Espera… o que é isto? Um dos 20 momentos mais inesperados das Fashion Weeks 2026
Se esteve demasiado ocupado para acompanhar as semandas de moda, este é o guia de sobrevivência para uma fashionista em apuros.
Semana de moda: Modelo com visual peculiar e maquilhagem elaborada
Foto: Getty Images12 de março de 2026 às 18:36 Safiya Ayoob
Duas vezes por ano - sem contar com as semanas dedicadas à moda masculina e à alta-costura - editores, compradores e algumas das figuras mais influentes da indústria da moda reúnem-se em quatro cidades distintas, ao longo de várias semanas, para descobrir as propostas que as grandes casas e os designers emergentes têm a apresentar para a estação outono/inverno 2026. É neste circuito global que começamos a perceber quais serão as tendências que irão dominar o nosso inverno. É também o momento em que cada marca tenta destacar-se, criando imagens e instantes que perduram muito para além do próprio desfile - momentos que rapidamente se tornam virais nas redes sociais e entram para a memória coletiva da moda. Basta recordar o momento em que a modelo Awar Odhiang fechou o desfile de estreia de Matthieu Blazy para a coleção primavera/verão 2026 e, ao final da passerelle, o abraçou com um sorriso que conquistou a internet. No fundo, é exatamente isso que cada marca procura alcançar em cada apresentação: criar um momento irrepetível, algo que fique gravado na memória de quem assiste.
Modelo apresenta visual vibrante na Semana de Moda de Paris
Foto: Getty Images
PUB
Quatro cidades, dois continentes - e tudo começa na Big Apple. Não podemos falar da Semana de Moda de Nova Iorque sem mencionar o nome de Rachel Scott. A jovem designer, que assumiu o lugar de Jack McCollough e Lazaro Hernandez na Proenza Schouler - depois de ambos partirem para a Loewe - teve uma das estreias mais aguardadas da temporada. A coleção manteve algumas das linhas que definiram a identidade da etiqueta ao longo dos anos, como trouxe também um novo olhar, mais pessoal e subtilmente subversivo. Um dos elementos mais interessantes foi precisamente a forma como Scott abraçou a imperfeição. Em entrevista à Wallpaper, a criadora explicou que era fundamental para si "respeitar o legado da Proenza Schouler, que é esse amor muito forte pela mulher nova-iorquina". E acrescentou: "Queria encontrar uma maneira de me aproximar dela, de lhe dar mais complexidade e textura - ela pode ser erótica, pode ser raivosa. Às vezes, ela não é tão perfeita assim." Este foi apenas um dos dois grandes sucessos de Scott nesta semana. O segundo chegou com a sua própria marca, Diotima, com a qual encerrou a semana nova-iorquina através de uma coleção que incluiu uma colaboração com o espólio de Wifredo Lam, o pintor afro-chinês-cubano do século XX, trazendo para a passerelle referências artísticas e culturais inesperadas.
Desfile de moda em Londres apresenta vestido estampado com detalhes únicos
Foto: Getty Images
Nova Iorque também foi palco do regresso de Calvin Klein ao centro da conversa. A marca tem registado um aumento significativo de interesse, em parte impulsionado pela série Love Story: John F. Kennedy Jr. & Carolyn Bessette. A diretora criativa Veronica Leoni inspirou-se no final dos anos 70 e início dos anos 80 para construir a coleção outono/inverno 2026, apostando numa silhueta que procurava acentuar o corpo feminino. Como escreveu Véronique Hyland num artigo da Elle, a designer explorou "o culto ao corpo e a satisfação que vem de acentuar a sua perfeição".
Outro momento marcante desta semana pertenceu a uma etiqueta cujo legado dispensa apresentações: Ralph Lauren. Foi impossível não emocionar com os vídeos do designer norte-americano, ao lado da mulher, despedindo-se do público no final do desfile. Um gesto simples, mas carregado de significado - afinal, falamos de um homem que passou mais de seis décadas a construir um imaginário de elegância para aquilo que, nos seus olhos, representa a mulher contemporânea.
PUB
Desfile de moda com modelo em fato e lenço com padrão animal
Foto: Getty Images
Se Nova Iorque marca o início do calendário, Londres é frequentemente vista como o seu irmão mais irreverente. Afinal, foi nesta cidade que o espírito grunge encontrou uma das suas primeiras expressões na moda. E falar de moda em Londres é inevitavelmente falar de Burberry. Daniel Lee, diretor criativo da casa britânica, descreveu esta nova coleção como "mais elegante, mais chique, mais sensual". A marca tem enfrentado alguns desafios num mercado de luxo cada vez mais competitivo e em constante transformação. Por isso mesmo, vê-la encontrar novamente uma direção clara - abraçando o facto de ser, acima de tudo, uma marca de outerwear - foi recebido com entusiasmo.
Modelo desfila em Nova Iorque com visual de camisa e saia plissada em couro
Foto: Getty Images
Outro nome que dominou as conversas nas redes sociais foi Simone Rocha. A designer apresentou não só a coleção outono 2026, como também uma colaboração com a Adidas, onde a delicadeza e a feminilidade características do seu trabalho se cruzaram com o universo desportivo da marca alemã. Segundo a W Magazine, a coleção foi inspirada "na terra mitológica irlandesa da juventude eterna, Tír na nÓg, juntamente com o livro de fotografia Pony Kids, de Perry Ogden, publicado em 1999".
PUB
Desfile em Paris apresenta vestido bordado e casaco com fitas
Foto: Getty Images
Londres também celebrou um marco importante: os 20 anos da marca Erdem, algo cada vez mais raro para uma etiqueta independente. Erdem Moralioglu sempre demonstrou um fascínio particular pelas mulheres e pelas suas histórias. As suas coleções são conhecidas pela riqueza de referências, muitas vezes inspiradas em figuras femininas notáveis - mulheres que foram ignoradas no seu tempo ou discretamente radicais nas suas escolhas de vida e de estilo.
Modelos desfilam criações de moda em Paris
Foto: Getty Images
Debut, debut, debut. É assim que se podem resumir muitos dos momentos-chave da Semana de Moda de Milão.
PUB
Voltámos a ver uma coleção assinada por Maria Grazia Chiuri para a Fendi, casa à qual regressa depois de vários anos e onde, de certa forma, começou a carreira. A receção foi, como muitas vezes acontece nestas ocasiões, dividida. Por um lado, foi impossível ignorar os acessórios do desfile - em particular a icónica Fendi Baguette, reinterpretada com padrões animais, alças mais compridas e aplicações de lantejoulas. Por outro, muitos comentários apontaram semelhanças entre esta coleção de estreia e algumas das propostas que Chiuri apresentou durante o tempo como diretora criativa da Dior. Ainda assim, levanta-se uma questão pertinente: teriam sido feitos os mesmos comentários se estivéssemos a falar de um diretor criativo masculino? Maria Grazia Chiuri continua a ser uma das poucas mulheres à frente de uma grande casa de moda, e talvez seja justo conceder-lhe mais do que uma coleção antes de se traçarem conclusões definitivas.
Bolsa com padrão zebra e detalhes em vermelho exibida na semana de moda
Foto: Getty Images
Continuando no capítulo das estreias - algo que tem marcado fortemente as últimas temporadas - foi também a vez de Demna mostrar o que consegue fazer com um legado tão poderoso como o da Gucci. Depois da sua estreia conceptual na temporada passada, revelada através de um filme apresentado a um público repleto de celebridades vestidas com looks inéditos, as expectativas estavam naturalmente elevadas.
Assim que o desfile terminou, os comentários multiplicaram-se. “Faz-me lembrar a Gucci de Tom Ford.” “É Balenciaga com outro nome.” A receção foi intensa e polarizada - algo que, na verdade, parece perfeitamente alinhado com a forma como Demna sempre trabalhou. Criar reação, provocar discussão, gerar impacto. Basta olhar para o seu percurso para perceber que esse sempre foi o seu método. Um dos momentos mais comentados do desfile foi, curiosamente, fora da passerelle: Alessandro Michele sentado na primeira fila, ao lado de Donatella Versace, a assistir à nova era da casa que ele próprio reinventou durante quase uma década.
PUB
Um casal com visuais distintos marca presença num evento de moda em Milão
Foto: Getty Images
Houve muito mais para ver em Milão, mas seria impossível terminar sem mencionar o desfile da Prada. Quinze modelos, quatro looks cada. Uma ode às camadas e à construção do vestir. Miuccia Prada e Raf Simons voltaram a demonstrar porque é que a marca continua constantemente no centro da conversa - e no topo das pesquisas.
Modelo na passerelle durante a semana da moda em Paris
Foto: Getty Images
A viagem da moda termina, como sempre, em Paris. Em Dior, Jonathan Anderson continua a surpreender. O designer tem vindo a construir uma narrativa cada vez mais própria dentro da casa francesa, equilibrando o peso do legado histórico da marca com uma abordagem contemporânea e conceptual. Nesta coleção, o foco esteve na silhueta e na construção das peças, com volumes inesperados e um diálogo constante entre tradição e experimentação.
PUB
Na Saint Laurent, Anthony Vaccarello manteve a estética que tem definido a casa nos últimos anos: sensualidade afiada, alfaiataria precisa e uma mulher que ocupa o espaço com confiança. Ombros marcados, vestidos fluidos e uma paleta dominada por negros profundos e tons metálicos criaram um desfile de grande impacto visual. Não nos podemos esquecer das imagens do desfile que a Outlander publicou no Instagram, que um fotógrafo tirou de fora do evento.
Desfile de moda em Paris apresenta modelo com visual único e elegante
Foto: Getty Images
Chanel apresentou mais uma coleção profundamente enraizada no seu ADN. O tweed - inevitável - apareceu reinterpretado em diferentes proporções e texturas, enquanto os detalhes de pérolas e laços reforçaram a identidade romântica da casa. De acordo com a maison, as cinturas baixaram e as texturas ganharam palco. Na Givenchy, a direção criativa de Sarah Burton continua a explorar uma elegância moderna e depurada, combinando alfaiataria estruturada com elementos mais experimentais. O resultado foi uma coleção que equilibra sofisticação e contemporaneidade.
Desfile com modelo em vestido estampado e óculos escuros durante a Semana da Moda de Paris
Foto: Getty Images
Schiaparelli voltou a provar porque é uma das casas mais fascinantes da atualidade. As propostas mantiveram o surrealismo característico que Daniel Roseberry tem vindo a contruir, com detalhes escultóricos, botões dourados dramáticos e silhuetas que parecem quase peças de arte. A Chloé de Chemena Kamali continuou a explorar uma feminilidade suave e boémia, com tecidos fluidos e uma paleta natural que reforça a identidade leve e romântica da casa. Stella McCartney manteve o compromisso com uma moda consciente, sem abdicar de uma estética sofisticada e contemporânea - provando, mais uma vez, que sustentabilidade e desejo podem coexistir na mesma passerelle. Um momento alto do desfile foi sem dúvida ver o pai - Paul McCartney - com uma câmara a tirar fotos ou até a filmar o desfile da filha.
Desfile em Paris apresenta vestido xadrez e acessórios marcantes
Foto: Getty Images
Mas Paris não vive apenas das grandes Casas. Entre os desfiles mais comentados desta temporada esteve também o da etiqueta independente Matières Fécales. Fundada pelo duo Hannah Rose Dalton e Steven Raj Bhaskaran, a marca apresentou uma coleção intitulada The One Percent, uma crítica teatral e provocadora ao poder do dinheiro e às estruturas sociais que orbitam o universo do luxo. O desfile, apresentado no Palais Brongniart - antigo edifício da bolsa de valores de Paris -, funcionou quase como uma alegoria da elite contemporânea. Modelos surgiam com máscaras de notas de dólar, luvas de ópera manchadas de vermelho e próteses dramáticas que transformavam os rostos em caricaturas grotescas do privilégio.
Matières Fécales
Foto: Getty Images
Por fim, temos Alaïa. Pieter Mulier, despediu-se com um bang, antes da sua partida para a Versace. O desfile voltou a mostrar a atenção obsessiva ao corte e à forma voltou a ser evidente. Cada peça parecia esculpida diretamente no corpo, reafirmando a reputação da etiqueta como uma das grandes mestras da construção da silhueta feminina. A despedida do designer belga de uma marca que comandou por cinco anos contou com uma ovação por parte dos grandes da moda - falamos de Anna Wintour, Mattieu Blazy e Raf Simons.
Alaïa
Foto: Getty Images
Depois de quatro cidades, dezenas de desfiles e incontáveis momentos memoráveis, uma coisa torna-se clara: mais do que tendências, estas semanas de moda continuam a ser sobre narrativa, identidade e visão. Porque, no final, aquilo que realmente permanece não são apenas as roupas - são as histórias que elas contam.
Aos poucos, as t-shirts antigas começam a desaparecer das gavetas. No lugar surgem pijamas coordenados - de seda, algodão ou até com penas - que tratam o vestir em casa com a mesma atenção que antes era reservada à rua.
Num mercado saturado de colaborações, a união entre a Veja e a Magliano lembra-nos que ainda é possível surpreender - quando para lá da forma há conteúdo.