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Reflexão Máxima: Caso Lindsay Clancy. E se a mulher que estrangulou os três filhos fosse uma de nós?

Começou a segunda semana do julgamento que está a chamar a atenção dos Estados Unidos da América para a saúde mental na maternidade. Homicídio ou psicose pós-parto? A resposta será tão trágica quanto a nossa incapacidade para admitir que nenhuma mãe é perfeita.

Lindsay Clancy
Lindsay Clancy Foto: AP
03 de agosto de 2026 às 16:55 Rosário Mello e Castro Adicione como fonte preferencial no Google

Uma grávida é uma mulher que começa uma relação tóxica com um desfecho traçado à partida. Nove meses de cuidados médicos constantes, um parto mais ou menos traumático e, praticamente de um dia para o outro, o sistema de saúde esquece o corpo que se virou do avesso para concretizar o milagre que é o nascimento de um bebé. Depois do love bombing, segue-se o ghosting médico mais inexplicável das nossas vidas.   

Por estes dias, o mundo assiste em choque ao julgamento em direto de Lindsay Clancy, a ex-enfermeira obstétrica de 35 anos que em 2023 estrangulou os três filhos pequenos com bandas de exercício e depois esfaqueou o próprio pescoço, cortou os pulsos e atirou-se de uma altura de seis metros, acabando paralisada da cintura para baixo. O agora ex-marido, e pai das crianças com idades entre os 18 meses e os 5 anos, tinha saído para comprar medicamentos e take-away algures na privilegiada vila norte-americana de Duxbury, Massachusetts. De acordo com a defesa de Clancy, a tragédia terá sido resultado de uma psicose pós-parto, que pressupõe delírios, alucinações, confusão mental e perda de contacto com a realidade.

O problema, como analisa o The New York Times num dos vários artigos que publicou sobre o caso, é duplo, e está à vista neste banco dos réus. Por um lado, o injustificável atraso da pesquisa científica sobre a saúde mental no pós-parto; por outro, uma sociedade que continua a penalizar quem ousa falar destas perturbações. Mesmo que a acusação prove que Clancy teve a intenção de matar, o desconforto com que o mundo (não) olha pelo bem-estar psicológico das mães também deveria ser crime. Basta lembrar a quantidade de mulheres que preferem sofrer em silêncio em vez de partilhar qualquer pensamento ou comportamento que não encaixe no molde materno a que nos habituámos. E, assim, o progresso - científico e cultural - fica na incubadora.  

É fácil de perceber como chegámos aqui. Afinal, a cartilha social dominante insiste em confinar-nos ao papel de cuidadoras naturais da família e da casa. Podemos fugir-lhe, mas dificilmente conseguimos esconder-nos. E isso torna-se especialmente evidente na gravidez e nos primeiros anos após o nascimento de um filho. Depois de semanas de enjoos tão fortes que não conseguia comer, beber ou sair da cama, a enfermeira do hospital onde cheguei quase sem forças, sugeriu que o problema talvez fosse psicólogo, uma reticência em aceitar o bebé que aí vinha. “A meditação pode ajudar”, insistiu perante a minha barriga esfomeada. Bastou um comentário sem qualquer fundamento para que passasse os meses seguintes a ler sobre mulheres que não conseguiam ter filhos. Como me atrevia a queixar-me quando tinha a sorte de estar grávida e saudável aos 36 anos?

Lindsay Clancy
Alguns registos usados em tribunal Foto: AP

Um estudo sueco de 2019 descobriu que, quando os pais têm direito a licenças pagas e flexíveis, a prescrição de medicamentos para a ansiedade de mães em pós-parto diminui em 26%. Em Portugal, no entanto, o número de pais que partilha a licença com as mães tem diminuído e nem metade dos homens tiram a licença paternal de um mês prevista na lei. Coincidência, ou nem por isso, os números oficiais divulgados pelo Serviço Nacional de Saúde dizem-nos que uma em cinco mulheres teve ou tem , uma das médias mais altas da União Europeia, enquanto a psicose pós-parto, considerada uma emergência psiquiátrica, afeta uma a duas mulheres a cada 1000. O caso de Lindsay Clancy poderá ser uma arrepiante exceção, mas a dificuldade em aceder a cuidados de saúde mental na gravidez, pós-parto e primeiros anos de maternidade, parece continuar a ser a regra um pouco por todo o mundo. Mesmo quando se pede repetidamente ajuda, como terá feito Clancy, segundo a sua defesa e o próprio ex-marido Patrick Clancy (que entretanto voltou a casar e já tem um filho). Ambos relataram em tribunal repetidos pedidos de ajuda por parte de Lindsay Clancy, a quem foram prescritos mais de 12 medicamentos para tratar o que seria um caso de depressão pós-parto severa, incluindo Valium, Prozac, Zoloft, clonazepam e lorazepam.

Na verdade, poucas mães sabem que existem medicamentos seguros para tomar durante a gravidez e a amamentação e as que sabem raramente falam sobre isso. Como se houvesse um ciclo de dor a que nenhuma mulher deve escapar, uma espécie de batata quente que passamos umas às outras sem dar por isso. As mulheres, com ou sem filhos, continuam a ser culpabilizadas por tudo o que acontece no universo doméstico, uma sentença que dura há mais anos do que qualquer pena atribuída por crimes sexuais ou de violência doméstica. Mesmo em sociedades avançadas, como o exemplo sueco, a pressão para a desigualdade mantém-se, tornando essenciais as políticas públicas que rompem ou obrigam a romper com essa visão, entre elas as licenças parentais.

O Caso Lindsay Clancy será brevemente resolvido em tribunal, onde os jurados decidirão se as ações desta mãe foram consequência de um problema de saúde mental ou resultado da mente perversa de uma assassina. O julgamento de género, no entanto, tem tudo para continuar durante décadas.

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