, mas ao mesmo tempo preocupado comigo, parece-me. “Não ando metido com ninguém”, disse. “Aliás, isso nem sequer faz sentido. Se eu tivesse um caso com essa mulher, porque raio é que ela havia de ir tirar satisfações contigo? Isso é um absurdo.”
Fiquei em silêncio. Na verdade, o raciocínio do Zé fazia sentido. Eu não estava a pensar bem. Mas, então, o que é que aquela mulher tinha contra mim? O Zé Miguel antecipou-se: “Para ela ir ter contigo, é porque deve achar que o marido DELA anda CONTIGO. Entendes? É ao contrário, Isabel. Não sou eu que tenho de clarificar esta situação: és tu. Tu! Portanto, já que tiveste a audácia de me perguntar semelhante coisa, eu devolvo-te a pergunta: andas metida com o marido daquela mulher? Quem quer que ele seja, que eu nem percebo nada do que está a acontecer aqui.”
Logicamente, não ando metida com ninguém. E acredito que o meu marido não quisesse fazer-me a pergunta, pôr-me em causa. Simplesmente, pretendeu fazer-me ver e compreender o grau de absurdo da minha própria dúvida. “Não, claro que não”, respondi, confusa. E disse-lhe que também não percebia o que estava a acontecer.
O que se seguiu foi bom. Ele acarinhou-me, abraçou-me, e eu abracei-o, primeiro com ternura, sentindo aconchego, depois com amor. Acabámos por fazer as pazes da melhor maneira possível, ali mesmo, na sala de jantar, comigo sentada em cima da mesa e ele de pé, a agarrar-me pela cintura. No fim, quando acabámos, só consegui dizer “temos de descobrir o que se passa”. Não foi o final mais romântico, mas foi sincero.
Ao fim de duas semanas a tentar desvendar o mistério, não tínhamos chegado a grandes conclusões. Até que o Zé Miguel se lembrou: terá a ver com o tipo da Vinted? Eu contara ao meu marido que havia um tipo que metia conversa comigo de uma maneira um bocado abusiva. Peguei no telefone, abri a aplicação, entrei na conversa que mantinha com o homem. Fui direta ao assunto: “Acho que a sua mulher me perseguiu na estrada. Por favor, faça com que essa loucura não se repita.”
Não obtive resposta de imediato. No dia seguinte, tentei abrir de novo a conversa, mas ele tinha-me bloqueado, ou então apagou a conta. Sumiu, evaporou-se. Não havia vestígios da presença daquele homem. Comentei com o meu marido que talvez fosse melhor assim, que o melhor seria esquecer o assunto.
Alguns dias mais tarde, quando saí do escritório e me preparava para entrar no carro, notei que havia um papel enfiado e preso no limpa-para-brisas. Peguei no papel e desdobrei-o. Continha uma mensagem que passo a transcrever, na íntegra:
“Olá, fui eu que a persegui no outro dia. Peço desculpa. O meu marido é um porco. Um porco! Vou-me separar dele, já decidi. Vou deixá-lo, ele não me merece. Mas a senhora não tem culpa. Ele andava metido era com outra da Vinted. Eu é que confundi. Peço desculpa. Não me leve a mal. Uma mulher às vezes perde a cabeça. Prossiga a sua vida e, por favor, esqueça o episódio. Foi tudo um equívoco.”
De novo, fiquei sem reação. Depois, peguei no telefone, “‘tou, Zé? Olha, amor, tu nem vais acreditar.”
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