Celebridades

Françoise Hardy pede o direito a ser eutanasiada

Ídolo da canção francesa nas décadas de 60 e 70, Françoise Hardy está em grande sofrimento físico e reclama o direito à morte medicamente assistida. Mas a legislação francesa não permite.

Françoise Hardy em 1960
Françoise Hardy em 1960 Foto: Getty Images
18 de junho de 2021 | Maria João Martins

Foi, com Sylvie Vartan, uma das meninas bonitas da canção francesa nos anos 60. Em 1962, com apenas 18 anos, alcançou fortuna e fama internacional com a canção Tous les garçons et les filles, que, em poucas semanas, vendeu mais de dois milhões de discos. Ao lado do também cantor Jacques Dutronc, sem dúvida o amor da sua vida, Françoise Hardy tornou-se a "namorada" de França, copiada na franja, nas camisolas de gola alta, nas minissaias por milhares de raparigas. Só tinha rival no outro lado do Canal da Mancha, na também cantora Marianne Faithfull.



Hoje, aos 77 anos, em estado de grande debilidade física por causa de um prolongado problema oncológico, Françoise revelou, numa entrevista à revista francesa Femme Actuelle, que procura a morte medicamente assistida, uma possibilidade que lhe é vedada pela legislação francesa: "Defendo a eutanásia desde os 15 anos", disse. E contou a história da sua própria mãe: "Vítima de esclerose lateral amiotrófica, a minha mãe teve a sorte de encontrar um médico hospitalar que a eutanasiou com a minha colaboração quando ela já não conseguia suportar mais sofrimento no âmbito desta doença incurável. No que me diz respeito, gostaria de ter essa possibilidade, mas temo que a minha pequena notoriedade impeça qualquer profissional de assumir esse risco." Em maio, Françoise, em declarações à revista Paris Match, já considerara as autoridades francesas desumanas por não legalizarem a morte medicamente assistida.

A cantora em 2012 num programa da televisão francesa
A cantora em 2012 num programa da televisão francesa Foto: Getty Images

Os problemas de saúde da cantora começaram há mais de dez anos, quando a um linfoma sobreveio um cancro no ouvido, que a levou a submeter-se, com aparente sucesso, a um tratamento inovador de radioterapia. Mas os efeitos colaterais parecem ter-lhe causado enorme sofrimento e perda irreversível de faculdades motoras. Recorde-se que, em 2018, Françoise Hardy lançara o seu 28º álbum Personne D’Autre, em que o tema da morte e da comunhão com o cosmos estava omnipresente. Numa entrevista então concedida ao jornal britânico Observer, ela afirmava "ter uma ideia muito positiva da morte. De aceitação." No disco incluía-se uma canção chamada Special Train, sobre a qual dizia então: "Na minha idade só espero pelo comboio especial que me há-de levar deste mundo."

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Nesta entrevista à revista Femme Actuelle, a que respondeu por e-mail (por estar demasiado frágil para falar durante muito tempo), a cantora evocou também os tempos felizes vividos ao lado de Jacques Dutronc e do filho de ambos, Thomas (nascido em 1973), também ele músico. Os dois, diz também, estão a par do seu desejo de ser eutanasiada e aceitam-no. Recorde-se que Françoise está separada de Dutronc desde a década de 80, embora o divórcio nunca tenha sido oficializado. Para a ruptura amorosa, muito terá contribuído a fama de grande sedutor dele, que, entre as suas conquistas, terá incluído a atriz Romy Schneider quando, em 1974, ambos contracenaram no filme O Importante é Amar.

No auge da fama, Françoise, uma das protagonistas do chamado movimento ié-ié, representou o Mónaco no Festival da Eurovisão mas a sua carreira, quer como compositora, quer como intérprete, consolidar-se-ia nos anos seguintes, para além da imagem de ídolo das matinés. Cantou autores francófonos como  Django Reinhardt, Charles Trenet, Georges Brassens, Gilbert Bécaud, Serge Gainsbourg, Georges Moustaki, Jacques Dutronc Julien Doré ou Benjamin Biolay, mas também  Paul Anka, Burt Bacharach, Leiber & Stoller, Goffin & King, Buddy Holly, Everly Brothers, Tim Hardin, Phil Ochs, Buffy Sainte-Marie, Neil Young, Randy Newman, Ray Davies e Perry Blake, sem esquecer os brasileiros Jobim, Chico Buarque e Taiguara.

Ao longo da década de 60 veio várias vezes atuar em Portugal, a primeira das quais a 12 de janeiro de 1964, num programa musical da RTP. Numa entrevista ao jornalista desta estação, negava só interpretar canções tristes tal como repudiava as acusações de ser demasiado tímida. "Só sou tímida com as pessoas que me impressionam", dizia.

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