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Crush #2 num verão híbrido, dentro e fora

Quem está por trás da Britney que dança de patins nas ruas de Lisboa? Como são os objetos criados por um artista que se inspira tanto em Brooklyn como na Almirante Reis? Quando as discotecas fecham, que fazem os DJ 's que nos agitaram as pistas de dança de outrora? A Moda pode voltar a ganhar força numa ideia de comunidade? Este é o Crush da Máxima em junho de 2021.

Foto: Pedro Antunes
09 de junho de 2021 | Tiago Manaia

Um Crush é alguém por quem serias capaz de fazer qualquer coisa. Alguém que não consegues esquecer. Alguém em quem estás sempre a pensar.



"EuBrite", para quebrar o cinzentismo da cidade

Jarbas Figueiredo está vestido à civil. Chega à nossa entrevista acompanhado de um amigo, silhueta longilínea, tem um boné desportivo na cabeça. A peruca, o fato de Homem-Aranha e os patins ficaram em casa. As performances que faz na rua lembram-nos a mística do ‘senhor do adeus’, um personagem antigo de Lisboa que em tempos acenou aos carros que passavam na Praça do Saldanha. A melancolia do quotidiano ganhava com ele uma estranha alegria. Jarbas ou "EuBrite", como é conhecido, atua por cima de caixotes de lixo, dança coreografias num palco imaginário, e as estátuas da rua são a sua contracena. Como reagem as pessoas a esta figura andrógina? "Nem todas as reações são boas, mas eu escolho o que me alimenta, quando um sorriso é sincero eu devolvo aquela alegria com um sinal de gratidão. Mas se o riso sair disfarçado de deboche e repulsa, eu penso: ‘Vou continuar a brilhar, e se o brilho incomodar, fechem os olhos’." A voz surge num tom baixo mas decidido, o sotaque é brasileiro. Em julho, Jarbas completa três anos de vida em Portugal, é natural de Posto da Mata, na Bahia. Mudou-se para Lisboa perto do momento em que Bolsonaro assumiu o governo, "foi como um escape, uma contra-resposta de liberdade." Também trabalha como cabeleireiro, mas fala sobretudo dos três palcos que escolheu na cidade — o Largo do Intendente, a Rua Augusta e o Largo do Chiado. 

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Jarbas Figueiredo como 'EuBrite'
Jarbas Figueiredo como 'EuBrite' Foto: Pedro Antunes

É quando sai em direção a estes pontos, sozinho na ciclovia, que aquece para as suas performances que envolvem malabarismo. Os transeuntes param e filmam, não querem esquecer. Jarbas reflete: "tudo o que as pessoas gravam vai fazer parte da minha história, e se as pessoas me gravam é porque deve ter algum significado para elas, deve ter valor?'', questiona. "O céu é o limite", dizemos nós. Jarbas sonha com ecrãs de cinema, palcos de teatro. Projeta o seu futuro nesses sonhos onde artistas como ele estão mais protegidos. Na rua, o desafio acaba por ser psicológico. Ele diz-nos querer desconstruir um corpo que está a emanar respostas. "A inovação é precisa, quando respeita o seu tempo, e nós já estamos no século XXI", remata.

Yen Sung e Photonz juntam-se para nos lembrar que as pistas de dança ainda existem

Quando? É a pergunta que fazemos ao Governo e às autoridades responsáveis. Quando vão abrir discotecas? Haverá um real esforço para que isso aconteça? Estamos ao telefone com Yen Sung, DJ residente no Lux Frágil, fica em silêncio quase um minuto com a nossa primeira questão. "No verão passado, achei que pudesse acontecer, passou um ano e nada mudou", o tom é desolador. Estamos há mais de 15 meses sem dançar, os números da pandemia entre março de 2020 e agora, mudaram consideravelmente.

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Capa da música 'Still' de Yen Sung e Photonz
Capa da música 'Still' de Yen Sung e Photonz

Minutos antes, Yen evocava o fôlego que encontrou quando se lançou na aventura de criar a label de música Alphabet Street, com Marco Rodrigues, mais conhecido por Photonz. Ele é DJ da nova vanguarda lisboeta, ligado a iniciativas dinâmicas como a Rádio Quântica ou as festas MINA, pequenas raves underground que mudaram o panorama da noite lisboeta. Yen Sung há décadas que espalha as suas pistas sonoras pelo mundo, começou no Frágil do Bairro Alto, numa época em que poucas mulheres ocupavam o lugar de DJ. Passou também pelo hip-hop a cantar com os Da Weasel, mas foi na cabine que a sua magia conquistou as discotecas do Mundo. "A Alphabet Street tem a ver com isto de se ser underdog, não é uma ideia literal, mas queremos criar uma plataforma capaz de dar voz a pessoas que estão a tentar fazer algo." 



Yen lembra o seu percurso na música com muitos obstáculos. Ao fim de um ano extremamente calmo, devido às restrições pandémicas, sentiu que tinha de agir, "tive uma espécie de epifania, algo mudou enquanto ouvia música sozinha em casa…  ‘Pensei: ‘temos de fazer música, temos de reagir’, e foi por isso que liguei ao Marco Photonz", conta. Still foi o primeiro tema que produziram juntos, aconteceu rápido, a urgência criativa fechou-os durante um dia num estúdio. A faixa soa como um grito, tem garra e leveza. Parece dizer-nos para não desistir. A pista de dança continua a ser um lugar utópico, onde diferentes corpos se cruzam sem se julgar. Na nova editora, o primeiro nome apadrinhado por Yen e Photonz, chama-se KAKAF, é um jovem lisboeta. No seu tema Pushing ouvem-se as palavras de um discurso de Nina Simone. KAKAF produziu a música depois da morte de George Floyd, há um ano, e das manifestações do movimento Black Lives Matter. Queremos ouvir o que KAKAF tem para nos dizer. Como diria Prince, na sua canção que batizou a editora, Alphabet Street, "We're going down, if that's the only way to make this cruel, cruel world hear what we got to say." O campo de batalha será agora criativo.

Os objetos criados por Phil Panza, onde o artesanato se transforma em street culture 

"Enquanto criativo, sinto que Lisboa é um sítio perfeito. A cidade não te diz como tens de ser. E Lisboa tem tanto para dar, como Berlim ou Nova Iorque, cidades que acabaram por ficar parecidas. Lisboa ainda não está contaminada." – é o artista americano Phil Panza que nos fala através de uma videochamada de Brooklyn, nos Estados Unidos da América. Voltou para casa no final do segundo confinamento, tinha passado quase dois anos em Portugal. Foi com nostalgia que deixou o seu atelier na Graça. Viu a cidade agitar-se na sua totalidade, ainda antes de tudo fechar. Viveu as ruas da capital intensamente, inseparável do seu skate. Os 26 anos de Phil não o impediram de passar algum tempo nas retrosarias da Baixa. Encontrava ali material em bruto para as suas criações, que se assemelham a esculturas. Ele tanto pode fazer joalharia, como tapetes.

O artista americano Phil Panza
O artista americano Phil Panza Foto: @all_nan

Nas suas peças a cultura de rua está sempre presente, elas transportam a energia de um grafitti, têm algo de surpreendente, – "não gosto de seguir regras, e tento fazer as coisas a partir de um entusiasmo qualquer. Nem tudo tem de ser planeado. Gostava que as pessoas ficassem com a ideia de que sou só uma pessoa a fazer objetos, e não uma marca." Phil vive portanto ao sabor dos trabalhos que lhe vão sendo encomendados. Inspira-se nas conversas que vai tendo com quem quer comprar a sua Arte. 

Phil Panza
Phil Panza Foto: @Phil.Panza

"Pode parecer cliché, mas andar na rua e ver como a luz bate num prédio, ou ouvir uma conversa de dois desconhecidos, ouvir simplesmente uma frase, pode fazer nascer qualquer coisa." Ele tem um desenho de Keith Haring tatuado no peito e nas pernas, umas escadas de um beco de Lisboa, diz-nos, "foram as decisões mais fáceis de tomar". As suas tatuagens são também o diário de um corpo transformado em esboço. Phil formou-se no prestigioso Columbus College of Art & Design, em Ohio, antes disso inspirou-se na criatividade de Pharrell Williams, na forma como a Moda se encontrava, sem limites, com a Música. "E depois lembro-me da minha avó, ela fazia os meus fatos para o Halloween, fazia vestidos para a minha mãe...Ver como ela agarrava num tecido, e com algumas costuras o tornava usável, fez-me aos 12 anos começar a usar a máquina de costura". Perguntamos a Phil se Nova Iorque continua a ser a cidade onde nunca se dorme?  "Nah, é em Lisboa que fazemos coisas pela noite dentro. Essa frase fala mais de vocês que de nós."

O artista americano Phil Panza
O artista americano Phil Panza Foto: @creechandchong


A Moda de HIBU resgata o espírito dos anos 90, agora gender fluid 

Desde que criou a HIBU em 2013, Marta Gonçalves tenta abolir a ideia de género da sua roupa. Queria que não se perguntasse, "isto é para homem ou mulher?". 

A sua coleção de verão, Summer Heads, deixou-nos sonhadores. Poderíamos estar a ver criações feitas no Bairro Alto dos 90, época em que dezenas de lojas de designers surgiram no panorama português, criando uma movida à volta da Moda e da noite. Nessa altura prevalecia a ideia de uma cidade que vibrava humana nas ruas escuras e secretas do Bairro Alto frequentado por artistas.

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A marca é fabricada 100% em Portugal, as suas campanhas são protagonizadas por amigos, todos eles fazem parte daquilo a que Marta chama de comunidade HIBU

Summer Heads reflete a nostalgia de uma era pré-redes sociais. Éramos mais felizes então?  "É uma coleção sobre considerarmos as memórias importantes para podermos recontextualizar experiências, repensar e criar o futuro", diz-nos Marta numa troca de mensagens no Instagram.

A mudança já começou.

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