Nenny: “Era como se dissessem: tens de ser vulnerável, tens de ser forte, mas não demasiado - porque passas a ser vista como a 'mulher negra agressiva' ou 'a vítima'.”
Aos 23 anos, Marlene Tavares está menos interessada em alimentar expectativas do que em afirmar a sua identidade. Nesta conversa, fala da distância entre a imagem e a pessoa, da relação com o corpo e da necessidade de escolher o que quer mostrar - e o que prefere guardar.
Aparelho dentário, uma cara sem maquilhagem e dois totós. Foi assim que grande parte do público ficou a conhecer Marlene Tavares, mais conhecida por Nenny, no videoclipe de Sushi, o single de 2019 que a arrancou do quarto, da adolescência e da promessa para a atirar, de forma quase instantânea, para o centro da música portuguesa. Havia qualquer coisa de desarmante nessa primeira imagem: não parecia fabricada para caber numa ideia prévia de estrela, nem afinada para responder às exigências do olhar alheio. Era frontal, crua, jovem - e, por isso mesmo, difícil de esquecer.
Mas reduzir Nenny a esse primeiro impacto seria falhar quase tudo do que veio depois. E também do antes. Filha de pais cabo-verdianos, nascida em Vialonga, moldada entre Portugal, os subúrbios de Paris e Luxemburgo, a artista foi construindo uma linguagem muito própria a partir de várias pertenças ao mesmo tempo: o rap e o R&B, a memória da diáspora, a musicalidade africana que lhe entrou cedo em casa e uma consciência cada vez mais nítida de que a identidade nunca é uma linha única, mas uma composição em camadas. Antes de ser carreira, a música foi refúgio; antes de ser personagem, houve sempre uma rapariga a tentar perceber como existir inteira dentro daquilo que os outros projetavam nela.
Desde então, o percurso fez-se de afirmação, silêncio, reposicionamento e escala. De Aura às passagens por plataformas internacionais como COLORS e Tiny Desk Meets AFROPUNK, Nenny foi consolidando um lugar que já não se explica apenas pelo impacto precoce de um tema viral, mas por uma presença artística cada vez mais consciente, mais pensada e mais sua. Talvez por isso esta fase pareça menos sobre corresponder à imagem que ficou e mais sobre a disputar: dizer quem é, de onde vem, o que mostra e o que decide guardar.
Quando nos sentámos para esta conversa, num almoço demorado em Lisboa, o momento mais rígido de observação mútua já tinha passado. Tínhamo-nos conhecido dias antes, durante a sessão fotográfica em colaboração com a Levi's que acompanha esta entrevista, e essa primeira aproximação bastou para desfazer a formalidade inicial e abrir espaço a uma conversa mais solta, mais porosa, mais honesta. Ao longo de duas horas, falou-se de imagem e de controlo, de beleza, representação e de feminilidade. Falou-se também da distância - e da continuidade - entre Nenny e Marlene. E percebemos que, se a primeira entrou em cena como um impacto, a segunda é quem hoje lhe dá espessura.
Já referiste, em diferentes momentos, que nem tudo aquilo que mostras corresponde à totalidade de quem és. Num contexto em que a imagem tende a simplificar, como é que se constrói uma relação com o corpo que não seja redutora, mas sim expansiva?
Eu diria que o meu corpo, a forma como me visto e como me comporto são também maneiras de expressar ao mundo quem eu realmente sou. A forma como me expresso a nível corporal tem muito significado para mim - eu já dancei, e esses movimentos, essas atitudes, são uma parte importante da minha identidade. Às vezes, as pessoas veem-me, por exemplo, na ModaLisboa - ainda há pouco tempo aconteceu - e eu estava simplesmente a andar, mas conseguia perceber, pelo olhar delas, que me estavam a definir. Ou seja, criam logo uma ideia: “esta pessoa é assim”, “esta artista é assim”, com base na forma como anda, como se expressa, como fala, no que diz e na maneira como o diz. No fundo, acho que tudo isso acaba por refletir muito quem nós somos.
Num contexto em que a imagem pode anteceder a música, a moda torna-se quase uma primeira forma de linguagem. Quando é que ganhaste consciência desse papel na forma como és percebida?
Comecei a perceber que a moda podia ser uma forma de comunicação desde muito nova. Sempre tive essa vontade de encontrar o meu estilo - lembro-me de olhar para certas peças e pensar: “eu quero aqueles ténis, quero aquele casaco, quero aquela mala”. Mas também venho de uma família com menos possibilidades, por isso esse processo foi acontecendo aos poucos. Foi sobretudo por volta dos 14, 15 anos que comecei realmente a encontrar o meu estilo e a perceber que ele funcionava quase como um passaporte para as pessoas me conhecerem - ou pelo menos para criarem uma primeira ideia sobre mim, sobre a minha identidade e personalidade.
Hoje em dia, por exemplo, uso muito mais preto porque estou mais discreta - há dias em que acordo e quero passar mais despercebida. Mas também há dias em que penso: “deixa-me trazer um pouco mais de cor ao mundo”. Acho que isso diz muito sobre quem eu sou. As pessoas acabam por associar isso à minha identidade - veem-me como uma artista consciente e aberta, e a forma como me visto transmite também essa autoconfiança.
Crescemos rodeados por referências muito específicas do que é considerado “belo”, muitas vezes pouco diversas. Olhando para trás, que ideias sobre beleza cresceste a ouvir e o que sentes que tiveste de desconstruir para conseguires chegar a uma definição mais tua?
Lembro-me de ver muitas mulheres negras na televisão e de sentir um grande entusiasmo - era importante para mim poder reconhecer-me ali, ver mulheres negras representadas. Mas, muitas vezes, essas mulheres também correspondiam a um certo padrão que lhes era imposto para ocuparem esse espaço. Eram, por exemplo, mulheres com a pele mais clara, com traços menos marcadamente negros. Eu admirava-as, claro, mas ao mesmo tempo não me revia completamente nelas. Sentia falta de uma referência que fosse mesmo parecida comigo.
A primeira pessoa em quem senti isso de forma muito clara foi a Sara Tavares. Para mim, ela era mesmo “uau, eu quero ser como ela”. Não só pelo público que alcançava - tanto PALOP como português -, como também pela forma como se apresentava fisicamente: muito fiel a si própria. Ela não encaixava necessariamente naquilo que, de fora, se espera ver como “a mulher negra no ecrã”. E isso fazia toda a diferença. Porque, por exemplo, artistas como Beyoncé, Rihanna ou Nicki Minaj são mulheres lindíssimas, mas também mais claras - e eu sentia que isso as tornava, de certa forma, mais “aceitáveis” dentro do padrão dominante. Por outro lado, também havia referências como Lauryn Hill, extremamente bonita, mas que não era sempre reconhecida dentro desse ideal mais convencional de beleza. Ou seja, nem todas eram vistas da mesma forma, mesmo sendo igualmente incríveis. No caso da Sara Tavares, talvez não fosse considerada “beleza padrão” para muitas pessoas, mas para mim era - porque era ali que eu me via. Identificava-me completamente. E ela era sempre muito ela mesma. Podia usar rastas, depois cortar, usar afro, mudar - mas havia sempre uma autenticidade muito natural. Isso marcou-me muito.
Eu própria, sendo uma mulher negra, também estou sempre a mudar de cabelo - há dias em que quero tranças, outros em que quero caracóis, outros ainda em que opto por cabelo liso. Mas essa liberdade de experimentar vem também dessas referências. A Sara Tavares foi, sem dúvida, uma dessas pessoas que me inspirou e ajudou a perceber que podia simplesmente ser eu mesma.
Hoje fala-se mais de inclusão, mas também se percebe que muitos padrões apenas mudaram de forma, não de estrutura - como se as características naturais fosse tendência. Já alguma vez o sentiste na pele? Quando olhas para a forma como a beleza é representada agora, sentes evolução real ou apenas uma adaptação mais subtil das mesmas regras?
Sinto que são as duas coisas. Por um lado, há de facto mais inclusão e uma maior abertura a diferentes tipos de beleza. Mas, ao mesmo tempo, continua a existir um padrão que nos puxa, de forma mais subtil, para sermos todas um pouco iguais. Para ser mais concreta: antigamente, ter lábios muito grandes era motivo de gozo. Era algo apontado - “ela tem lábios demasiado grandes”, “a pele dela é muito escura”. E hoje em dia vemos quase o contrário: há toda uma tendência de ir ao sol para ganhar mais cor, de recorrer a procedimentos estéticos, de aumentar os lábios… características que, no meu caso, sempre foram naturais. Ou seja, aquilo que antes era criticado, hoje é muitas vezes o padrão. O padrão de beleza está sempre a mudar, mas há uma constante: a pressão para nos encaixarmos num certo molde. Vejo muitas pessoas a quererem aproximar-se dessas características para serem mais aceites - como se houvesse sempre um conjunto de traços “certos” a atingir. Hoje, por exemplo, ter lábios mais volumosos é visto como bonito, como desejável. Mas há dez anos, eu própria era criticada exatamente por isso.
Na tua música existe uma abertura emocional muito clara, quase crua em alguns momentos. Já na imagem, há uma construção mais controlada. Essa diferença é uma escolha consciente ou uma necessidade de proteger partes de ti que nem sempre queres expor?
Ambas. Por um lado, é uma escolha consciente. Por exemplo, com a minha stylist – a Mónica Lafayette - temos vindo a construir uma imagem mais controlada, mais pensada. Isso também nos permite chegar a outros contextos, a outras marcas, e ter maior controlo sobre a forma como sou percebida. Mas, por outro lado, também é uma necessidade. À medida que fui crescendo e me tornei mulher, comecei a sentir que há partes de mim que quero proteger. Há coisas que tenho vontade e coragem de expor, mas há outras que prefiro guardar.
Hoje sinto-me numa fase mais feminina, mais confortável com o meu corpo. Consigo mostrar mais pele, porque já não tenho tantas inseguranças como tinha na adolescência - embora ainda existam algumas. Perdi um pouco esse medo de me expor, mas continuo a escolher o que quero ou não mostrar. Claro que existe sempre esse cuidado. Mesmo sendo fiéis a nós próprias e fazendo aquilo que queremos, sabemos que há coisas que podem ser interpretadas de forma diferente pelas outras pessoas. Por isso, há um certo controlo, uma atenção ao que mostramos. Mas também houve uma necessidade clara de afirmar esta fase mais adulta da Nenny. De assumir: “agora posso fazer isto, agora quero expressar-me desta forma”. E isso acaba por se refletir em tudo - na maneira como falo, como estou, na segurança que tenho hoje, que não tinha quando tinha 16 anos e lancei Sushi, por exemplo.
Em entrevistas anteriores, já mencionaste a importância de te preservares - inclusive, depois do teu boom em 2019 com Sushi afastaste-te um pouco. Num espaço onde tudo é visível e comentado, como decides o que fica do lado de fora e o que permanece só teu?
Aquilo que fica só para mim é, sobretudo, a minha vida pessoal - a minha privacidade, as relações com a minha família e com os meus amigos. Tenho um círculo muito, muito fechado. Tenho amigos de há 10 anos, pessoas que conheço desde os 10, 11 anos. Claro que vou conhecendo outras pessoas ao longo do caminho, mas os meus amigos mais próximos são os de sempre - muitos deles são até família, como os meus primos. Não vivo sem eles. E faço questão de preservar isso. É o meu espaço seguro. E não quero expô-lo.
Vejo isto de duas formas: por um lado, tenho essa base - a minha família e os meus amigos, que sempre estiveram lá para mim, que me viram crescer, antes de tudo isto, quando eu ainda era a Marlene. Por outro lado, tenho também esta “família” que são os fãs, que me acompanham e apoiam desde o início. E eu tento gerir essas duas dimensões. Não exponho constantemente a minha vida privada, porque sinto que isso já é a Marlene - não é a Nenny. A Nenny é a artista, é o lado que partilho com o público. Dou aquilo que quero dar. Protejo-me nesse sentido - não quero criar uma imagem que depois traga expectativas com as quais eu não me identifico, ou uma pressão que não quero ter. Porque, no fim do dia, apesar de ser artista, sou humana. Quero ter a minha privacidade, quero ter histórias que são só minhas. E estou constantemente a tentar equilibrar esses dois mundos.
A indústria ainda parece exigir das mulheres uma gestão constante entre força e contenção, visibilidade e controlo. Sentiste, em algum momento, que te era pedido esse equilíbrio quase impossível e como é que te posicionaste perante isso?
Sim, senti esse equilíbrio - e, na verdade, ele foi-me pedido de forma muito clara na altura em que me afastei. Havia uma pressão constante: “tens de fazer isto”, “tens de ser este tipo de artista”, “tens de representar”. Mas eu sempre senti que, ao ser eu mesma, já estava a representar muita gente. Só que estou, acima de tudo, a falar por mim. E, claro, sei que isso pode tocar outras pessoas - e ainda bem, esse é o meu propósito. Mas nunca quis assumir esse papel de heroína. Se as pessoas me colocarem nesse lugar, tudo bem. Mas não quero carregar essa responsabilidade de falar por toda a gente. Eu tenho de ser a minha própria heroína primeiro. Tenho de estar bem comigo.
E esse tal equilíbrio tornava-se quase impossível. Era como se me dissessem: tens de ser vulnerável, mas não demasiado; tens de ser forte, mas não demasiado forte - porque, se mostras muita força, passas a ser vista como a “mulher negra agressiva”; se mostras demasiada vulnerabilidade, és colocada no lugar de vítima. Então a questão começou a ser: afinal, o que é que querem que eu seja? Mas percebi que essa não podia ser a pergunta. A pergunta tinha de ser: o que é que eu quero ser? O que é que eu quero mostrar? E foi aí que senti necessidade de me afastar. De certa forma, perdi-me um pouco, mas também foi assim que me voltei a encontrar.
Precisava de sair desse ruído, dessa pressão externa, para não cair na imagem que os outros queriam que eu fosse. Precisava de me isolar e perceber quem sou realmente e porque é que estou aqui. No fundo, afastei-me precisamente para encontrar esse equilíbrio e voltei com respostas mais minhas. Porque, no final, eu sou só uma mulher jovem a descobrir-se. Lembro-me de ter sessões com um psicólogo que me dizia que o desenvolvimento do carácter só começa verdadeiramente por volta dos 24, 25 anos. E eu entrei na indústria com 16 - já com uma pressão enorme sobre mim, quando ainda nem tinha tido tempo de me conhecer totalmente.Isso fez-me perceber que precisava mesmo de parar. De viver, de fazer coisas do dia a dia que me fazem bem, que me ajudam a perceber quem sou. Porque é isso que me dá propósito: estar aqui a fazer aquilo de que gosto e a ser quem realmente sou. No fundo, é uma escolha simples - ou vives o teu sonho, ou vives o sonho de outra pessoa. E eu escolhi viver o meu. À minha maneira.
O que este novo álbum diz de ti, enquanto mulher agora? Qual a mensagem que queres passar?
Este álbum - ID, que sai a 15 de maio - é um capítulo - quase como fechar uma página do meu projeto anterior, o EP Aura.
Logo no início [do novo álbum], na intro, há essa ideia de encerramento, de fechar um ciclo. Depois, numa das músicas, ID, começo por mencionar temas desse EP, como uma espécie de ligação ao passado. Mas, a partir de certo ponto, entro numa nova narrativa - mais presente, mais focada no agora. Porque, no fundo, aquilo que temos de mais importante é o presente. Claro que pensamos no futuro - fazem-nos sempre essa pergunta, “onde te vês daqui a cinco anos?” -, mas, para mim, o essencial é o que estou a fazer agora. E isso reflete-se no álbum. Mostra uma Nenny mais madura, mais consciente de si. Uma Nenny que se assume a 100%. Não é que não tenha medo - tenho - mas avanço na mesma. Vou à luta na mesma.
O álbum fala muito sobre identidade. Sobre perder-me e voltar a encontrar-me. Sobre a forma como fui vista pelos outros, mas também sobre os meus próprios processos - os meus traumas, o meu caminho de amor-próprio. Há uma confiança que nasce desse trabalho, como também uma honestidade: mesmo quando estamos a crescer, há sempre coisas que nos acompanham, vozes internas que às vezes dificultam o processo. E acho que isso é ser humano. Não acordamos todos os dias confiantes, fortes, no nosso melhor. Há dias em que simplesmente não nos sentimos a 100% - e está tudo bem. O álbum também fala disso: da normalidade de não estarmos sempre bem, de haver dias em que os traumas pesam mais do que outros. Para mim, isso também é identidade, aceitar tudo o que somos, em todas essas camadas.
Quantas faixas tens neste álbum?
São 15 faixas. Hoje em dia, já é considerado um álbum longo, mas nem sempre foi assim. E eu não posso deixar de fazer a minha arte com base na ideia de que “ninguém vai ouvir”. Mesmo que isso acontecesse - mesmo que ninguém ouvisse - continua a ser a minha arte. Eu faço primeiro para mim. Só depois é que faço para os outros.
E tu escreves tudo sozinha?
Não. Neste álbum, por exemplo, não escrevi tudo sozinha - tive bastante ajuda. Trabalhei com o Duay, o Extinto e o Luar, que também foi o produtor do álbum. Participei ainda em writing camps, onde contei com a colaboração da Iolanda e da Inês Apenas.
Neste projeto, quis mesmo trabalhar com outros artistas - foi uma decisão consciente. A ideia era criar em conjunto, trocar ideias, construir algo em coletivo. Porque, no fundo, há muitas formas de contribuir para a música, muitos papéis diferentes dentro do processo criativo.
Enquanto mulher negra, a tua presença também carrega uma dimensão de representação que vai além do individual. De que forma é que essa consciência influenciou, ou não, a forma como construíste a tua relação com a beleza e com o palco?
Influencia - sobretudo nesse sentido do controlo de que falava há pouco. A forma como me visto, como me apresento, a imagem que construo é muito sobre mim… como também sobre aquilo que quero transmitir. Penso muito em como posso inspirar outras mulheres negras, que acabam por ser o meu principal público. Como é que posso contribuir, não só ao nível da representação, como também de respeito e identificação. Ao mesmo tempo, não quero que isso se torne uma obrigação. Como já disse, eu vejo-me como a minha própria heroína - porque tive a coragem de seguir o que realmente gosto. E, se isso inspirar outras pessoas, então ótimo. Mas essa leitura tem de partir delas. Claro que tenho essa consciência. Tenho esse cuidado em construir uma imagem que possa, de alguma forma, dizer: “é possível”. Que, se eu consegui, outras também podem conseguir. Mas é um equilíbrio. Faço-o de forma natural, sem sentir que tenho de carregar esse peso o tempo todo. É mais uma intenção do que uma imposição.
Durante muito tempo, certos traços, corpos e estéticas foram pouco visíveis ou valorizados. Sentiste que cresceste sem espelhos suficientes? E que impacto é que isso teve na forma como te viste a ti própria?
Sinto que não cresci com espelhos que fossem realmente próximos de mim. E, em Portugal, também não se dava assim tanta visibilidade ou espaço a mulheres negras, seja na televisão, seja na arte. As referências que existiam vinham muitas vezes de fora, sobretudo dos Estados Unidos, mas mesmo aí havia uma tendência muito forte para a sexualização das mulheres negras - especialmente na música, e ainda mais no rap. Quando comecei, lembro-me de haver muitas interpretações sobre mim. Por exemplo, por eu ter uma energia mais masculina, menos sexualizada, havia quem assumisse coisas sobre a minha identidade. E isso mostrava também o tipo de expectativa que existia em relação a uma mulher negra na música. E eu não queria necessariamente seguir esse caminho. Queria falar a minha verdade, expressar-me à minha maneira - claro que há coisas que quero dizer, faz parte de ser humano - mas sem sentir que tinha de cair nesse registo mais vulgar ou esperado.
Sentes que ser jovem nesta altura em que tudo é muito exposto nas redes sociais influência a forma como te vês e a tua autoestima/imagem? Como lidas com a inevitável comparação e pressão?
Infelizmente influencia - e bastante. Sobretudo porque o meu trabalho exige que eu esteja constantemente ligada às redes sociais. E há coisas que, para mim, não são naturais, mas acabam por se tornar quase inevitáveis. Por exemplo, há dias em que me sinto mal se não tenho um certo número de gostos, de comentários ou de visualizações. E isso não é normal - eu nem devia desenvolver esse tipo de sentimento por causa disso.E depois há toda a pressão à volta da exposição. Mesmo agora, numa conversa como esta, sinto que tenho de pensar bem no que digo, porque pode ser mal interpretado. Existe uma cultura de cancelamento, há sempre o risco de alguém pegar em algo fora de contexto. O mesmo acontece com o que partilho - há sempre aquele cuidado: “será que devo postar isto?”, “que tipo de reação é que isto vai gerar?”. E isso acaba por criar uma tensão constante. O mais estranho é perceber que começo a sentir ansiedade ou frustração por coisas que, no fundo, estão fora do meu controlo. Porque a verdade é essa: eu só controlo aquilo que faço - não controlo a forma como as pessoas reagem. E isso foi uma aprendizagem importante para mim.
Também sempre foste muito aberta a falar da tua acne. Neste mundo tão perfeccionista e sendo tu uma figura pública, como lidas?
Olha, sofri muito a nível psicológico. Tinha mesmo medo de que as pessoas me vissem como “feia” só por ter acne. Mas, acima de tudo, o mais difícil era a forma como eu própria me via. Havia dias em que olhava ao espelho e pensava: “não quero sair de casa hoje, não posso sair assim”. E depois percebi que tinha duas opções: ou assumia - porque, no fundo, era uma adolescente e aquilo fazia parte - ou tentava esconder tudo com maquilhagem. Mas, muitas vezes, quanto mais tentas esconder, mais evidente se torna. Então decidi assumir.
Lembro-me de ter 16 anos, quando fiz o videoclipe de Sushi. Estava praticamente sem maquilhagem - só um eyeliner, um lip combo - com o meu cabelo natural e pensei: “vou ser eu”. Porque não ia conseguir sustentar uma imagem que não fosse verdadeira. Mesmo sabendo que podia ser julgada. Porque eu sentia isso - via nos olhares das pessoas. Comentários, reações… E isso já vinha de antes. Na escola, por exemplo, em França, chamavam-me nomes como “madame bouton” ou “madame nez”. Era muito duro. Chegava a casa a chorar, fechava-me na casa de banho e sentia mesmo um grande ódio por mim própria. Era como se tudo em mim fosse “demasiado” para o padrão - a minha pele, o meu cabelo, o acne. Sentia que não encaixava. E aí, mais uma vez, tive de escolher: ou escondia quem eu era, ou assumia-me. E eu escolhi assumir.
Mesmo nos dias em que não me sentia bonita, saía à mesma. Criava quase um escudo - uma atitude de confiança. Porque percebi que a forma como nos apresentamos ao mundo também define muito como somos vistos. Às vezes, posso não estar no meu melhor por dentro, mas a forma como me posiciono, como me expresso, como me movo… isso também é beleza.
Como olhas para o envelhecimento?
Antigamente, olhava para o envelhecimento com algum receio - aquela ideia de “vou envelhecer, como é que vou ser?”. Havia muito esse medo. Mas hoje vejo de forma completamente diferente. Sinto que, quanto mais cresço, mais bonita me torno - e não só a nível físico, mas também enquanto pessoa. Torno-me mais consciente, mais disciplinada no cuidado comigo mesma, seja a nível mental, físico ou emocional. Tenho mais clareza sobre aquilo que quero, e isso dá-me uma força diferente. Até penso: daqui a dois ou três anos vou estar ainda melhor, na minha melhor fase, mais segura, mais alinhada comigo. E sinto que isso é algo que acontece naturalmente - vamos evoluindo, vamos ganhando presença. Hoje, com 23 anos, já me sinto muito mais bonita, mais confiante e mais madura do que quando tinha 16. E consigo olhar para trás e reconhecer: eu já era bonita naquela altura, mas agora sinto-me ainda mais. E acredito mesmo que aos 30 vou sentir isso outra vez - e depois aos 40, aos 50. Acho que existe muito essa ideia, sobretudo em relação às mulheres, de que com a idade se perde valor - que o corpo muda, que já não é o mesmo. Mas, para mim, a beleza cresce com o tempo.
Créditos:
Fotografia: João Janot
Realização: Mónica Lafayette
Assistente de realização: Vanessa Costa
Maquilhagem e cabelos: Catalina Cana
Video: Cris Andrade