“A decisão de transformar o meu corpo não invalida o meu amor-próprio.” Testemunho de uma modelo curvy sobre aceitação
Uma modelo é só uma modelo - mas, na indústria da Moda, cada corpo carrega um rótulo. Carminho decidiu reescrever o seu: emagreceu, redefiniu medidas e encontrou um novo equilíbrio. Afinal, nunca se tratou de perder, mas de ganhar cuidado e confiança.
Nunca senti pressão externa para emagrecer. Pelo contrário, sempre recebi muitos elogios ao meu corpo e sabia que essa imagem também fazia parte da forma como as marcas me viam. Esta vontade de mudança nunca veio de fora, veio de mim. Não estava relacionada com corresponder a expectativas externas, mas sim com o facto de eu própria não me sentir bem no meu corpo nem na minha relação com a comida. Foi isso que me levou a querer mudar o meu estilo de vida.
Já não me sentia totalmente confortável no meu corpo há vários anos. Existem sempre aqueles sinais mais comuns: evitar ir à praia porque não gostamos de nos ver de biquíni, olhar para o espelho e encontrar mil defeitos, não gostar de nos ver nas fotografias (e achar que a culpa é da câmara), ou comparar-nos constantemente com corpos que vemos online ou até com amigas.
Mas foi no verão de 2025 que percebi que realmente não me estava a sentir bem na minha pele. Houve um momento em que ponderei deixar de aceitar trabalhos para marcas de biquíni ou lingerie. O meu trabalho passa muito por fotografar o meu corpo, por isso quando percebi que corria o risco de abdicar de algo que sempre adorei por não me sentir bem comigo mesma, pensei: “Calma, temos de olhar para isto com mais atenção”. Algumas semanas depois procurei ajuda médica.
Viver com a sensação de estar profundamente infeliz com o próprio corpo é uma luta diária. Cada vez que me olhava ao espelho, que fazia uma sessão fotográfica, que me via em fotografias, que experimentava roupa num provador ou que vestia um biquíni, tudo isso acabava por ser um lembrete de que eu não me sentia confiante nem confortável comigo mesma.
Admitir que essa realidade existia foi duro, porque significava sair da minha zona de conforto, expor-me e enfrentar várias questões internas que durante muito tempo preferi ignorar. Foi um processo muito íntimo porque me obrigou a olhar para partes muito vulneráveis minhas que durante anos tentei evitar. Admitir que tinha uma relação difícil com a comida e episódios de compulsão alimentar não foi fácil. Durante muito tempo achei que a compulsão alimentar era apenas falta de controlo ou fraqueza da minha parte e que não precisava de ajuda profissional para lidar com isso. Na realidade, perceber que precisava de apoio foi um passo muito importante neste processo.
A terapia ajudou-me a compreender muitas coisas. A perceber que hábitos quero mudar, a identificar melhor a minha fome emocional e a entender que não estou sozinha neste tipo de desafios. Acima de tudo, ajudou-me a perceber que o bem-estar mental e o bem-estar físico estão profundamente ligados. Quando não estamos bem connosco mesmos por dentro, é muito difícil estarmos bem no nosso corpo. E também me deu a segurança de perceber que tenho todo o direito de querer sentir-me melhor comigo mesma.
Para mim, a decisão de transformar o meu corpo não invalida o meu amor-próprio. Uma coisa não invalida a outra, aliás, complementam-se. Amor-próprio também é sermos honestos connosco mesmos e procurarmos aquilo que nos faz sentir verdadeiramente bem. Esta mudança de estilo de vida surgiu exatamente dessa procura: da vontade de me sentir melhor, mais equilibrada e mais saudável. Cada corpo tem o seu caminho e esta foi apenas a decisão que fez sentido para mim neste momento da minha vida. Nunca foi apenas sobre perder peso. Foi sobretudo sobre aprender a cuidar melhor de mim.
Durante muitos anos estava habituada a fazer escolhas que hoje percebo que não eram as melhores para mim, por isso reeducar a mente e criar novos hábitos é um processo diário. Também tive momentos de dúvida. Construí grande parte da minha carreira como modelo curvy e houve um receio real de que algumas marcas pudessem deixar de se identificar comigo
Mas tento lembrar-me de algo muito simples: antes de qualquer rótulo, eu sou modelo. E acredito que continuarei sempre a ter características curvy (tenho peito, sou baixinha, tenho ancas )e adoro essas características em mim. Ainda estou neste processo e estou a fazê-lo com acompanhamento médico e nutricional, porque o mais importante para mim é encontrar uma forma sustentável de cuidar da minha saúde.
Quando trabalhamos com imagem, sabemos que qualquer mudança pode gerar expectativas ou interpretações. E claro que existiu algum receio em relação ao desconhecido e ao impacto que isso poderia ter na minha carreira. Mas também sinto que estamos a viver uma fase muito positiva na indústria, em que existe espaço para diferentes tipos de corpos e de histórias. Isso dá-me muita tranquilidade para continuar a focar-me no que realmente importa: cuidar de mim e sentir-me bem comigo mesma.
“Ter amigas é sentir que estamos sempre de mãos dadas, num caminho certo ou incerto.” 5 mulheres sobre o poder da amizade feminina na autoestima
Catarina Maia, Maria Morango, Susana Marques Pinto, Mafalda Nunes e Raquel Prates partilham com a Máxima o que significa, para cada uma delas, a amizade entre mulheres.
Parece mentira, mas não é: houve apenas 0,3% de modelos "plus-size" nas últimas passerelles internacionais
Mais do que uma tendência, a inclusão exige continuidade.
Para as passerelles de FW26 a idade deixou de ser tendência - e ainda bem
Entre cabelos grisalhos e histórias escritas no rosto, as semanas da moda mostraram que a verdadeira elegância vai muito além da juventude.