Os “não sapatos” da Chanel estão a deixar a internet confusa - e nós não podíamos estar mais obcecadas com eles

Na sua primeira coleção cruise para a Chanel, Matthieu Blazy deu um pequeno grande passo numa nova leitura da moda.

Chanel apresenta "não sapatos" e bolsa vermelha na coleção cruise Foto: Getty Images
29 de abril de 2026 às 17:10 Safiya Ayoob

Não conseguimos parar de pensar no calçado que Matthieu Blazy apresentou na sua primeira coleção cruise para a Chanel. Não tanto por aquilo que é, mas pelo que parece não ser. O cenário? Biarritz - não um acaso, mas um regresso simbólico ao lugar onde Gabrielle Chanel abriu um dos seus primeiros espaços de alta-costura e começou a redefinir o que significava vestir uma mulher.

Quando , em dezembro de 2024, as expectativas eram inevitavelmente elevadas. Vinha de um percurso sólido na Bottega Veneta e trazia consigo uma reputação de precisão técnica aliada a uma sensibilidade cultural rara. Três coleções depois, a narrativa parece confirmar-se: até Anna Wintour já o apontou, em entrevista à Vogue norte-americana, como um potencial herdeiro do legado de Karl Lagerfeld, sublinhando a sua "vitalidade e consciência cultural". Mais do que comparação, é um reconhecimento de equilíbrio - entre tradição e reinvenção - que sempre foi o verdadeiro teste dentro da Chanel.

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Modelo desfila com vestido de lantejoulas e "não sapatos" da Chanel Foto: Copyright CHANEL
Chanel apresenta nova leitura de calçado na coleção cruise Foto: Getty Images

E influência é algo que Blazy já começou a consolidar. Quando , chegou às lojas em março, instalou-se uma espécie de "Chanelmania". O desejo não era apenas aspiracional - era urgente. Um novo público aproximou-se da marca: menos herdeiro, mais acumulador paciente; menos estabelecido, mais aspiracional.

E, como quase sempre acontece, foram os acessórios a liderar essa aproximação. Carteiras incluídas, claro - lindíssimas, mas inacessíveis para muitos -, mas foram sobretudo os sapatos que dominaram a conversa. Das ballerinas icónicas reinventadas às mules com pontas contrastantes, havia um novo léxico visual a circular nas redes sociais. Blazy percebeu algo essencial: hoje, a porta de entrada para o luxo raramente é total - é fragmentada, estratégica, muitas vezes começando pelos acessórios.

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Chanel apresenta coleção com "não sapatos" e nova visão do calçado, por Blazy Foto: Copyright CHANEL

Nesta coleção cruise, regressa às origens, mas fá-lo de forma inesperada. Em vez de revisitar códigos de forma literal, propõe quase uma ausência: os “não sapatos”. Em Biarritz, longe da rigidez parisiense, essa escolha ganha contexto. Foi precisamente aqui que Chanel introduziu o jersey, o linho e o algodão no guarda-roupa feminino, libertando o corpo de estruturas rígidas e propondo uma elegância funcional, adaptável, viva. Dinamismo, liberdade de movimentos, simplicidade: os pilares da maison nasceram dessa ruptura.

Chanel propõe nova leitura do calçado com os seus "não sapatos", por Matthieu Blazy Foto: Getty Images

Blazy parece ter absorvido essa herança, mas traduzi-la para 2026 implica distorção. As sandálias apresentadas reduzem o conceito de calçado ao mínimo: tiras finíssimas enroladas no tornozelo, uma sugestão de estrutura no calcanhar, e pouco mais. Em dourado ou prateado, quase desaparecem na pele; em preto, ganham uma leitura mais gráfica. São, como descreveu Joelle Diderich, à WWD,  "pouco mais do que uma biqueira". E, ainda assim, funcionam. Não são bem sandálias, não são ausência total - existem num território ambíguo que continua, curiosamente, a dialogar com os códigos da Chanel.

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Chanel apresenta "não sapatos" na coleção cruise de Matthieu Blazy Foto: Copyright CHANEL

Talvez seja essa a sua maior inteligência: na aparente bizarria, há continuidade. O clássico sapato bicolor não desaparece - transforma-se. A segunda cor deixa de ser material e passa a ser pele. É um gesto conceptual simples, mas eficaz.

E depois há a dimensão quase histórica: durante séculos, o vestuário das elites foi pensado para sinalizar inutilidade prática - uma forma subtil de afirmar estatuto. Estes "não sapatos" parecem tocar nesse mesmo nervo. São desejáveis, virais, discutíveis, como também profundamente impráticos. Não são feitos para andar -  são feitos para significar. E na moda, isso continua a ser a forma mais poderosa de dar um passo em frente.

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