Rui Pedro Silva e Duarte Melo em "Brokeback Mountain". "A mensagem é simples mas fundamental - 'eu quero-te amar sem amarras'''

Entre o que se sente e o que não pode ser dito, constrói-se a relação que está no centro da peça que estreia a 19 de fevereiro no Teatro da Trindade. Em vésperas de subir ao palco, os atores falam com a Máxima sobre os temas que atravessam esta narrativa.

Dois homens abraçam-se, remetendo para o filme Brokeback Mountain Foto: António Medeiros
18 de fevereiro de 2026 às 11:23 Safiya Ayoob

Uma semana antes da estreia da peça, a Máxima esteve no Teatro da Trindade à conversa com Rui Pedro Silva e Duarte Melo, os atores que, a partir de 19 de fevereiro, sobem ao palco para dar vida a Ennis e Jack. A peça parte da história de Brokeback Mountain e centra-se na relação entre dois homens ligados por um amor profundo, vivido num contexto marcado pelo silêncio, pela repressão e pela dificuldade em conciliar o desejo individual com as expectativas da sociedade.

Mais do que uma história de amor, esta é uma narrativa sobre relações humanas, sobre aquilo que se diz e, sobretudo, sobre aquilo que fica por dizer. A ligação entre Ennis e Jack constrói-se nos encontros e desencontros, na tensão entre o espaço íntimo e o espaço público, e nas escolhas que cada um é obrigado a fazer ao longo do tempo. Em cena, a peça explora os conflitos internos das personagens, a fragilidade das relações e a forma como o amor pode ser simultaneamente um lugar de abrigo e de dor.

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Em vésperas da estreia, Rui Pedro Silva e Duarte Melo refletiram connosco sobre a universalidade desta história, o impacto emocional do silêncio em palco, e aquilo que o teatro permite revelar de forma distinta do cinema. Uma conversa sobre amor, empatia e liberdade, temas que continuam a atravessar o presente e a dialogar com o público de hoje.

Rui Pedro Silva e Duarte Melo interpretam papéis Foto: António Medeiros

Como é que descreveriam Brokeback Mountain a alguém que nunca ouviu falar da história?

Rui Pedro Silva: Para o público que não viu o filme, não tenham medo porque é uma história universal, mas posta em dois atores diferentes. As intenções e os pensamentos vão ser diferentes e isso é uma coisa que se reflete em cena. É uma história que se enquadra tanto nos tempos em que foi originalmente feita, como nos de hoje.

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Duarte Melo: Tal como o Rui disse, é uma história transversal que fala sobre uma palavra com quatro letras que é o amor – as relações humanas. E tal como a relação entre o Ennis e o Jack, reflete-se em muitas relações de hoje em dia. Esta coisa da posse, dos quereres, daquilo que eu quero e daquilo que tu queres, este lugar comum entre duas vontades que são dois seres individuais que têm duas vontades diferentes, mas que se encontram num lugar comum.

Esta peça fala maioritariamente sobre as relações humanas e sobre a dificuldade de hoje em dia uma relação subsistir, porque nós estamos todos a caminhar para direções tão diferentes e todos com vontades tão diferentes que encontrares alguém que partilhe da mesma vontade que tu e que tenha a mesma visão não é uma coisa fácil. É uma coisa tortuosa e isso reflete-se na relação do Jack e do Ennis. Aposto que muita gente se vai identificar com estas personagens e com esta relação.

Dois homens em intimidade, recorda "Brokeback Mountain" Foto: António Medeiros

Há algum momento da peça que sintam ser particularmente decisivo para compreender a relação entre as personagens?

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DM: Os gatilhos in and out. Ou seja, todos os momentos em que eles estão bem e os momentos em que se afastam e que estão mal. Essa dualidade é aqui o grande conflito da peça, são os momentos-chave. Todo o arco até eles se conhecerem e até ficarem bem e depois todos os momentos de rutura a partir daí, até ao momento final em que não conseguimos estar juntos e vamos cada um à sua vida.

RPS: Os momentos em que eles ou não estão em cena e que refletem um bocadinho a sociedade e a maneira de viver da altura, ou os momentos em que eles são apanhados sozinhos, individualmente, e que contrastam com outras personagens, dizem muito, talvez mais até do que as cenas que eles têm em conjunto. Ao longo da peça cada personagem tem uma chave para o desenvolvimento da história e acho que cada personagem, para além da minha e da do Duarte, contextualiza um bocadinho o público do que é este amor e do que é esta história.

DM: E isto é uma chave importante do que o Rui está a dizer, porque este conflito também se baseia um bocadinho no privado e no público. Tal como as relações hoje em dia, há sempre essa barreira entre aquilo que nós vivemos na nossa intimidade e aquilo que podemos e queremos passar às pessoas que estão à nossa volta.

Dois homens em fatos, com possível inspiração em "Brokeback Mountain" Foto: António Medeiros

Esta é uma história de amor marcada pelo silêncio. Como se trabalha emocionalmente aquilo que não pode ser dito em cena?

DM: Na interação dos corpos, sem dúvida, naquilo que não é dito, aquilo que está entre as linhas, na intimidade entre estes dois corpos. A fricção. A forma, a imagem e a interação dos corpos são os grandes subtextos deste espetáculo.

RPS: Também parte muito da empatia, e os corpos têm muito a ver com isso, de saber qual é o lugar destas duas personagens e de conseguir simpatizar e empatizar com elas. Acho que muito disso que não é dito é pensado também pelos atores, pelo encenador, pela equipa toda. É discutido. Mesmo as falas em que nós hesitamos dizer alguma coisa e depois guardamos para nós próprios, sabemos que há uma intenção por trás disso e tentamos passar isso ao público também, mas essa intenção tem de ser clara para nós primeiro.

DM: Porque há diferentes tipos de silêncio. O silêncio é uma mensagem só por si. O silêncio diz coisas. Seja pela forma como estás corporalmente, pela expressão com que estás, se estás a olhar, se não estás a olhar. Tudo isso são índices de diálogo e de transmissão de informação.

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Dois homens vivem um amor secreto, como Ennis e Jack em Brokeback Mountain Foto: António Medeiros

O que é que o teatro permite explorar nesta história que o cinema não permite?

DM: A grande diferença entre o cinema e o teatro é o micro e o macro. No cinema temos acesso a sutilezas, a olhares, a pormenores, e no teatro é tudo em macro, vemos a imagem completa. A intenção tem que estar não só no olhar ou na subtileza, mas também na forma como os corpos estão, como eu agarro, como eu olho, como digo determinada coisa. No cinema conseguimos aceder a uma camada quase invisível, mas no teatro as coisas têm de ser muito mais profundas, senão não passam da mesma forma.

RPS: Essa intenção no teatro tem de ser carregada pela peça inteira e o público tem de a sentir. É uma hora e meia de pura tensão e de pura intenção.

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Um momento íntimo entre dois homens, evocativo de Brokeback Mountain Foto: António Medeiros

Acham que esta peça pode ter um impacto particular no público português?

DM: Sim, em Lisboa, em Portugal, agora no Teatro da Trindade, que é uma instituição regida por velhas formas de fazer e por novas convenções. O Diogo Infante está a quebrar essas barreiras e a programação é bastante disruptiva, mas não deixa de ser um teatro que carrega um peso cultural clássico.

Nesta altura, termos este espetáculo em que a mensagem é simples - “eu quero-te amar sem amarras” - que é a base da humanidade. O ódio e o amor são os dois grandes polos e o amor é aquele que devemos ressaltar. É fundamental neste momento.

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RPS: Cada teatro traz o seu público típico e é bom perceber que uma peça disruptiva está a ser levada a outro público e está a ser bem recebida. Os bilhetes estão esgotados e parte disso deve-se também ao público que frequenta o Trindade.

DM: Esse cruzamento de públicos é fundamental. O nosso público será maioritariamente jovem ou da geração dos nossos pais que viram o filme, e vai cruzar-se com o público habitual do Trindade, que vem à espera de uma coisa e pode encontrar outra. Esse cruzamento vai ser fascinante.

Um retrato de Ennis Del Mar, com um olhar pensativo para o futuro Foto: António Medeiros

Se o público sair do teatro a pensar apenas numa coisa, o que gostariam que fosse?

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RPS: Talvez na outra pessoa, na pessoa ao lado, à frente ou atrás. O meu objetivo foi fazer com que as pessoas consigam ver para além das máscaras do outro e perceber que estamos todos aqui para viver, amar e divertir-nos, sem amarras.

DM: Gostaria que o público saísse a pensar numa coisa simples, mas difícil de alcançar: a empatia. É preciso percorrer caminhos para lá chegar. Se formos empáticos e respeitarmos as liberdades de cada um, conseguimos todos ter o nosso lugar e respeitar o lugar do outro ao nosso lado.

Homem com camisa clara e fecho, num retrato com inspiração em Brokeback Mountain Foto: António Medeiros

Créditos:

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Fotografia: António Medeiros assistido por Ricardo Lobo

Styling: Cybertokio

Cabelos: Diego Lima

Maquilhagem: Valdemar Creador

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