Dentro do guarda-roupa de Lux. O figurino de Rosalía pelas mãos de Jonathan Anderson
Para a segunda etapa da digressão, desta vez em solo norte-americano, a cantora veste alta-costura pela mão da Dior.
A 16 de março de 2026, em Lyon, França, tivemos finalmente a oportunidade de testemunhar ao vivo aquilo em que Rosalía esteve a trabalhar durante os últimos anos: Lux, um álbum que desafia fronteiras, tanto linguísticas como sonoras. Desde a primeira audição, tornou-se impossível falar de outra coisa. A artista sevilhana já nos tinha provado inúmeras vezes que nunca aceitou ser limitada por um único género musical. Pelo contrário, construiu uma carreira assente na constante reinvenção, cruzando referências e tradições para criar uma linguagem inteiramente sua.
Com Lux, Rosalía revela uma nova faceta artística. Mais do que um disco multilingue ou multigénero, apresenta uma nova forma de pensar e construir música - um trabalho profundamente artesanal, no qual cada detalhe parece esculpido. Ver esta obra ganhar vida em palco revelou-se, por isso, uma experiência fascinante. Mas, para além da produção, da direção artística ou da intensidade da performance, foi o guarda-roupa que captou a nossa atenção.
Ao longo da história da música, o figurino de concerto sempre foi muito mais do que uma extensão do espetáculo. Das silhuetas clássicas e elegantes de Ella Fitzgerald ao icónico soutien cónico desenhado por Jean Paul Gaultier para Madonna na Blonde Ambition Tour, em 1990, a moda encontrou na música uma das suas mais poderosas formas de expressão. O palco tornou-se um laboratório onde a alta-costura podia ganhar movimento, emoção e significado.
Como escreveu a L'Officiel num artigo, "é preciso um tipo muito especial de designer para acompanhar a energia das maiores estrelas da música, especialmente daquelas que parecem viver anos-luz à frente do seu tempo". É difícil imaginar uma descrição mais adequada para Rosalía. E, quando falamos desse "designer especial", o nome de Jonathan Anderson surge inevitavelmente. O diretor criativo foi responsável por reinterpretar uma parte significativa dos figurinos da digressão norte-americana, transformando-os através da linguagem estética da Dior.
Para a primeira etapa da digressão, Rosalía trabalhou em estreita colaboração com o seu stylist de longa data Jose Carayol, dando forma à sua visão experimental. Quando as luzes se acendem e a artista emerge de uma caixa, o espetáculo inicia-se com uma imagem quase teatral: Rosalía veste um clássico traje de bailarina, composto por corpete, tutu e sapatilhas de pontas, numa referência simultaneamente delicada e performativa.
Na etapa norte-americana, este primeiro visual foi reinterpretado por Anderson. O conjunto, em tons marfim, é composto por uma camisola de malha sem mangas de gola redonda e uma saia tutu em organza, enriquecida com medalhões inspirados em folhas, bordados com lantejoulas e missangas brancas. Sobre esta colaboração, Anderson explicou à Vogue: "Ouvir a Rosalía falar sobre o processo criativo de Lux fez-me imediatamente pensar na alta-costura. Na qualidade acústica do álbum sente-se o cuidado extremo colocado em cada faixa - é um trabalho artesanal. Ela parte de um conhecimento profundo da tradição e do savoir-faire para criar algo completamente contemporâneo. Nesse sentido, uma parceria com a Dior pareceu-nos absolutamente natural".
Na primeira mudança de figurino, Rosalía abandona a leveza inicial para assumir uma estética mais sombria. Vestida de negro, evoca uma figura quase sacerdotal, de inspiração gótica e medieval, enquanto interpreta Berghain. Também este segundo look foi reinterpretado pela maison, através de um vestido de jersey fino ornamentado com brandebourgs bordados e complementado por um chapéu de inspiração tricórnio em cetim, retirado da coleção pronto-a-vestir primavera-verão 2026 da Dior. Ao contrário da versão apresentada na etapa europeia da digressão, o chapéu surge agora depurado dos característicos apontamentos em penas, privilegiando uma abordagem mais minimalista.
O terceiro visual devolve a cor ao palco. O azul, símbolo de serenidade e transcendência, recupera a dimensão quase angelical da narrativa visual do concerto. O vestido, de estrutura pannier aberta, é inteiramente bordado com fitas de cetim dispostas num degradé de azuis, sobre uma base tecida na mesma técnica. À medida que Rosalía percorre o palco, o tecido acompanha delicadamente cada movimento, criando uma sensação de leveza quase etérea.
Para encerrar tanto esta colaboração como um espetáculo de quase duas horas, surge aquele que achamos ser o momento visual mais marcante da noite. Rosalía veste uma capa inspirada em asas de anjo, construída em organza e penas de chiffon, combinada com um soutien branco em cetim de acabamento acolchoado e uns calções bordados com escamas de organza marfim, enriquecidas com lantejoulas e missangas prateadas. Um último look que sintetiza na perfeição o universo de Lux: delicado e poderoso, clássico e futurista, profundamente artesanal e, ao mesmo tempo, radicalmente contemporâneo.
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