Lídia Franco fala sobre sexualidade e recorda as restrições antes do 25 de Abril: "A história repete-se"
Atriz, bailarina e uma das figuras mais marcantes da interpretação portuguesa, conversa com a Máxima sobre o que significa pertencer a uma geração que aprendeu a viver a sexualidade entre silêncios, conquistas e direitos que hoje voltam a parecer ameaçados.
A sexualidade vive, antes de tudo, no corpo - da forma como o descobrimos, o disciplinamos, o oferecemos ao olhar dos outros e aprendemos, com o tempo, a reclamá-lo como nosso. Lídia Franco conhece esse território de forma visceral. Antes de se tornar uma das grandes referências do teatro e do cinema portugueses, foi bailarina, fazendo do corpo a sua primeira linguagem e, mais tarde, da palavra e da interpretação uma vida. Com uma carreira que atravessa mais de cinco décadas, viveu num Portugal fechado sobre si próprio, partiu antes do 25 de Abril em busca do espaço e da liberdade que aqui lhe faltavam e regressou para construir, palco a palco, um percurso marcado pela inquietação, pela resistência e por uma permanente vontade de continuar.
À conversa com Rosário Mello e Castro, diretora da Máxima, Lídia traz a memória e a lucidez de uma geração para quem o desejo feminino raramente tinha voz pública e a intimidade permanecia protegida por silêncios, convenções e culpas. Fala sobre o amor, o sexo e a passagem do tempo com a liberdade de quem viu o país e as mulheres transformarem-se. Entre as mudanças que testemunhou, os preconceitos que persistem e os sinais de um inquietante retrocesso, oferece um olhar frontal, desassombrado e profundamente humano sobre aquilo que ganhámos, aquilo que ainda nos falta conquistar e tudo o que continuamos a evitar dizer em voz alta.
Começámos aqui por esta ideia de liberdade. Continuamos a ter medo de uma mulher que sabe o que é que quer em relação ao sexo e que tem essa informação?
Uma altura em que isso começou através da arte no período do surrealismo, por exemplo. Em que realmente correspondeu, através das obras de arte que surgiram na pintura ou na escultura, com a mulher querer deixar de ser a musa do homem, não é? E ter o seu prazer.
Daí a necessidade da liberdade e de também de falarmos com o outro ou com outra, não é? Nós estamos livres com uma pessoa que amamos e o sexo é uma continuação de todo esse amor.
Também existe aqui um certo retrocesso do que é que deve ser o papel da mulher e o papel do homem. E a Lídia deve ter vivido isso na pele, porque antes do 25 de Abril nem sequer podia sair do país sem pedir autorização. Sente que agora voltou a haver esses comportamentos, consegue observar isso?
Exatamente. A minha mãe, casada com o meu pai, não poderia nem sequer ir a Espanha comprar caramelos, sem ter autorização do marido. [As pessoas] não imaginam, mas é importante que saibam porque a história repete-se e neste momento as coisas estão mesmo a retroceder e a retroceder mal.
Como é que olha para este retrocesso?
Os homens estão se calhar agora ainda mais confusos do que é ser homem. Daí os problemas enormes que há, da hipermasculinidade [, da manosfera]. Mas há coisas que não mudam assim tanto, porque, por exemplo, falando do assédio, que é evidente que sempre houve, há e continua a haver, mas não é só da parte dos homens para as mulheres. É também na parte das mulheres para os homens. Não sei se isso é conhecido, assim, pela maior parte das pessoas, mas é absolutamente verdade.
Lídia, lembra-se de ter amigas ou se aconteceu consigo situações destas, ou seja, de ficarem presas a casamentos muito insatisfatórias por causa do dinheiro?
Sim e depois também era normal, às vezes, nesses tempos, as mulheres admitirem que o marido tivesse uma amante. Era da maneira que as chateavam menos e elas compensavam, se calhar, com uma boa lida da casa.
Então, só para terminar, em relação ao sexo em si, o que é que mudavam na sociedade que temos hoje?
Tem de ser bom para os dois e para isso tem de haver realmente a grande ligação e comunicação. Atualmente, é uma das coisas que mais falta faz em todo o mundo. É a falta de empatia, de ligação com o outro. Estamos todos cada vez mais isolados. A pornografia, eu acho, leva justamente à solidão.
Créditos:
Fotografia: Ricardo Santos
Styling: Cláudia Barros
Maquilhagem: Alex Origuella
Cabelos: Madalena Costa para Griffehairstyle
Set Design: Joaquim Szkutnik da Rocha
Vídeo: GCI Media e Cris Andrade
Capa Digital: Sebastião Vences
Assistente de fotografia: Ricardo Gomes
Assistente de Styling: Tita Mendes
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