Lembro-me do meu primeiro jejum como se fosse ontem. Tinha uns seis ou sete anos - não se exaltem, já explico - e, ao ver os meus pais e primos à minha volta a praticarem o Ramadão, fiquei cheia de curiosidade e, confesso, com um certo FOMO. Um sentimento que, sejamos honestos, ainda hoje me acompanha. Queria estar incluída. Queria fazer parte daquele “grupo” exclusivo dos adultos da minha família. Lembro-me de a ideia ter sido recebida com entusiasmo por parte dos meus pais. A verdade é que, nessa idade, não existe qualquer obrigatoriedade de jejuar. Segundo a religião islâmica, o jejum durante o Ramadão é obrigatório apenas para muçulmanos adultos, saudáveis e mentalmente capazes. Crianças antes da puberdade, idosos, pessoas doentes, grávidas ou a amamentar estão isentas.
Nesse dia, lembro-me de ter passado grande parte do tempo fora com o meu pai. Fomos passear, entrámos numa loja de brinquedos e ele deixou-me escolher o que quisesse. Lembro-me dele me levar junto de tios e contar, com orgulho, que eu estava a jejuar - e de todos ficarem tão entusiasmados quanto eu. Para quem está de fora, a ideia de uma criança não comer durante algumas horas pode parecer desumana. Não passei fome - para os mais preocupados. Foi um dia vivido com leveza, intenção e, acima de tudo, escolha.
Mas afinal, o que é o Ramadão?
Depois deste pequeno flashback à minha infância, imagino que tenham surgido perguntas. O Ramadão é o nono mês do calendário islâmico. As datas mudam todos os anos porque o Islão segue um calendário lunar, baseado nos ciclos da Lua. É por isso que, quando me perguntam "quando começa?", raramente consigo dar uma data exacta com antecedência. Depende da observação da Lua.
E porque é que os muçulmanos jejuam?
Como seres humanos, somos naturalmente suscetíveis ao erro, ao excesso e à distração. O jejum no Ramadão é uma prática espiritual que convida à disciplina, à autoconsciência e à empatia. Ao abdicar temporariamente de prazeres básicos - como comer ou beber - somos chamados a recentrar-nos no que é essencial, a fortalecer a fé e a trabalhar virtudes como a paciência, a gratidão e a compaixão. O Ramadão funciona, assim, como um período de “treino espiritual”: um tempo definido para desacelerar, corrigir hábitos, afastar vícios e aproximar-se de Deus. Mais do que abstinência, é intenção.
Mas jejuas o dia todo?
Sim. O jejum é feito desde o nascer do sol até ao pôr do sol. Antes de o sol nascer, acordamos de madrugada para comer - há calendários específicos que indicam as horas exatas. A partir do momento em que o sol nasce, abstemo-nos de ingerir qualquer tipo de comida ou bebida. Sim, água incluída. Líquidos contam. Café também - RIP ao meu café da manhã. Cigarros, claro, ficam de fora. Tudo fica em pausa.
Quando o sol se põe, o jejum é quebrado, normalmente em família, num momento chamado iftar, que é tão espiritual quanto social. É um reencontro diário com o corpo, com a comida e com os outros.
Mas o Ramadão é só sobre não comer?
Esta é, talvez, a pergunta que quase nunca me fazem, mas que está sempre implícita. E a resposta é simples: não. O jejum no Ramadão vai muito além da comida. Não se trata apenas de fechar a boca, mas de abrir espaço. Espaço para reflexão, para autocontrolo, para uma relação mais consciente com os outros e connosco próprios. Durante este mês, há uma atenção redobrada ao comportamento: à forma como falamos, como reagimos, como tratamos quem nos rodeia. A paciência é posta à prova. O ego também.
Há também uma forte dimensão de solidariedade. O Ramadão lembra-nos, diariamente, que a fome não é uma escolha para toda a gente - e é por isso que a caridade (zakat) assume um papel central neste período. Dar torna-se tão importante quanto abster-se.
E trabalhar, estudar, viver normalmente?
Sim, tudo continua. A vida não entra em pausa. Trabalha-se, estuda-se, vai-se a reuniões, apanha-se transportes, cumpre-se prazos. O corpo adapta-se - como sempre faz - e o ritmo muda. Há mais cansaço? Às vezes. Mas também há mais foco, mais silêncio interior, uma estranha clareza que só quem já jejuou conhece. É curioso como, quando o corpo recebe menos, a mente parece ganhar mais espaço.
E se falhares um dia?
Outra ideia errada muito comum é a de que o Ramadão é vivido com rigidez absoluta, sem margem para falhas ou exceções. Não é. Se alguém estiver doente, a viajar, ou simplesmente incapaz de jejuar num determinado dia, esse jejum pode ser compensado mais tarde. O Islão valoriza a intenção tanto quanto a ação. Não se trata de perfeição, mas de consciência. A culpa não faz parte do processo - a responsabilidade, sim.
E quando o Ramadão acaba?
O fim do Ramadão é marcado pelo Eid al-Fitr, uma celebração que junta famílias, comida, roupa bonita e uma sensação agridoce de encerramento. Há alegria, claro, mas também um ligeiro vazio. Porque durante um mês vive-se com mais intenção, mais ritual, mais atenção. E a pergunta que fica é sempre a mesma: o que é que levo comigo para o resto do ano? Nem tudo fica. Mas alguma coisa fica sempre.
Este artigo não é um manual religioso, nem uma tentativa de convencer ninguém de nada. É apenas a minha forma de responder - com calma e sem filtros - às perguntas que me fazem, às vezes com curiosidade genuína, outras com receio de parecerem inconvenientes. Aqui não há perguntas proibidas. Há apenas histórias, vivências e uma parte de mim que muitos acham conhecer… mas talvez nunca tenham conhecido por completo.