Reflexão Máxima. O Monte dos red flags: quando a "maior história de amor da literatura" se revela tóxica
Há qualquer coisa de curioso nesta nova adaptação de "O Monte dos Vendavais": quanto mais pele mostra, menos sentimos.
Adaptação de "O Monte dos Vendavais" retrata toxicidade na história de amor
Foto: IMDB18 de fevereiro de 2026 às 17:42 Patrícia Domingues
Há quase dois séculos, O Monte dos Vendavais, de Emily Brontë, desafia gerações de leitores com a sua intensidade emocional, violência psicológica e paixões extremas. Heathcliff, a seu personagem mais emblemática, tornou-se sinónimo de homem sombrio e torturado - e, ao mesmo tempo, um ícone do fascínio gótico. Agora, Emerald Fennell, realizadora de Saltburn (2023), decide transportar essa fúria para o grande ecrã, com Margot Robbie e Jacob Elordi nos papéis principais. Antes da estreia, perguntava-me: será possível ainda sentir a mesma fúria, o mesmo desespero e o mesmo horror que o romance provocava, ou apenas nos deixaremos encantar por corpos perfeitos e vento dramático? Depois de ver o filme, percebi que as respostas são mais complexas do que eu imaginava. A começar pela minha diferença em interpretar uma personagem masculina aos 14 anos... e aos 37.
A nova adaptação começa com uma respiração rápida, que soa como masturbação mas é, na verdade, asfixia - e funciona como metáfora perfeita para o que está por vir. Esqueça tudo o que acreditava que ia encontrar. Heathcliff não é apenas um homem sombrio e incompreendido: é ciúme patológico, manipulação, incapacidade de comunicação, erotização da violência emocional e ausência total de responsabilidade afetiva (basicamente um post de uma psicóloga do Instagram sobre relacionamentos tóxicos). Samantha Ellis, autora e fã das Brontë, descrevia o impacto de Heathcliff em gerações de leitoras: "Heathcliff foi a minha 'droga de entrada'… Depois dele vieram Rhett Butler, Rupert Campbell-Black… e homens reais que não eram honestos comigo, nem sempre gentis". E ainda assim, continuávamos fascinados por ele (hiperfoco no pretérito imperfeito).
PUB
Jacob Elordi numa adaptação de "O Monte dos Vendavais".
Foto: IMDB
Como escreve a genial Monica Hesse, num artigo do The Washington Post: “Se, em algum momento da sua vida, já acreditou que mulheres dizem querer homens bons, mas na verdade querem homens maus, ou que o amor tem que doer para ser verdadeiro, ou que romance e perseguição são basicamente a mesma coisa, todos sabemos a quem culpar: 1. A manosphere, 2. O patriarcado, 3. Uma jovem britânica que morreu de tuberculose em 1848, mas não antes de nos deixar a história de amor mais problemática de todos os tempos: O Monte dos Vendavais.”
No romance original, Heathcliff é ainda mais complexo: órfão, humilhado, vítima de rejeição social e de classe, movido por vingança e desejo de pertença. A sua crueldade não é apenas psicológica, é produto de um mundo brutal que o molda e ao qual ele responde com obsessão e violência. É uma personagem extremada, mas profundamente humana. Na adaptação de Fennell, no entanto, grande parte dessa profundidade desaparece. Sobra apenas a tensão mandibular de Jacob Elordi e cenas coreografadas como "anúncios de perfume". A devastação emocional transforma-se em fricção física. A paixão passa a ser estética.
Num contexto contemporâneo - pós #MeToo, pós debates sobre consentimento e inteligência emocional - esse tipo de masculinidade já não é romantizado da mesma forma. O dark lover que em certos momentos foi glamourizado (pense em As 50 Sombras de Grey [2015]) hoje é apenas um red flag ambulante. Não é sexy, não é irresistível e definitivamente não é moderno. A grande ironia é que O Monte dos Vendavais sempre foi sobre um amor destrutivo. A diferença é que não se limitava à superfície, mas mergulhava até ao existencial, psicólogico e social.
PUB
Outro ponto difícil de ignorar: Heathcliff era realmente branco? No romance de Emily Brontë, ele é descrito como “dark-skinned”, órfão encontrado em Liverpool, porto central do comércio atlântico e, inevitavelmente, ligado à história colonial britânica. A sua alteridade é estrutural: é tratado como outsider racializado e de classe. Quando uma adaptação opta por um homem branco no papel, esvazia-se uma camada importante de leitura sobre raça, império e pertencimento.
"O Monte dos Vendavais" retrata um amor complexo e tóxico entre duas personagens
Foto: IMDB
Para mim, o problema da nova adaptação não é apenas a fidelidade ao romance mas o que ela pode revelar sobre nós. Já notámos que a literatura gótica, sobretudo a escrita por mulheres, tem sido suavizada para consumo de massas (pense-se em Jane Eyre (1847) e nas adaptações que privilegiam o romance tempestuoso e a química, enquanto silenciam a crítica colonial inscrita em personagens como Bertha Mason - a “louca no sótão”). O desconforto político transforma-se em atmosfera e a crítica estrutural dissolve-se em melodrama.
O mesmo acontece com O Monte dos Vendavais. No livro, a violência, a humilhação e o trauma transmitido entre gerações não são meros adereços: são o coração da história. Na tela, sobram as roupas bonitas (lindas mesmo!), os corpos, o vento, mas desaparece a análise de classe, poder, herança e exclusão social. O gótico torna-se mera estética.
PUB
Esta versão de 2026 é estética, intensa, física e magnética, mas incapaz de sustentar uma conversa difícil (ou uma conversa, de todo). Reduz a fusão identitária, a obsessão metafísica e a transcendência selvagem do romance original a encontros febris e olhares demorados. No fundo, é como escreve Nadia Khomami, no artigo do The Guardian: “Cada geração recebe O Monte dos Vendavais que merece”. Confundimos obsessão com profundidade, paixão com possessão e intensidade física com amor verdadeiro. No fim, esta adaptação pode não ser a mais fiel. Mas é possivelmente a mais atual.