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Por dentro do "Clube de Combate Feminista”: um manual de autodefesa para mulheres trabalhadoras

É um manifesto útil e divertido sobre como lidar com o sexismo no local de trabalho. Se só tiver tempo para ler um livro neste mês em que se celebra o Dia Internacional da Mulher, que seja este.

Livro "Clube de Combate Feminista" oferece um manual de autodefesa para mulheres no trabalho
Livro "Clube de Combate Feminista" oferece um manual de autodefesa para mulheres no trabalho Foto: Getty Images
06 de março de 2026 às 11:44 Madalena Haderer

Imagine que há por aí uma milícia feminista que se movimenta nas sombras, um grupo de guerrilha urbana para fazer valer os direitos das mulheres, uma espécie de sindicato underground do mulherio empoderado. O livro Clube de Combate Feminista é sobre essa unidade de contra-ataque ao patriarcado e de defesa da mulher independente e trabalhadora. Na prática, é como se tivéssemos nas mãos o livro de atas dessas reuniões secretas, onde estão descritos todos os métodos de combate para todas as desfeitas, humilhações e condescendências que as mulheres sofrem ao longo da vida, principalmente quando estão a tentar construir uma carreira (ou, vá, a tentar chegar ao fim de cada mês com saldo positivo na conta bancária e na autoestima). Escrito pela jornalista e autora norte-americana Jessica Bennett, Clube de Combate Feminista é muito mais que um livro, é um "manual de sobrevivência", como diz na capa, mas é também um manifesto de irmandade e independência. Se só tiver tempo para ler um livro neste mês em que se celebra o Dia Internacional da Mulher, que seja este.

Livro 'Clube de Combate Feminista' oferece um manual de autodefesa para mulheres no trabalho
"Clube de Combate Feminista": um manual de sobrevivência por Jessica Bennett Foto: DR

Como já deve ter percebido, o título deste livro é inspirado no famoso filme Fight Club (1999), realizado pelo grande David Fincher e protagonizado por Edward Norton e Brad Pitt, que é, por sua vez, inspirado no livro com o mesmo nome, escrito por Chuck Palahniuk. Se viu o filme, sabe que a primeira regra do Fight Club é: "Não fales sobre o Fight Club". A segunda regra é igual à primeira, mas com letras maiúsculas. No livro de Jessica Bennett impera o oposto: "É obrigatório falar no Clube de Combate Feminista." Porquê? Porque queremos muitas combatentes e porque queremos ajudar o máximo número de mulheres possível. Outras regras incluem “lutar contra o patriarcado, não entre nós” e “jurar que ajudará outras mulheres – todas as mulheres”. Também se recomenda que use roupa confortável porque a luta está para durar. 

Clube de Combate Feminista – chamemos-lhe CCF – tem tanto de divertido como de útil. O livro identifica os diversos inimigos internos e externos da mulher trabalhadora e oferece diversas opções para os combater. Isto, claro, referindo sempre que todas nós temos obrigação de fundar a nossa própria célula do CCF – com chocolates, chá, café, bolo acabado de sair do forno, gin tónico, bolachas de água e sal, palitos de cenoura e o que mais faça falta para atrair massa crítica. As sessões devem ser semanais e podem terminar com o visionamento de filmes empoderados, como o Working Girl (1988), de um tempo em que o Harrison Ford ainda estava muito bem para as curvas, mas isso é mera coincidência.

Jessica Bennett conta que o seu próprio CCF “foi criado certa tarde no piso superior de um McDonald’s em Manhattan”. Na altura, eram apenas três mulheres. “Uma delas, assistente de investigação, andava há mais de um ano a desempenhar funções próprias de alguém com um ordenado dois níveis acima do seu – mas sem beneficiar do título ou da justa compensação. (Quando pediu para ser promovida, responderam-lhe que não era a altura certa.) Outra mulher, depois de quatro anos como assistente, foi de facto ‘promovida’, mas sem ter aumento no salário”. Enfim, dramas com os quais qualquer mulher se identifica. Decidiram, então, juntar-se no apartamento de uma delas, com convites dirigidos a amigas e amigas de amigas. Eram cerca de uma dúzia, todas na mesma situação: jovens, cultas, com educação superior, privilegiadas, em teoria, mas, na prática, estagnadas, desgastadas e mal pagas.

Ao juntarem-se, fizeram aquilo de que a geração feminista da mãe da autora tanto falava: “Percebemos que os nossos problemas eram coletivos . E se eram coletivos, então podíamos lutar contra eles – porque tínhamos outras mulheres a apoiar-nos.”

Neste seu livro, Jessica Bennett mistura histórias pessoais com investigações, estatísticas, infografias, conselhos de especialistas e uns desenhos muito engraçados. Se está sempre a ser interrompida nas reuniões pelos seus colegas masculinos, se um deles tem particular prazer em explicar-lhe coisas óbvias de forma paternalista, se está sempre a ser preterida nas promoções, se vê as suas ideias serem roubadas pelo colega do lado, se fazem de si a estenógrafa ou barista de serviço, se o ambiente é excessivamente masculino e a tratam como se fosse mãe da rapaziada, este livro é para si, sendo uma arma poderosa no combate ao inimigo externo – mas não o atire à cara de ninguém, se conseguir evitar.

Livro 'Clube de Combate Feminista' oferece um manual de autodefesa para mulheres no trabalho
Foto: DR

Porém, convém não esquecer que também estamos em luta com o inimigo interno: cada uma de nós quando entra em modo auto-sabotagem. Tem boas ideias, mas dificuldade em expressá-las? Fala como uma miúda de 16 anos? Não quer ser vista como fria e distante, por isso enche toda a gente de (demasiado) amor e carinho? Quer pedir um aumento, mas arranja todas as desculpas para não o fazer? Então, este livro é decididamente para si.

Para cada inimigo identificado, a autora fornece três ou mais soluções. E, quando tudo o resto falha, tem sempre o capítulo “OQFOM – O Que Faria o Manuel?”, que lhe recomenda que assuma a mesma confiança de um medíocre homem branco – sempre seguro de si, ainda que de meia idade, calvo e com pancinha. 

O “Clube de Combate Feminista” foi editado pela Alma dos Livros, custa €14,45 e está disponível nas livrarias do costume.

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