Julio Iglesias acusado de assédio. Estará Espanha perante um ‘caso Epstein’ da música?

Ex-trabalhadoras descrevem um ambiente de controlo, intimidação e abuso, num caso exposto por uma investigação jornalística de vários anos.

Julio Iglesias confronta alegações num possível caso 'Epstein' da música espanhola Foto: Getty Images
14 de janeiro de 2026 às 17:12 Safiya Ayoob

“Ele tentava dizer-me que eu não tinha o direito, por nada neste mundo, de dizer-lhe que não, de o rejeitar.” É assim descrito, ao elDiario, uma das situações vividas por Rebeca (nome fictício), ex-funcionária de Julio Iglesias, enquanto trabalhava para o cantor espanhol. A frase é curta, mas carrega o peso de uma experiência que, segundo ex-trabalhadoras do cantor, foi marcada por abuso, intimidação e perda de autonomia. Em janeiro de 2026, uma investigação jornalística desta publicação trouxe a público acusações de agressões sexuais e abuso de poder ocorridas em 2021, em residências privadas do artista no Caribe. 

As duas mulheres, identificadas com os pseudónimos Rebeca e Laura para proteção da identidade, trabalharam em propriedades de Julio Iglesias na República Dominicana e nas Bahamas. Os seus testemunhos foram publicados pelo elDiario.es no âmbito de uma investigação realizada ao longo de três anos, em colaboração com a Univision Noticias. O trabalho jornalístico reuniu entrevistas de mais de 10 ex-funcionários, documentos e relatos que, segundo os autores, sustentam a veracidade das denúncias.

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Rebeca, que desempenhava funções domésticas, afirma ter sido alvo de pressões constantes para manter contactos de natureza sexual com o cantor. Nos depoimentos, descreve episódios que classifica como não consensuais, acompanhados de humilhações verbais e de um discurso de domínio que a fazia sentir-se sem alternativas. A ex-funcionária afirma que o artista espanhol - que tinha 77 anos na altura - costumava chamá-la para o seu quarto depois do trabalho. Lá, segundo os relatos, ele penetrava-a anal e vaginalmente com os dedos sem o seu consentimento. Laura, fisioterapeuta, relata situações de toques indesejados, beijos forçados e abordagens físicas ocorridas em espaços da propriedade, como a piscina ou a praia. Ambas descrevem um ambiente em que dizer “não” teria consequências profissionais e pessoais.

Para além da dimensão física, Rebeca sublinha o carácter humilhante e dominador das interações. “Quando eu dizia que não queria ficar com ele, começava a insultar-me. Dizia que não percebia como é que eu não queria estar com ele, quando há ‘modelos a morrer de vontade’”, relatou. Numa das situações, recorda ter ouvido que era uma “princesa com sorte por estar na casa dele”. A contradição, diz, tornava-se insuportável: “Como posso ser uma princesa com sorte se trabalho mais de 16 horas por dia?”

Rebeca descreve que a relação laboral se transformou rapidamente numa exigência de disponibilidade total. “Ele chamava-me para o quarto depois de eu já ter terminado o trabalho. Às vezes eu estava exausta, mas sentia que não podia recusar”, conta. “Não era algo ocasional. Tornou-se parte da rotina. Como se o meu corpo fizesse parte do serviço.” A ex-funcionária relata que, em várias ocasiões, foi sujeita a práticas íntimas sem consentimento, explicando que “não havia espaço para dizer não”, com receio de represálias.

Sentes-te obrigada a fazê-lo”, afirma Rebeca. “Na maioria das vezes, nem pensava no medo de perder o emprego. Era algo que ele te colocava na cabeça: que tinhas de o fazer. Criava uma espécie de poder sobre ti. Tinhas de o fazer, sim ou sim”, explicou ao meio espanhol. Para a ex-funcionária, a coerção não era apenas explícita, mas construída através de um sistema de dependência emocional e económica.

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Para além das alegadas agressões, os testemunhos convergem numa descrição de um clima de controlo permanente. Segundo as ex-trabalhadoras, havia vigilância sobre deslocações, comunicações e horários, bem como regras informais que restringiam a liberdade enquanto permaneciam nas propriedades. O trabalho, que à partida poderia parecer privilegiado, é descrito como um quotidiano de isolamento, dependência e medo.

Importa ainda sublinhar que, de acordo com a investigação do elDiario.es, Julio Iglesias não atuaria isoladamente. As denunciantes afirmam que existia uma estrutura de poder em seu redor que facilitava, normalizava e, em certos casos, participava ativamente no sistema de controlo. A reportagem descreve o papel de responsáveis pela contratação e gestão do pessoal que selecionavam mulheres jovens, faziam perguntas de cariz íntimo - "Vocês gostam de mulheres?", "Gostam de sexo a três?", "Já fizeram aumento de seios?" - e submetiam as funcionárias a exames médicos como condição de trabalho. Uma das passagens refere que “a gerente responsável pela seleção de funcionários providenciava exames ginecológicos e testes de infeções sexualmente transmissíveis às empregadas domésticas”, prática que, segundo os jornalistas, integrava um padrão de funcionamento das propriedades. Para as denunciantes, estas figuras de autoridade sabiam o que se passava e contribuíam para criar um ambiente em que o poder do artista se estendia através de intermediários, tornando ainda mais difícil qualquer tentativa de resistência ou denúncia.

Na sequência da publicação, foi apresentada uma denúncia formal junto da Fiscalía da Audiencia Nacional em Espanha, que confirmou estar a analisar os factos relatados. O processo encontra-se numa fase preliminar, não existindo, até ao momento, acusações formais nem conclusões judiciais. O caso, contudo, ganhou relevância por envolver potenciais crimes cometidos fora do território espanhol, o que levanta questões de jurisdição e cooperação internacional.

Julio Iglesias, atualmente com 82 anos, não prestou declarações públicas sobre as acusações. Em Espanha, responsáveis políticos e representantes de instituições públicas apelaram a que as alegações sejam investigadas "até às últimas consequências", sublinhando a importância de proteger as vítimas e de garantir que a notoriedade de qualquer figura pública não se sobreponha ao Estado de direito. Organizações de defesa dos direitos das mulheres destacaram o caso como mais um exemplo das dificuldades que muitas trabalhadoras enfrentam para denunciar abusos em contextos de desigualdade de poder.

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Num Estado de direito, a presunção de inocência é um princípio fundamental e deve ser respeitada até decisão judicial em contrário. Ao mesmo tempo, existe um dever ético de considerar os testemunhos de quem denuncia violência, sobretudo quando estes surgem apoiados por investigações jornalísticas detalhadas e por uma decisão de recorrer aos mecanismos legais.

Julio Iglesias construiu uma carreira de dimensão histórica: mais de cinco décadas de música, centenas de milhões de discos vendidos e uma presença constante no imaginário cultural internacional. As acusações agora conhecidas não apagam essa trajetória, mas colocam-na sob um escrutínio inédito.

Enquanto a investigação prossegue, permanece a voz de Rebeca - e de tantas outras mulheres em situações semelhantes - a recordar que, por detrás do brilho da fama, podem existir histórias que nunca chegaram ao palco. O que está em causa não é apenas o destino de um ícone, mas a capacidade das sociedades contemporâneas de enfrentar, com seriedade e justiça, os abusos cometidos em contextos de poder.

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