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Crónica Isabel Stilwell. Treinarmo-nos para ficarmos sozinhas

"Tiro o chapéu às viúvas, à extraordinária força que tantas mulheres demonstram quando são capazes de apesar do terrível desgosto e da solidão e desamparo consequente, encontrar força para continuar em frente."

'Nomadland - Sobreviver na América' (2020)
'Nomadland - Sobreviver na América' (2020) Foto: IMDB
21 de setembro de 2022 Isabel Stilwell

Tive uma fase, aí pelos 12 ou 13 anos, em que meti na cabeça que me devia treinar para duas possibilidade: a de um dia ficar cega e, bem menos grave, mas importante para quem gostava tanto de escrever, a de não conseguir usar a mão direita. Meti, literalmente, mãos à obra: andava pela casa de olhos fechados, e ensaiava trajetos tateando entre o meu quarto e a cozinha, e impus-me (enquanto a mania durou) sessões de ensaio para ser canhota, que deixavam claro que a "lateralidade" não é um capricho a ser contrariado, como era então a norma.

Lembrei-me disto tudo quando fiquei uma semana em casa sem o meu marido, e percebi ­— com um enorme sentimento de gratidão — o quanto sou depende dele. Para tudo. Tiro o chapéu às viúvas, à extraordinária força que tantas mulheres demonstram quando são capazes de apesar do terrível desgosto e da solidão e desamparo consequente, encontrar força para continuar em frente. Não só sobrevivendo, mas vivendo plenamente, com uma autonomia extraordinária, traçando novos planos e lançando-se com empenho em gozar o tempo que lhes resta, apesar da falta constante que lhes faz a sua cara-metade.

Parece meio mórbido, ou até muito, dizer que devemos treinar para a viuvez, até porque, além do mais, é um disparate, já que nunca sabemos — de verdade — o impacto que uma perda como esta terá sobre nós, por muito que a tenhamos imaginado no pior dos nossos pesadelos. Mas o que já podemos e devemos fazer é impedir que uma certa preguiça se instale à medida que envelhecemos, como se nos conformássemos antecipadamente a que tomem conta de nós.

Foi por isso que durante estes dias, felizmente poucos, em que estive por minha conta, fiz uma lista de coisas que tenho mesmo de me obrigar a aprender, por muito que os meus neurónios façam birra, e me digam que depois logo se vê. É a minha lista de objetivos para este novo ano, que para mim começa sempre em setembro. Aqui vai:

1. Controlar o comando da televisão. Ah, pois, não estou a brincar. Lá em casa há três, e nada se resume a carregar num botão. Explicaram-me já mil vezes como funcionam, mas oiço só com meio ouvido, e a consequência é que se não estiver alguém mais sábio, não a ligo. O que, por uns dias, é até um alívio, mas a longo prazo não me parece boa ideia.

2. Ir ao supermercado. Sei que é uma tarefa que a maioria das mulheres domina com toda a facilidade, mas perdi o hábito, e hoje em dia começo a hiperventilar naqueles corredores infinitos, com escolhas múltiplas, e quando dou por mim estou na secção de papelaria, aquela que mais prazer me dá. A minha filha garante-me que é tudo uma questão de necessidade e prática. Vou esforçar-me.

3. Sim, já falei da minha aversão aos tachos e às panelas, mas depois de cinco dias seguidos a comer torradas e sanduíches, tomei consciência de que se vivesse sozinha tinha mesmo de superar este meu bloqueio. Vou começar com coisas simples...

4. Entre confinamentos e teletrabalho, marido, filhos e netos, é fácil deixarmos não só de nos encontrarmos com os amigos de longa data, como de fazer amigos novos. As melhores amigas, então, confidentes e conselheiras, com quem rimos por tudo e por nada e nos acolhem sem julgamento, têm de ser cultivadas. Por todas as razões são uma fonte de felicidade e um seguro de vida.

5. Sair à noite e apanhar ubers. A vontade de sair ao fim do dia é tendencialmente nenhuma, mas desaparece de vez quando o destino é um lugar novo, e envolve planear trajetos, recorrer a aplicações móveis para nos ensinar o caminho, e a meditar onde vamos deixar o carro e essas coisas todas. Mas tem de ser.

6. Fazer uma viagem sozinha. Sou tão mimada, a sério: marcam-me os aviões, fazem-me o check-in, desencantam o meu passaporte (e confirmam se não está caducado), e dentro dos aeroportos limito-me a segui-lo, como quem segue aqueles guias que levam uma bandeirinha, podendo distrair-me no duty-free ou nas lojas, como uma criança que sabe que há um adulto a supervisioná-la. Idem aspas para transportes para o hotel, onde almoçar ou jantar, ou até pré-comprando os bilhetes para o que mencionei que queria ver. Mimada mesmo, e não há razão nenhuma para abdicar do que conquistei, mas apesar disso, ou sobretudo por isso, vou obrigar-me a, por uma vez, ser eu a tomar o comando da situação (se for parar ao outro lado do mundo, depois dou notícias).

Post Scriptum. É claro que estou tentada a argumentar contra mim mesma, defendendo que o que é realmente importante é não perder tempo em ensaios, e tratar é de gozar plenamente todos os momentos que temos juntos, carregando pilhas para um dia em que precise delas.

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