"No sexo heterossexual várias coisas prejudicam o prazer da mulher, como ser altamente centrado na penetração"
Psicóloga clínica, sexóloga e uma das vozes mais relevantes na conversa sobre intimidade e relações, Tânia Graça fala sobre o que ainda nos falta compreender numa sociedade que fala cada vez mais de sexo, mas nem sempre sabe escutar o corpo, o prazer e o outro.
A sexualidade começa no corpo, mas nunca termina nele. É atravessada pela educação que recebemos, pelas relações que construímos, pelas imagens que consumimos e pelas expectativas que aprendemos a cumprir - tantas vezes antes mesmo de sabermos aquilo que verdadeiramente desejamos. Tânia Graça conhece bem esse território. Psicóloga clínica e sexóloga, tem dedicado o seu percurso ao estudo das relações, da intimidade e do empoderamento sexual e relacional das mulheres, aproximando o conhecimento clínico das inquietações reais de quem a procura. No consultório, como também no espaço público, transforma dúvidas muitas vezes vividas em silêncio em conversas claras, acessíveis e livres de julgamento.
À conversa com a Máxima, traz o olhar de quem sabe que falar de sexo nunca é falar apenas de sexo: é falar de poder, desigualdade, vergonha, liberdade e da forma como homens e mulheres aprendem a relacionar-se. Entre o impacto da pornografia nas crianças, nos jovens e na construção da sexualidade masculina, os novos códigos do amor e os sinais de um inquietante retrocesso social, Tânia recusa respostas fáceis e moralismos apressados. Oferece, em vez disso, um olhar clínico sem ser distante, feminista sem deixar de ser inclusivo e profundamente atento às mudanças de uma sociedade que fala cada vez mais sobre sexualidade, mas que ainda está longe de saber escutá-la.
Começámos aqui por esta ideia de liberdade é uma das coisas que tu falas muito nas redes sociais e no teu trabalho. Uma das perguntas que mais te fazem é se determinado comportamento é normal. Isso significa que há muito desconhecimento ainda? Continuamos a ter medo de uma mulher que sabe o que é que quer em relação ao sexo e que tem essa informação?
Eu diria que mete medo a muitos homens sim. Porque se a nossa sociedade foi criada assente na ideia do homem como a classe dominante - e dominante, nomeadamente, em relação à mulher como sua submissa - quando há aqui uma emancipação e nós chegamos a um lugar em que temos mais liberdade, mais independência, e, portanto, até mais critérios, nós já não temos de nos relacionar com um homem para nos emanciparmos, para casar e para ser mãe. Já não são esses os únicos papéis.
Sim, não tens de ser financeiramente dependente.
Exatamente. [Os homens deixam de saber] como se posicionar perante esta nova realidade e esta nova interação. E por isso é que temos também muitos movimentos muito assustadores a crescerem no sentido do retrocesso.
A pressão para a beleza também influencia depois o comportamento sexual, como há um corpo de verão há um corpo para ter sexo.
Exatamente e há muita evidência científica já nesse sentido, que a autoestima está muito relacionada com os nossos níveis de desejo sexual e capacidade de sentir prazer durante a relação sexual. Por isso, sim.
Queria só acrescentar uma coisa em relação a esta geração ter menos relações sexuais - há aqui outras camadas. Por exemplo, comparativamente aos nossos pais, na nossa idade, que já eram casados e estavam nas suas casas. Nós, a grande maioria, não temos essa liberdade também para viver a sexualidade tão à vontade no nosso espaço.
Em relação ao caso dos telemóveis e dos estarmos conectados de outra forma - isto é muito verdade, porque as relações e o sexo implicam um alto nível de vulnerabilidade. E nós, através dos telemóveis, sentimos que estamos em relação, mas protegidos. A rejeição, por exemplo, de abordar-se a alguém e a pessoa dizer “não estou interessada”, é muito mais tranquilo de receber num chat. Então ficamos muito mais ali do que nos pomos no mundo. Ora, não se faz sexo através do telemóvel, ou faz-se, mas só que não envolve, são outros tipos.
É uma questão de poder e de equilíbrio. Se os homens continuam a ter a maior parte dos empregos mais poderosos e as mulheres não. Tânia, continuando neste tema da masculinidade tóxica, desse regresso ao conservadorismo, como é que isto influência depois o comportamento sexual, tanto de homens como de mulheres?
Isto para já assusta-me imenso. É importante dizer isto: masculinidade tóxica não significa que ser masculino é tóxico. O que é tóxico são as características que são incentivadas a meninos, a rapazes e aos homens para se provarem enquanto homens. Isso é que é tóxico.
São coisas como: não poder expressar nenhuma emoção, além da raiva, porque essa é a única que é máscula. Terem domínio sobre as mulheres. Terem desprezo por determinados grupos de pessoas, das mulheres, homossexuais... Isto é preocupante porque aumenta os níveis de violência. Voltámos a dinâmicas muito perigosas, nomeadamente para as mulheres que se relacionam com homens, e claro que afeta a nível sexual também, porque esta masculinidade tóxica que fala sobre o domínio e sobre a mulher não tem em conta o prazer da mulher. “Isto é sobre mim, isto é sobre o meu prazer”, que era isto que acontecia também lá atrás.
Aliás, as mulheres até eram ensinadas que o sexo não é uma coisa para elas, eles é que gostam e tu sedes. É o débito conjugal.
Então no que toca à sexualidade, se calhar o primeiro passo é conhecermos o nosso corpo, e Tânia tu falas muito sobre isso. Tens aquela frase sobre “conheçam as vossas vulvas”. Continuas a achar que não existe muito conhecimento, sobretudo das mulheres, do seu próprio corpo e isso afeta a vida sexual e também causa aquele chamado orgasm gap - quando as mulheres têm muito menos orgasmos do que os homens?
Aquilo que os estudos dizem é que, tendencialmente, os homens têm orgasmo em 95% das suas relações sexuais, comparativamente a mulheres heterossexuais em apenas 65%. E nós olhamos para estes números e pensaríamos, realmente as mulheres têm muito mais dificuldade, eles 95%, nós 65%. Só que quando vamos ver os números das mulheres lésbicas, por exemplo, sobe para 86%.
A questão é que há várias coisas que no sexo heterossexual prejudicam o prazer da mulher, nomeadamente ser altamente centrada na penetração. Quando a grande maioria das mulheres, que têm uma vulva, têm orgasmo através da estimulação do clitóris.
E ainda a tua questão sobre o autoconhecimento, é super importante porque há mulheres que passam uma vida toda sem nunca terem posto um espelhinho para ver o que é que ali está, nunca se tocaram. Não sabem, acham que não é para si, muito coladas ao arquétipo da Virgem Maria. E quando nós não conhecemos o nosso corpo, vamos com menos confiança para a relação sexual e não vamos saber nem o que fazer a nós, nem orientar a outra pessoa sobre o que é que gostamos.
Há aquela ideia de que as mulheres não devem saber o que querem, não devem dizer o que querem. Há outra questão que afeta o sexo de uma forma indireta, que é o facto de as mulheres continuarem a fazer mais trabalho em casa, mais cuidado com os filhos, entre outros. Como é que se navega isto numa altura como esta?
Há números para mostrarmos estas coisas todas: não só que as mulheres, no caso em Portugal, continuam a fazer três vezes mais tarefas domésticas e parentais, como o facto de esta sobrecarga afetar o desejo sexual.
Afeta porque há uma sensação de injustiça - "estou a trabalhar para ti, sou tua empregada” - e afeta porque não há nada menos sexy do que ver um marido como um filho. É isso que acontece quando nós damos conta de tudo em casa e com os filhos. Há aquela frase que diz, “o filho que dá mais trabalho é o filho da sogra”, convém que não seja, porque senão o desejo sexual vai para aí abaixo.
Isto é uma frase que se diz muito, que é, a mãe é que é culpada. Mas ele não tinha um pai? “Não, o pai não estava”, mas pela ausência também se ensina. A ausência também é exemplo de bom ou de mau. Porque esta responsabilização das mães, como, “porque o menino agora não faz nada em casa é porque é culpa da mãe”. Não, se o pai não fazia nada em casa e deu esse exemplo, ou desapareceu, ele também [tem a culpa].
Mas é que parece que isto não está a mudar com as novas gerações, não é? Está a ficar na mesma ou a piorar?
Pode fazer esta escolha como é óbvio, com a consciência de que se a fizer e se abdicar inteiramente da sua vida profissional, sem um acordo que a assegure financeiramente, ela está presa a essa relação.
A dependência financeira é uma coisa muito importante, porque se o casal decide esta divisão em que a mulher cuida do espaço privado e o homem está num espaço público, como é que ela é assegurada? Ela ganha um valor mensal? Porque senão está só a trabalhar de graça. Porque esta ideia de que o cuidado aos filhos e à casa é uma coisa que é posta no saquinho do instinto materno e de sermos muito boazinhas, isto é trabalho. Porque se formos a pensar, esse homem só pôde ascender e ganhar mais porque alguém assegurou gratuitamente. Deixo só esta ressalva para que não se percam e depois não possam sair de relações insatisfatórias ou até abusivas.
Então, só para terminar, em relação ao sexo em si, o que é que mudavam na sociedade que temos hoje?
Eu acho que, sendo que isto não está totalmente alcançado, é o prazer da mulher na relação sexual estar em pé de igualdade. No sentido de os dois são importantes. Os dois prazeres - o orgasmo de cada um, o prazer cada um - não é: “este é obrigatório” e “este é facultativo”. É isso que muitas vezes acontece e muitas mulheres assumem que se ele já terminou então já acabou.
O nosso prazer é igualmente importante e eu acho que em algum lugar da nossa cabeça ainda existe a ideia que não é e que podemos abdicar. Eu acho que não devemos abdicar.
A pornografia continua a ser a forma como a maior parte dos rapazes aprendem sobre sexo.
Por isso é que a educação sexual é essencial. Já percebemos que, em princípio, a pornografia não vai ser eliminada, portanto, sabendo nós que se mais cedo ou mais tarde terão contacto com o importante é educar para que percebam que aquilo que vão ver não é uma representação real de sexo. Pelo contrário, muitas vezes é uma representação problemática, em que uma pessoa é objetificada, em que o prazer é só de um lado, em que a figura que é vista como feminina - seja uma mulher cis ou trans, seja um homem homossexual - vai ser sempre, tendencialmente, violentada de alguma forma. Educar nesse sentido é muito importante, para o consentimento, para os limites.
Por isso é que há tanto medo da educação sexual, porque isso vai tornar-nos mais livres?
Acho que há pessoas que têm receio porque não sabem bem o que é que significa nem sexualidade - acham que é sexo -, nem educação sexual. Acham que vai ser um incentivo ao início precoce da vida sexual. Isto não é verdade. Todos os estudos mostram que crianças e jovens que têm acesso a informação iniciam mais tarde a sua vida sexual e com informação sobre consentimento, sobre limites, respeito pela diversidade sexual, orientações sexuais e identidades de género.
Créditos:
Fotografia: Ricardo Santos
Styling: Cláudia Barros
Maquilhagem: Alex Origuella
Cabelos: Madalena Costa para Griffehairstyle
Set Design: Joaquim Szkutnik da Rocha
Vídeo: GCI Media e Cris Andrade
Capa Digital: Sebastião Vences
Assistente de fotografia: Ricardo Gomes
Assistente de Styling: Tita Mendes
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