Histórias de Amor Moderno: “As minhas dúvidas e inquietações eram legítimas, tal como as minhas inseguranças. A forma agressiva como o Urbano me respondeu deixou-me ainda mais desconfiada"
“Na cabeça dele, eu, encolhida, sem jeito, meio embaraçada pelas minhas observações tontas e desconfianças, pedir-lhe-ia muitas desculpas pelo atrevimento. Mas isso era só na cabeça dele. Na minha, não havia desculpas a pedir.” Todos os sábados, a Máxima publica um conto sobre o amor no século XXI, a partir de um caso real.
A Gisela chamou-me e disse “olhe, Dona Inês, havia um papel, um envelope, parece, no bolso de dentro deste blazer do Doutor, sujou tudo”, e mostrou-me uma mole disforme de papel lavado, com restos de cola. Parecia ser, realmente, um envelope, sim. “De correio verde”, acrescentou.
O blazer do “Doutor”, que é o meu marido, teve de ir novamente a lavar - os bolsos e as dobras estavam cheios de pequenos pedacinhos de papel desfeito, depois de ter sido enxaguado, centrifugado e seco. “Estes blazers podem ser lavados assim?”, perguntei eu à Gisela, que é quem, há já muitos anos, nos trata das roupas lá em casa. Respondeu-me que “é dos materiais novos” e não explicou melhor. Perante a minha incompreensão, limitou-se a acrescentar que “é dos materiais modernos que agora se usa”. Encolhi os ombros, como quem diz “modernices”. Adiante.
Quando ia deitar fora aquela massa de papel sem forma, não resisti à tentação de o tentar abrir. Não era habitual que o Urbano andasse com envelopes de correio verde no bolso interior de um casaco, muito menos no de um que leva para o escritório. E depois, correio verde? A correspondência que trocavam entre firmas raramente seguia por correio e, quando tal sucedia, tratava-se de cartas registadas, em envelope branco.
Não consegui desenrolar muito - não sem causar ainda mais dano àquela já indecifrável amálgama pastosa à base de celulose. Mas deu para desenrolar uma ponta, que presumo fosse um dos cantos inferiores da carta que vinha dentro do envelope. Havia nessa ponta de papel o resto de um rabisco, possivelmente o fim de uma rubrica. E, em letra miudinha, “admiro-te”, em jeito de post-scriptum.
Perguntei ao Urbano que papel era aquele. Não lho mostrei. Falei-lhe, por alto, do episódio da Gisela, de ela ter encontrado o papel todo amassado depois de lavado. Tentei não atribuir um grande peso ao caso. O meu marido, primeiro, fez-se despercebido. Não sabia, não tinha ideia, não se lembrava, sabia lá ele. Insisti, distraidamente, como se tal não importasse, que o envelope se encontrava no bolso interior do seu blazer. “Mas tu agora andas a espiar-me? Desconfias de mim? Há alguma coisa que queiras perguntar? Alguma vez te dei motivos para desconfiar?”
Todas as perguntas eram retóricas. Todas elas acabavam, na cabeça dele, num submisso “não” da minha parte - na cabeça dele, eu, encolhida, sem jeito, meio embaraçada pelas minhas observações tontas e desconfianças, pedir-lhe-ia muitas desculpas pelo atrevimento. Mas isso era só na cabeça dele. Na minha, não havia desculpas a pedir. As minhas dúvidas e inquietações eram legítimas, tal como as minhas inseguranças. A forma agressiva e esmagadora como o Urbano me respondeu deixou-me ainda mais inquieta e intrigada. Depois daquela reação, então sim, eu estava desconfiada. Sorri-lhe, evitando o prolongar de uma discussão que não levaria a lado algum, mas também como quem diz “depois falamos”.
O meu singelo e, repito, legítimo questionamento acerca daquele misterioso papel lavado e meio desfeito, achado num bolso do meu marido, acabou por me valer um castigo penoso. Durante duas semanas, o Urbano não me dirigiu a palavra. Chegava e saía de casa sem dizer palavra. Não se dirigia a mim, fazia a sua vida como se eu não existisse. Tal como sucedera em ocasiões anteriores em que me punira com o mesmo rigoroso silêncio, com a mesma gélida e impiedosa distância, ignorando-me dentro da sua redoma determinada e intransigente, durante a penitência não fez as refeições em casa. Saía cedo pela manhã, regressava muito tarde.
A cada tentativa que fiz de me aproximar, de comunicar, de lhe perguntar se era motivo para tanto, reagia dramatizando, como se estivesse a ouvir uma voz ténue e distante, talvez vinda da boca de alguma assombração. Olhava em redor, procurava encontrar o fantasma emissor dessa voz, mas nunca olhava para mim - mesmo quando olhava na minha direção, fazia-o habilidosamente, como se olhasse através de mim.
Nunca compreendi a razão por que me tratava assim, com o seu silêncio ostensivo, sempre que o meu comportamento lhe merecia repúdio. Parecia-me despropositado, exagerado, até um pouco infantil. Claro que o efeito é cruel. Lidar com alguém que demonstra, em cada gesto, desprezo pela nossa existência é muito doloroso e pesado, é esmagador.
Algum tempo depois do episódio do papel, já nós estávamos numa fase a que podemos chamar normal - sendo que a nossa normalidade não é grande coisa, mas coexistimos pacificamente, o que não é terrível -, encontrei no carro um cartãozinho daqueles que se juntam aos presentes, com uma dedicatória. Era um cartão idiota, de uma marca de cervejas, com um desenho meio obsceno de uma boca muito sugestiva. Vim depois a descobrir que o cartão acompanhava precisamente um abre-cápsulas, cujo desenho, na zona onde se enfiam o gargalo da garrafa e a carica, era exatamente a mesma boca.
O cartão dizia apenas “pró meu chefe preferido” e terminava com um gatafunho que devia ser a mesma rubrica que ilustrava a carta do envelope de correio verde. Ou talvez não fosse a mesma, podia perfeitamente ser outra. O que importa aqui não é quem seria, o que importa é quem não é - porque não sou, não era, não fui eu. E eu é que sou a mulher do Urbano. Quem lhe abre as caricas sou eu, mais ninguém.
Guardei ambos, o cartão e o abre-cápsulas. Ao jantar, nesse dia, quando se sentou à mesa, fiz questão de lhe ir buscar uma cerveja e de a abrir, diante dele, com aquele mesmo abre-cápsulas. Manteve-se impávido, como se não fosse nada. Perguntei-lhe se não achava giro o objeto. “É um objeto e funciona, penso que não tenho nada a obstar. Cumpre a função.” Insisti para que contemplasse a boca gulosa de abocanhar gargalos. Olhou para aquilo e depois para mim, com visível desprezo. Chateou-me aquela atitude sobranceira, aquela postura de intocável. Que hipócrita! Tirei do bolso o cartãozinho quase obsceno e pu-lo sobre o guardanapo dele. Fez um escândalo. E, novamente, fui votada ao período de silêncio.
De cada vez que o confronto com situações destas, deste tipo, o Urbano escuda-se de uma maneira que o torna inviolável. Nega tudo, desvia todas as acusações, refuta, rejeita. É um bom advogado, tenho de conceder. E é um excelente advogado de si mesmo. O “doutor”, como lhe chama a Gisela, a quem nunca ouvi pronunciar-lhe o nome, é realmente um talento na arte da defesa contra as acusações. Mesmo com provas concretas e irrefutáveis, segue a máxima de negar até ao fim, fazendo o adversário desistir por cansaço. O adversário sou eu. E já desisti. Estou cansada. São muitos anos disto. Já pouco me chateia.
Na semana anterior à Páscoa, descemos até ao Algarve, como é nossa tradição. Estávamos no hotel, a tomar o pequeno-almoço, no terraço do quarto, e a ler o jornal, cada um o seu. Eu estava a folhear uma publicação estrangeira, até. A dada altura, deparei-me com uma página de publicidade ao preservativo feminino. Fiquei surpreendida, pois - e assumo aqui a minha ignorância - nem tampouco eu sabia que aquele dispositivo existia. E comentei com o Urbano, “já viste esta invenção? Um preservativo feminino. Como será que isto se usa?” Ele, enfiado na sua leitura, nem hesitou, “que disparate, ainda há pouco tempo usámos um”. E eu sorri, uma vez mais. Porque eu nunca na vida usei tal objeto. Nunca.
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"O carro que me perseguia atravessou-se à minha frente e obrigou-me a travar bruscamente." Todos os sábados, a Máxima publica um conto sobre o amor no século XXI, a partir de um caso real.