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Dolly Alderton: “Ensinam-nos desde muito jovens a deixar os homens ser homens. Não os enerves, encolhe-te, fica calada.”

Depois do sucesso de 'Tudo o que sei sobre o amor', a autora britânica publica agora a sua primeira obra de ficção, 'Estás aí?'. Em entrevista à Máxima, Dolly Alderton fala sobre ghosting, tema central do livro, mas também do seu vício pelas redes sociais, do medo permanente de ser “a louca” e do sexismo que se revela nas aplicações de encontros.

Foto: Penguin Books
28 de junho de 2021 | Joana Moreira

A gestão de expetativas é difícil de gerir, sobretudo após um bestseller, mas Dolly Alderton parece ter encontrado conforto na segurança de escrever sobre o que sente, mesmo quando não foi ela a experienciá-lo. "É tudo real e nada disso aconteceu" é uma frase que ouviu algures e que repete como mantra.

A autora britânica publicou em 2018 Everything I know about love (em português, Tudo o que sei sobre o amor) longe de sonhar que o retrato dos seus vinte anos seria um fenómeno de vendas. Por todo o mundo houve quem se relacionasse com a dureza de crescer, de procurar emprego, de lidar com más festas, maus encontros, de descobrir quem são as amizades de verdade. O memoir espelhava parte de uma geração de mulheres que se reviu em cada percalço, cada vitória, cada sonho. Estás aí? (Cultura Editora), o segundo livro da autora, agora editado em Portugal, em nada se assemelha à obra anterior. Trata-se do seu primeiro romance, uma história de ficção sobre uma mulher de trinta anos, solteira, bem-sucedida, e que instala uma aplicação de encontros para conhecer o homem ideal, que aparece tão rapidamente como desparece.

Em entrevista à Máxima, via Zoom, Dolly fala sobre a pressão que sentiu para não defraudar os leitores, da liberdade de escrever o imaginado e, claro, de ghosting.

Estás aí?, de Dolly Alderton, € 17,50, Cultura Editora
Estás aí?, de Dolly Alderton, € 17,50, Cultura Editora
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Tudo o que sei sobre o amor é um livro autobiográfico. De que forma é que a abordagem à escrita deste novo livro foi diferente?

Obviamente quando estamos a escrever algo autobiográfico, no que diz respeito à personagem e à trama, estamos de certa forma restritos aos eventos da nossa própria vida. É mais fácil porque não temos de puxar muito pela imaginação. Mas, por outro lado, a narrativa da vida como a conhecemos não é muitas vezes satisfatória ou sequer entusiasmante. A protagonista, ou seja, nós, muitas vezes não faz as melhores escolhas. A visão sobre o mundo e o cenário pode ser bastante limitativo. Quando estava a escrever o romance estava a mergulhar nas minhas experiências para parte da história e parte das personagens, mas houve uma oportunidade para descobrir o mundo e as relações, a biografia das personagens. Deixei-me ir a sítios que eu própria não experienciei só porque era um luxo comparado com a escrita de um memoir.

Tendo essa experiência do memoir, em algum momento do processo teve a tentação de se colocar na história?

Definitivamente. Não fiz só isso para a Nina (a protagonista), fiz isso para todas as personagens. Inspiro-me muito na vida real para escrever. Muitas das ideias que tenho para livros vêm de conversas com amigos, da minha experiência e da deles que generosamente partilham comigo. Eu não queria que [o livro] fosse uma autoficção, queria que fosse ficção. Por isso é que a maioria dos eventos que acontecem no livro não me aconteceram a mim, pelo menos diretamente. Alguns dos sentimentos foram os mesmos, mas há uma frase que ouvi que é tão verdadeira: é tudo real e nada disso aconteceu. É verdadeiro, mas não é autobiográfico. Tentei desafiar-me ao ter uma personagem cujo pai sofre de demência. Eu nunca tive nenhum tipo de doença prolongada, ou demência, na família. O histórico de relações dela é muito diferente do meu. Voltando à questão, acho que estou tão habituada a confiar nos eventos da realidade para ditar a estrutura da história que houve momentos em que estava demasiado presa a algo que experienciei e que achei engraçado ou insano, ou triste, e que por alguma razão não resultou no papel, ou não fez sentido para a personagem na história. É difícil ser capaz de largar isso quando se está tão habituado a escrever sobre a vida real. Mas é muito importante.

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Ter esse controlo só é possível quando se escreve ficção, porque quando se escreve não-ficção é a vida que dita e acontece?

Sim, sem dúvida.

Escrever este livro foi, nesse sentido, mais libertador? Por não ter de partilhar tanto?

Sim, foi incrível! Nunca mais quero escrever não-ficção. Nunca mais (risos). Escrever ficção e escrever este romance foi o período criativo mais feliz da minha vida. Foi a altura em que estive mais feliz no trabalho. Foi muito libertador.

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É curioso porque muitos escritores falam na escrita de um livro como um processo difícil, até doloroso.

Eu sei, mas a esses escritores eu digo: experimentem escrever o vosso memoir a descrever a idiota que eram quando eram adolescentes ou nos vintes e depois disso vão dizer ‘dêm-me um romance em qualquer dia, que eu fico contente a escrever sobre pessoas inventadas’ (risos). Mas sim, foi libertador, senti-me muito criativa, foram como férias para o meu cérebro. Adorei toda a pesquisa que fiz sobre demência, o processo de construir essa história e essa personagem. Ouvir diferentes pontos de vista sobre essa experiência. Depois de escrever aquele memoir, não foi só ‘expus-me naquele livro’. Aquele memoir acabou por vender centenas de milhares de cópias, muito mais do que alguma vez imaginei que iria vender. Não só tive de processar a exposição da minha vida daquela forma, que eu escolhi deliberadamente, mas depois ter de falar de todas essas experiências pessoais, uma e outra vez... Tive de fazer eventos, divulgação internacional, senti-me muito exposta no final desse ciclo. Por isso tudo o que significasse não falar e não falar de mim mesma, e que fosse sobre escrever sobre pessoas imaginadas, era perfeito. Era o que a minha alma precisava.

Numa entrevista recente no podcast Out to Lunch falava da decisão de sair do Twitter. Como é a relação que tem hoje com as redes sociais, numa indústria em que a exposição e partilha permanente pode ser também uma forma de ajudar a vender?

Eu era totalmente viciada em redes sociais. Durante muito tempo, eu diria que praí durante 8 anos. Eu sabia que o Twitter se estava a tornar num sítio que não era bom para mim. Cheguei a um ponto de rotura na primavera passada e, de repente, decidi que nunca mais queria fazer log in naquele site. Dei à minha melhor amiga a password, ela ofereceu-se e hoje é ela que faz os meus tweets para que eu nunca tenha de lá ir. Acho que hoje vou lá a cada três meses, para ver se tenho algumas mensagens privadas, mas é só para partilhar o meu trabalho. Ela partilha todo o meu trabalho por lá para que eu não tenha de o fazer, e para que não tenha de ver o feed de notícias.

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E no Instagram?

Tem sido mais difícil porque adoro fotografias bonitas, sou cusca com a vida das pessoas e adoro compras, maquilhagem, adoro animais fofinhos (risos). Por isso ainda me permito lá estar. A minha amiga tem a minha password e eu vou lá a cada duas semanas e posso estar por lá um dia à vontade, e depois ela muda a minha password outra vez. Se isto soa a [discurso de] alguém viciado é porque é, e eu tenho noção que a maioria das pessoas não precisa deste tipo de restrições, e que consegue usar [as redes sociais] no dia-a-dia de uma forma segura. Só que não é seguro para mim usar todos os dias, traz o pior em mim. Agora, claro que é uma boa plataforma para partilhar trabalho. Aliás, já nem partilho tanto a minha vida pessoal. Tento ser pessoal ao partilhar os meus gostos, mas é muito menos do que o que fazia nos meus vintes, em que era literalmente um diário do que se passava comigo, na minha vida e com as minhas emoções.

Em Estás aí? explora como a tecnologia hoje domina a cena amorosa e defende que os homens mantêm o poder nas aplicações. Acha que estas aplicações são por natureza sexistas ou são os utilizadores que se acabam por refletir nelas?

Boa questão. Acho que quando falo do sexismo das aplicações de encontros estou a falar num momento específico do tempo, estou a falar de mulheres no início dos trintas e da subsecção de mulheres que sabe que quer ter filhos. Sim, acho que é sexista. Uma aplicação de encontros formaliza o que muitas mulheres sabem que é verdade há muito tempo que é: no que toca a amor, domesticidade e vida familiar, o sistema está feito para que os homens tenham muito mais tempo do que as mulheres. Há uma sensação, não para todas as mulheres, mas para aquelas que sabem que querem ter filhos, que quando se entra nos trintas e se está a namorar, estamos num período de tempo cada vez mais curto. Acho que é um período de tempo maior do que nos fazem acreditar, e muita da ciência em torno da fertilidade está datada, não acho que a janela de oportunidade seja assim tão pequena como nos dizem, mas ainda é uma janela. Se juntarmos a isso o facto de os homens poderem ter filhos em qualquer altura da vida, e haver esta abundância de escolha, então sim, acaba por ser uma questão de género, e acaba por parecer que as mulheres têm uma experiência mais stressante nestas aplicações do que os homens, pelo menos neste período da vida. Dito isto, nos meus vintes, quando não estava à procura de nada sério e estas aplicações começaram a existir, tive uma muito boa experiência com as aplicações.

"Uma aplicação de encontros formaliza o que muitas mulheres sabem que é verdade há muito tempo que é, no que toca a amor, domesticidade e vida familiar, o sistema está feito para que os homens tenham muito mais tempo do que as mulheres."

Esta diferença entre estar nas aplicações com vinte ou trinta anos espelha a obsessão geral pela juventude?

Claro. Acho que é a Lola que o diz no livro, que é [uma personagem que é] pioneira nas dating apps, que seria uma destas mulheres millennial que aos 24 anos foi a primeira a fazer download do Tinder, e que está sempre a partilhar estes mitos urbanos. Acho que é ela que diz que quando chegas aos 30 os teus matches reduzem para metade. E isso é algo que tenho ouvido as mulheres dizer. Mas como já não estou lá não sei.

Quando o ghosting é abordado na história toca no estereótipo de não querer parecer a mulher louca. Porque é que foi importante relacionar estes dois e retratar este medo?

Porque acho que o ghosting amplifica esse medo que temos desde muito novas. No romance, nos namoros, no local de trabalho, com estranhos, quando estamos com homens estranhos, quando nos sentimos vulneráveis, ensinam-nos desde muito jovens a não ser demasiado emotivas, a não escalar, a deixar os homens ser homens. Não os enerves, encolhe-te, fica calada, sê reconfortante, não arruínes o dia dele (risos).

Sê invisível.

Sim. Encolhe-te, encolhe-te, em silêncio, e vais conseguir o que queres. Isso é algo que é muito frustrante no ghosting, é que temos todo o direito de perguntar a alguém e exigir responsabilidade se ela desaparece sem deixar rasto. Mas mesmo dizer isso em voz alta, parece enquanto mulher que estamos a exigir tanto espaço. Isso em 2021 é preocupante. E eu sou culpada disso também, ainda hoje. O número de vezes em que eu paro antes de enviar uma mensagem a um homem ou estou num date e penso ‘não quero assustá-lo". Isso é uma coisa com a qual acho que os homens não têm de se preocupar.

Enquanto mulher e com a ascensão de movimentos feministas, estamos mais conscientes das dinâmicas de poder?

Não quero soar a uma estudante de estudos de género, mas é este o truque do patriarcado, foi construído em bases sólidas e difíceis de desconstruir. Estamos todos a viver sob elas e estamos todos amarrados nos padrões patriarcais. No livro a Nina é uma feminista, é alguém que está muito consciente da desigualdade e discrepância entre géneros, basta ver a forma como ela fala de casamentos e das amigas casadas, do trabalho parental, da divisão dessas tarefas. Ela não podia ser mais cínica em relação a isso. Ela tem o seu apartamento, tem independência financeira, uma carreira de sonho, e o que é que quer mais do que tudo? Um marido e um bebé. Ela sente-se a curvar para tentar acomodar isso. Tem medo que isso possa ser algo que ela não venha a ter nunca. Isso pode ser muito stressante para muitas mulheres. Como é ter noção da realidade que é ser mulher no mundo e ao mesmo tempo continuar a querer coisas relativamente tradicionais? Muitas mulheres debatem-se com isso todos os dias.

Tudo o que sei sobre o amor tinha um tom bastante otimista, esperançoso até. Aqui o tom é mais maduro, mais cínico, até, por vezes. Como será o próximo livro?

Estava muito consciente disso quando estava a escrever este livro porque acabei por conseguir alcançar um público incrível com o primeiro. Esse livro captou realmente onde estava nessa altura da vida, tinha passado por um período muito caótico nos meus vintes, fiz terapia pela primeira vez na minha vida, era saudável pela primeira vez em muito tempo, estava a viver em verdade pela primeira vez, estava no final dos meus vintes, tinha 28 anos quando o escrevi, estava a olhar já para uma nova década, para uma nova fase da minha feminilidade. Fui tão honesta, sincera e entusiasmada. Achava que sabia tudo! Quando olho para trás e vou ler os últimos capítulos nem quero acreditar quão segura de si aquela miúda era. Tão segura e otimista de que nada além de coisas boas viriam. E as coisas foram difíceis nos últimos anos, não foram tão fáceis como eu achei que seriam depois da minha epifania no fim dos meus vintes.

Quando escrevi este livro estava muito mais em conflito e confusa com a vida, o envelhecimento, homens e mulheres e heterossexualidade e bebés e amizades. Estava muito preocupada quando escrevia por poder estar a desapontar estes leitores que queriam ter um novo livro que fosse igualmente otimista e esperançoso ou que satisfizesse a promessa do livro anterior que era que a vida ficava mais fácil à medida que envelhecíamos. E tive de ignorar isso. Não posso escrever para leitores antigos ou para uma noção de público, tenho de escrever o que é verdadeiro. Este não é autobiográfico, mas capta o estado em que eu estou nesse tempo, que é cheia de questões e perguntas por responder.

"Não posso escrever para leitores antigos ou para uma noção de público, tenho de escrever o que é verdadeiro."

A sua escrita tem por base temas como o amor, as questões de género, a amizade também. É por aqui que continuará?

Percebi recentemente que só vou escrever sobre o amor. O meu primeiro livro é sobre amor, amizade e relações. O meu segundo livro foi sobre amor e amizade, homens e um bocadinho sobre família. Acho que o meu próximo vai ser muito sobre família. Nunca mergulhei profundamente na família. Basicamente estou interessada em escrever sobre relações e como elas determinam quem nós somos. Isso é a base das minhas histórias. Essas viagens emocionais são aquelas em que eu estou mais interessada.

Aprendeu alguma coisa sobre relações com a escrita?

Sim. Escrever é uma profissão indulgente, é basicamente convidar a reflexão num ritmo diário. Sinto sempre pena das pessoas que são amigas ou companheiras de escritores quando têm discussões. Porque quando tenho discussões sinto que tive tanto tempo para juntar os pontos das coisas e de analisar tudo, porque muito do processo de escrita é pensar sobre o que aconteceu na minha infância que me afetou e como é que me sentia com aquela amizade... Os escritores têm esta fluência imediata e sentido de análise pré-preparada. Acredito que seja frustrante para quem tenha um trabalho normal todos os dias, que é professor ou advogado ou médico, e que não tem todo este tempo para se sentar e refletir sobre tudo (risos). Estou constantemente a aprender sobre as minhas relações através do meu trabalho. É um luxo.

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