Crescer com o movimento body positivity e entrar na vida adulta na era do Ozempic
As Kardashians, que há 10 ou 15 anos definiam tendências através dos BBLs e de curvas acentuadas, estão agora visivelmente mais magras. Torna-se difícil ignorar que a norma voltou a ser a magreza extrema, talvez ainda mais do que no início dos anos 2000.
O movimento body positivity foi um momento luminoso na década de 2010, em que se tentou, coletivamente, lutar contra padrões de beleza e fazer um esforço consciente para mostrar mais diversidade estética. Nesta época de maior aceitação, os corpos ideais eram os de celebridades como Kim Kardashian, Cardi B e Nicki Minaj. Já nas passarelles e nas capas de revistas, começaram a surgir as primeiras modelos plus-size. Esta realidade refletia-se no mundo real, especialmente para os Gen Z que cresceram a lutar por estas bandeiras. A verdade é que tínhamos vindo de um antro de inseguranças da década anterior, que não podia ter sido mais distinto do movimento body positivity.
Os anos 2000 mostravam heranças da heroin chic de Kate Moss dos anos '90, da cultura de Beverly Hills e das festas de Paris Hilton e Nicole Richie; no mundo da música, a figura dominante era Britney Spears e a sua aparência cobiçada incluía uma cintura pequena e infantilizada. Além disso, quando ligávamos a televisão, surgiam as atrizes de One Tree Hill com as suas skinny jeans de cintura baixa, que claramente pareciam ser o estilo de Chad Michael Murray. Nas salas de cinema, deparávamo-nos com Megan Fox em Transformers, ao lado de Shia Labeouf, numa cena que poderia ter sido imaginada e realizada por um rapaz adolescente febril e que trouxe anos de inseguranças a uma geração inteira.
Com este contexto, deverá fazer mais sentido porque descrevi o movimento body positivity como luminoso. Ser criança num panorama mediático que recompensa a magreza extrema e entrar na pré-adolescência quando começa a surgir um movimento que contraria tudo aquilo que, antes, nos mandou para um precipício de inseguranças, parece ser um tiro certeiro de sorte. De repente, começaram a surgir anúncios da Dove que contrariavam a visão de beleza da Victoria's Secret; surgiu a música All About That Bass, de Meghan Trainor, em que a cantora diz: “Sabes que eu não sou nenhuma boneca de plástico Barbie”, e “Todos os centímetros do teu corpo são perfeitos da cabeça aos pés”. Celebridades apareceram com curvas normais e humanas em passadeiras vermelhas - Beyoncé, Demi Lovato e Adele. Figuras mediáticas como Chrissy Teigen, mulher de John Legend, louvaram o movimento - depois de ser mãe, disse no Instagram: "O body positivity é fantástico. Se bem que ainda não chamaria 'confiança corporal' porque ainda não cheguei lá. Ainda sou muito insegura. Só fico feliz por poder fazer com que outras pessoas se sintam melhor consigo mesmas!"
Até atletas, como a tenista Serena Williams, abordaram a importância do body positivity e da autoaceitação. Em entrevista à Vogue, em 2018, defendeu que a “Beleza não tem tamanho único. Quero que as mulheres saibam que está tudo bem. Que podes ter o tamanho que tiveres e ser bonita por dentro e por fora. Estamos sempre a ser informadas sobre o que é bonito e o que não é, e isso não está certo”. No Instagram, o hashtag #BodyPositivity chegou a ter 19 milhões de menções e a era de influencers, ainda em fase embrionária, incentivou a autenticidade e contrariou a cultura dos tabloides e do sensacionalismo das dietas dos anos 2000. Tudo está bem quando acaba bem.
Até voltar a estar mal outra vez. Foi por volta de 2022 que começaram a surgir os primeiros rumores de um medicamento milagroso para a diabetes de tipo 2 que estava a ser prescrito para perda de peso. Ou seja, a bolha da positividade estava prestes a rebentar. Desde então, os medicamentos para emagrecimento explodiram em popularidade, especialmente em 2025. Embora, no início, houvesse uma certa vergonha em torno do químico, rapidamente começaram a surgir declarações a favor. E, para grande surpresa de ninguém, alguns dos primeiros nomes a defender o uso do medicamento tinham sido anteriormente ávidos defensores do movimento body positivity e da aceitação de todos os corpos.
Em setembro de 2025, Chrissy Teigen revelou que recorreu ao Ozempic após um aborto espontâneo e Serena Williams disse que, após a sua segunda gravidez, utilizou medicação GLP-1 para ajudar na perda de peso. Desde então, tornou-se embaixadora da marca Ro, fabricante da medicação. Já Meghan Trainor, cuja imagem e marca sempre estiveram ligadas ao body positivity, fez uma afirmação que gerou controvérsia relativamente à sua perda de peso: “É um pouco desanimador ver que tantas perguntas e comentários se focam no meu corpo em vez da minha música, da minha paixão ou das décadas de trabalho que me trouxeram até aqui. É isto que é ser mulher na indústria da música”. Após anos com dificuldades nas dietas e treinos, acabou também por recorrer ao Mounjaro, uma variante destes medicamentos.
Por outro lado, Oprah Winfrey, que durante décadas falou abertamente sobre a sua luta com o peso, incluindo ter sido enviada, de livre vontade, para fat camps nos anos 90, revelou que utiliza medicação para emagrecimento. Para além destes, muitos outros nomes, como James Corden, Amy Schumer, Whoopi Goldberg, Sharon Osbourne, Kelly Osbourne, etc., já vieram a público - ou virão - falar sobre o uso destes tratamentos injetáveis ou orais.
Neste momento, em plena época de premiações - Óscares, Grammys, Emmys, BAFTAs, entre outros -, esta realidade torna-se cada vez mais evidente e inquietante. Vemos os tamanhos dos vestidos a encolher exponencialmente e artistas, que antes tinham corpos dentro da norma, a diminuir de número e medida. As Kardashians, que há 10 ou 15 anos definiam tendências através dos BBLs e de curvas acentuadas, estão agora visivelmente mais magras; torna-se difícil ignorar que a norma voltou a ser a magreza extrema, talvez ainda mais do que no início dos anos 2000.
Mas agora existe uma diferença crucial: a magreza deixou de estar associada apenas a estilos de vida, como os que Kate Moss e Gwyneth Paltrow ajudaram a popularizar, baseados em dietas restritivas e hábitos difíceis de sustentar, está ligada à “droga milagrosa” que promete ter resultados rápidos. Neste momento, parece haver apenas duas hipóteses: ou este padrão continua a escalar e qualquer corpo ligeiramente maior do que o “novo normal” passa a ser visto como plus-size, ou então, daqui a uns anos, volta a surgir outro ciclo de body positivity para contrariar este excesso. Contudo, existe uma contradição que torna esta última hipótese quase impossível: as pessoas e figuras públicas que criaram e apoiaram o body positivity por não se conseguirem encaixar nos padrões e não obterem sucesso das dietas restritivas e rotinas de treino impossíveis, estão agora a tomar Ozempic e Mounjaro.
Para além disso, a cultura infantil e de pré-adolescência que irá moldar as expectativas da Gen Alfa também começa a espelhar esta nova tendência. Se já era problemático para nós, que crescemos a ver o Disney Channel e o Nickelodeon, que, apesar dos seus problemas e das protagonistas tendencialmente magras, ainda apresentavam alguma diversidade de corpos, agora as crianças são expostas a filmes e franquias como Wicked (2024), onde a magreza extrema surge quase como ideal. Ao mesmo tempo, aquilo que domina no mundo da música é o K-pop. O sucesso do filme de animação K-Pop Demon Hunters (2025) e as próprias girl bands, cujos membros apresentam padrões de corpos magros e uniformes, marcam as referências futuras da nova geração.
Estes pináculos culturais contrastam bastante com as referências com que a Gen Z cresceu, como as Little Mix ou as Fifth Harmony, ou até com bandas da geração Millennial, como as Spice Girls que mostravam corpos normais - Posh Spice à parte. Os atuais ídolos de K-pop afastam-se muito dessa realidade e isso acaba por reforçar ainda mais um único tipo de corpo como norma e desejo comum. E enquanto esta transformação milagrosa se vai tornando cada vez mais difícil de ignorar, haverá definitivamente aqueles que vão desvalorizar - provavelmente, homens - e nos vão dizendo para fazer precisamente isso: ignorar. Vão-nos tentar convencer a não nos compararmos a atrizes, cantoras, magnatas e toda a elite mediática. Mas, digo-vos eu, com anos de experiência na arte da comparação, isto é praticamente impossível de fazer. Atrevo-me até a afirmar que a mulher mais espiritualmente evoluída é incapaz de olhar ao espelho e não fazer a mais inconsciente comparação com os corpos que vê nos media, seja porque foi ver o último romance ou thriller de Sydney Sweeney, ou abriu o TikTok e lá estava Bella Hadid em toda a sua elegância magra, ou porque aquela Influencer que antes apelava a que nos aceitássemos como somos, perdeu 20 quilos em três meses.
Com o body positivity, aceitámos, durante sete anos, ser todas essa mulher espiritualmente evoluída - celebridades, influencers, a plebe (aka, nós), toda a gente -, acreditámos que, com o poder dos hashtags e dos lockscreens de frases inspiracionais, podíamos lutar contra uma década de idealização de uma estética pouco saudável e fomo-nos honrando enquanto mulheres e habitantes de corpos que precisam de comida para sobreviver, ou simplesmente para ter o prazer de saborear. Mas, agora, é preferível privar o nosso corpo de alimentos e aderir ao convencionalmente “bonito” para, assim, provar o nosso valor estético.
Isto é o ato final da falta de amor próprio, que era precisamente aquilo que o movimento da body positivity tentava dar. Deus o tenha.
Quanto aos Millennial, que demonstram um uso mais assíduo destes fármacos, percebo e simpatizo com a realidade de terem sido adolescentes durante a era tóxica dos 2000. Já a Gen Alpha, apesar de ser demasiado cedo para prever, não se encaminha numa boa direção. Portanto, Geração Z, uni-vos, e façam a coisa que fazem melhor, lutar contra a corrente e ser, irritantemente, do contra.
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