Cem anos de Marilyn Monroe, a mulher que estava (muito) à frente do seu tempo

Um século depois do nascimento de Norma Jeane Baker, o mundo volta a fixar-se na maior estrela de cinema de sempre, numa tentativa de conciliar tudo o que julga saber com aquilo que ficou por contar sobre o ícone cujo maior pecado foi não conseguir lidar com a sua complexidade.

Marilyn Monroe (1926 -1962) Foto: getty images
01 de junho de 2026 às 19:02 Ana Murcho

Era uma loura burra. Para muitos, ainda é. O seu corpo era um milagre que desestabilizava a honra da sociedade conservadora de meados do século XX, que entendia os prazeres carnais como uma ofensa à moral e aos bons costumes. No auge da sua popularidade, era a personificação da ideia por detrás do filme O Pecado Mora ao Lado (1955). Tudo nela era excessivo: a beleza, a sensualidade, a forma de andar (depois da estreia de Niagara, em 1953, onde tem uma cena demasiado focada nos seus atributos físicos, ficou conhecida como “the girl with the horizontal walk”, ou “a rapariga com o andar horizontal”), o sussurro provocador com que falava, o olhar desarmante que lançava a qualquer intermediário, as roupas demasiado justas que “insistia” em usar.

Era uma loura burra que nem sequer era loura (o seu tom original de cabelo era castanho claro), uma pin up que arranjou o nariz para parecer “sofisticada”, uma modelo barata que mudou de nome para agradar aos executivos dos estúdios, uma eterna aspirante a “atriz séria” que fabricou o seu passado de forma a ser aceite pelo público. Nascida a 1 de junho de 1926 em Los Angeles, Norma Jeane Mortenson, depois batizada Norma Jeane Baker, foi o princípio de um terramoto chamado Marilyn Monroe, um mito avassalador que transcende tempo e espaço. Não há, nunca houve, alguém tão intrinsecamente cravado no imaginário popular como ela. 

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Décadas depois da sua morte, o fascínio pela sua figura mantém-se inalterado. Não há um “antes” e um “agora” - ela é inspiração, constante e atemporal, para artistas, curiosos, filósofos, designers, pensadores, músicos. Contudo, tal como escreve Gail Crowther, autora do recém-lançado Marilyn Monroe and Her Books: The Literary Life of Marilyn Monroe, “as reações ao legado de Monroe são complexas. É adorada, é ridicularizada, é o alvo de piadas, é venerada, é um estereótipo que resume a misoginia. O seu corpo (tanto em vida como após a morte) é examinado e julgado. É demasiado gorda. É demasiado magra. É bonita. É estúpida. Era desleixada. Era imaculada. Deixava migalhas na cama. Usava vaselina no rosto. Durante os anos em que Marilyn esteve viva, praticamente todas as características do seu físico foram analisadas minuciosamente.”

Os ataques surgiam, ainda surgem, de todos os lados, até de onde se esperava alguma empatia. Em 2000, a atriz e modelo Elizabeth Hurley disse à revista Allure: “Sempre achei que a Marylin Monroe era fabulosa, mas se eu fosse assim tão gorda, matava-me. Fui ver as roupas dela na exposição [referente ao leilão da Christie’s, realizado em Nova Iorque, em 1999, para vender o seu acervo] e apeteceu-me pegar numa fita métrica e medir as suas ancas. Ela era muito grande”. As suas declarações são, além de escandalosas, uma vergonha para tudo o que foi feito pelo movimento de emancipação das mulheres. Para memória futura e gáudio dos mais curiosos, note-se que, de acordo com o relatório do médico legista que realizou a autópsia, a atriz pesava 53 quilos.  

Foto: getty images 1 de 3 / Marilyn Monroe adorava ler — a sua biblioteca pessoal contava com mais de 400 títulos. Aqui vemo-la num sofá-cama, com o livro “The Poetry and Prose of Heinrich Heine”, de Frederic Ewen, por volta de 1951.
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Foto: getty images 2 de 3 / Em 1954, Marilyn Monroe interrompeu a sua lua-de-mel com o jogador de basebol Joe DiMaggio para voar até à Coreia do Sul, onde as tropas norte-americanas estavam estacionadas. Durante quatro dias, a atriz deu vários espetáculos que ajudaram a “levantar a moral” dos soldados — e dela própria: “Pela primeira vez não senti medo. Senti-me em casa”, terá dito.
Foto: getty images 3 de 3 / Uma das fotografias mais conhecidas de Marilyn foi tirada no terraço do Hotel Ambassador, em Nova Iorque, em 1955: um momento em que a beleza da atriz se mistura com a sua fragilidade.

Mais do que dissecar a sua biografia, amplamente difundida, importa relembrar os factos menos palpáveis. Marilyn Monroe, a celebridade, foi um poço de contradições. Era luminosa e insegura. Entre os seus papéis encontra-se a seguinte reflexão: “Pergunto a mim mesma do que tenho medo. Sei que tenho talento. Sei que sei representar. Bem, vai em frente, Marilyn. Sinto que ainda tento integrar-me nas pessoas, tento dizer-lhes o que querem ouvir. Isso também é medo. Todos devíamos começar a viver antes de ficarmos demasiado velhos. O medo é estúpido. E os arrependimentos também”. Não sabia quem era o pai, e isso fez com que a sua tristeza e nostalgia, por vezes, se confundissem com alienação. Só depois do seu desaparecimento é que muitas pessoas, nomeadamente mulheres, assumiram rever-se na sua fragilidade.

Como relembrou a jornalista e ativista Gloria Steinem, “até então, na verdade, ela tinha sido uma criação dos espectadores masculinos, principalmente fotógrafos e cineastas homens. […] As suas escolhas foram limitadas. Ela era uma sobrevivente, diria, e não uma pessoa fraca.” Era rica e bem sucedida - mas a única casa que comprou, e onde viria a falecer, era tudo menos um lugar de ostentação; em vez de joias, casacos de peles e peças de arte valiosíssimas, a vivenda de Brentwood tinha livros, muitos livros, mais de 400. Marilyn era uma leitora voraz. Lia Joyce, Keats, Shelley, Wolfe, Rilke, Proust. Porém, sempre que era fotografada com um livro, as pessoas interpretavam isso como uma espécie de piada. Ela era, afinal, uma loura burra. “Ela lê, não é?”, questionou o dramaturgo Clifford Odets, “como se ela fosse uma gazela premiada ou um chimpanzé genial”. Numa entrevista, ousaram perguntar-lhe pelos estômagos das baleias e pela bomba atómica, como se a inteligência fosse um acumular de conhecimentos aleatórios. Ela sabia melhor: "Quando se é famoso, tal como a nossa imagem e o nosso nome são amplificados e projetados em outdoors ou ecrãs de cinema, o mesmo acontece com todas as nossas fraquezas”, desabafou.

Foto: getty images 1 de 3 / Norma Jeane Baker, futura estrela de cinema, captada numa rua de Los Angeles, em 1941. Uns meses depois estaria casada com o seu primeiro marido, James Dougherty. Tinha 16 anos.
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Foto: getty images 2 de 3 / Marilyn Monroe, Clark Gable e Montgomery Clift no set de “The Misfits”, em 1961. O filme, realizado por John Huston, era “um presente” do seu último marido, Arthur Miller, que escreveu o guião a pensar na atriz. Mas as filmagens foram um inferno, o divórcio precipitou-se e Gable morreu ainda antes da estreia.
Foto: getty images 3 de 3 / Poucas semanas antes de morrer, em agosto de 1962, Marilyn era fotografada “de cara lavada”, aparentemente feliz. Apesar das controvérsias em que estava envolvida, parecia estar pronta para recomeçar de novo

E era, acima de tudo, generosa - lutou pelos direitos LGBTQ+ quando o tema era um tabu, nomeadamente ao defender o colega Montgomery Clift, que era gay; sobre isso, declarou: “Rótulos - as pessoas adoram pôr rótulos umas nas outras. Isso faz com que se sintam seguras. Tentaram fazer de mim lésbica. Eu ri-me. Nenhum tipo de sexo é errado desde que exista amor”. Numa época de segregação racial, a sua amizade com Ella Fitzgerald tornou-se lendária. Tal como o seu à-vontade em falar nos “castings de sofá”, que punham em causa a subida a pulso de certas celebridades. Seria verdade o que se dizia sobre algumas atrizes? “É possível”, afirmou numa entrevista. “Mas não é por dormir com qualquer um que [alguém] se torna uma estrela. É preciso muito, muito mais do que isso. Mas ajuda. Muitas atrizes tiveram a sua primeira oportunidade dessa forma. A maioria dos homens é tão horrível que merecem tudo o que conseguirem tirar deles!”

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Lutadora e visionária , em 1955 criou, com o fotógrafo Milton Greene, a sua própria produtora, Marilyn Monroe Productions, para poder interpretar os papéis que os estúdios insistiam em lhe negar. Nada disso bastou para fazer a feliz. Em 1954, escrevia, com ilusão: “Este é o fim da minha história sobre Norma Jeane… Mudei-me para um quarto em Hollywood para viver sozinha. Queria descobrir quem eu era. Quando escrevi ‘Este é o fim de Norma Jeane', corei como se tivesse sido apanhada numa mentira. Porque esta criança triste e amarga que cresceu demasiado depressa quase nunca sai do meu coração. Com o sucesso a rodear-me, ainda consigo sentir os seus olhos assustados a olhar através dos meus. Ela continua a dizer ‘Nunca vivi, nunca fui amada’, e muitas vezes fico confusa e penso que sou eu quem está a dizer isto”. Só que Norma Jeane nunca deixou de existir. Marilyn Monroe, tal como Norma Jeane, tinha um medo imenso de ser “louca como a mãe” (que morreu num hospício, como vários membros da sua família). Marilyn Monroe, tal como Norma Jeane, tomava “demasiados comprimidos” para colmatar problemas crónicos que lhe delinearam o futuro - as insónias, a endometriose, a depressão. Foi isso que a matou. Foi por isso que se matou - dizem. É também provável que Marilyn, a mulher que passou vida à procura de um abraço que nunca chegou, tenha sido vítima de um suicídio acidental.  

Foto: getty images 1 de 3 / À porta do Actors Studio, em Nova Iorque, o famoso centro de formação de atores de Lee Strasberg. Marilyn Monroe dedicou vários anos da sua vida a estudar “o método”, uma técnica de interpretação que põe o ator/atriz a viver as emoções e pensamentos da personagem, ao invés de representá-los.
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Foto: getty images 2 de 3 / Poster de “Gentlemen Prefer Blondes” — lançado em Portugal como “Os Homens Preferem as Louras”, onde dividia o protagonismo com Jane Russell. O filme de Howard Hawks estreou em 1953 e cimentou definitivamente Marilyn Monroe como atriz.
Foto: getty images 3 de 3 / A amizade entre Ella Fitzgerald e Marilyn Monroe faz parte da história. Aqui vemo-las no Tiffany Club, em Hollywood, em 1954. Um ano depois, Marilyn conseguiu que o Mocambo, que se recusava a contratar a cantora, mudasse de ideias. “Depois disso, nunca mais tive de tocar num clube pequeno”, terá dito Ella.

Em 2012, no 50º aniversário da sua morte, de 4 para 5 de agosto de 1962, foi lançado Fragmentos, uma “recolha inédita de poemas, cartas e notas íntimas” da atriz - uma obra essencial que prova, através das suas próprias palavras, a sua complexidade e sagacidade. A edição portuguesa do livro conta com um magnífico prefácio do escritor António Tabucchi, que reflete sobre o lado intelectual de Marilyn, tantas vezes apagado da sua história, e a possibilidade de uma “outra vida” onde a sua aparência eletrizante não ofuscasse nem o seu talento nem a sua humanidade.

“Dentro deste corpo, que em certos momentos da sua vida Marilyn usou como se carregasse uma mala, vivia a alma de uma intelectual e de uma poetisa de que ninguém suspeitava. O que teria acontecido se Marilyn, em vez de ter essa extraordinária beleza que a tornou famosa através do cinema, tivesse sido uma mulher de aspecto banal? Teria publicado em vida o que vamos ler agora e, provavelmente, ter-se-ia suicidado como o fez Sylvia Plath. Teríamos dito dela, como de Sylvia Plath, que se tinha suicidado porque era demasiado sensível e inteligente, e as pessoas demasiado sensíveis e demasiado inteligentes sofrem mais do que as pessoas pouco sensíveis e pouco inteligentes e, tendencialmente, cometem suicídio (dizem os psiquiatras e as estatísticas). Porque se as pessoas pouco sensíveis e inteligentes tendem a ferir os outros, as pessoas que são muito sensíveis e muito inteligentes tendem a ferir-se a si próprias.”   

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Foto: getty images 1 de 3 / Marilyn Monroe fotografada num momento de descontração em Palm Springs, em 1954.
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Foto: getty images 2 de 3 / Em 1960, na noite em que recebeu o Globo de Ouro de Melhor Atriz de Comédia pelo seu papel de Sugar Kane em “Some Like It Hot” (“Quanto Mais Quente Melhor”).
Foto: getty images 3 de 3 / Uma imagem que vale por mil palavras, e que atesta a veracidade da expressão “à frente do seu tempo”: em 1948, Marilyn Monroe é fotografada a fazer uma pose de yoga, atividade que praticava regularmente.

Nunca saberemos como teria sido essa outra Marilyn. Talvez nem num universo alternativo esse outro destino fosse possível porque, vemos agora, estava condenada a ser aquilo que queriam dela - a sua transcendência foi o seu maior pecado. A sua imagem, construída minuciosamente por ela, pelos estúdios e pela imprensa, “era tão poderosa que resultou numa dissonância fundamental entre a realidade da sua personalidade e o leque de fantasias elaboradas que lhe eram projetadas”, escreve Andrew Wilson no recém-lançado I Wanna Be Loved By You: Marylin Monroe - A Life in 100 Takes. O dramaturgo Arthur Miller, com quem esteve casada quatro anos e meio, foi dos poucos que soube (quis?) ver para lá do óbvio. Na sua autobiografia, Timebends: A Life, publicada em 1987, afirmou: “Ela era uma poeta na esquina de uma rua, a tentar recitar para uma multidão que lhe puxava a roupa”.

Ao longo dos seus 36 anos de vida, Marilyn Monroe foi sucessivamente castigada por ser um símbolo sexual - e por ambicionar ser mais do que isso. O seu corpo, mais do que uma referência ou um ideal, tornou-se propriedade pública, um “campo de batalha” sobre o qual todos se julgavam no direito de opinar: os seus abortos, as suas doenças, as suas cirurgias, a sua (in)fertilidade, a sua sexualidade, tudo foi objeto de escrutínio, de crítica, de análise. Nem o seu cadáver escapou à profanação atroz dos media, que não hesitaram em violar o seu descanso final ao divulgar alegadas suspeitas sob o estado em que foi encontrada: com a manicure por fazer, as raízes do cabelo por pintar, as pernas por depilar - uma “sombra” do seu antigo eu. A resposta a todo esse ruído, que permanece ainda hoje tão ensurdecedor como aquando da estreia de Some Like It Hot (1959), foi dada pela própria Marilyn Monroe, a mulher que viveu duas vezes: “Nunca enganei ninguém. Deixei que as pessoas se iludissem a si próprias. Não se deram ao trabalho de descobrir quem e o que eu era. Em vez disso, inventavam uma personagem para mim. Eu não discutia com elas.”  

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