Moda

Tudo por um vestido de lantejoulas

As peças mais extravagantes sobrepõem-se à discrição do cinzento e do preto numa demanda por brilho e glamour, nesta altura do ano. Mas será que a roupa de festa tem (mesmo) de ser uma luta impossível entre aquilo de que gostamos e o que manda o dress code?
Por Maria Wallis, 06.11.2019

Lisboa, Novembro. O calendário sugere uma aproximação voraz à quadra festiva e nesta avenida, uma das mais populares da cidade, sente-se a antecâmara das grandes celebrações: as luzes de Natal estão montadas, o trânsito está caótico (apesar de ser quarta-feira à noite), as pessoas passeiam, descontraídas, alheias à chuva e ao vento. E, no entanto, apesar de todos estes indicadores nos sussurrarem que estamos em vésperas do mês mais brilhante do ano, só quando chegamos ao último piso de um dos hotéis daquela artéria é que nos apercebemos que o clima de festa está, definitivamente, instalado. Por detrás das cortinas de veludo que dão acesso ao restaurante com vista panorâmica para a cidade, a atmosfera é electrizante. Entre os pequenos grupos que se juntam ao balcão, a meia-luz que dá o tom ao espaço e os pratos que "voam" de mesa em mesa, vai-se compondo uma best dressed list imaginária que não recusamos fazer: apesar da calçada amarga e da meteorologia adversa, as senhoras estão de stilettos - daqueles que ainda nos fazem acreditar na elegância descomprometida de um cruzar de pernas; as grandes camisas de laçada sucedem-se, mas agora num tom metalizado que se suspeita combinar com a discrição das calças pretas, de cintura ultra-subida; há um número incontável de little black dresses, normalmente abaixo do joelho, que se conjugam com blazers de corte masculino e carteiras mini. Qualquer semelhança entre o cenário actual e os banquetes que se avizinham nas últimas semanas de Dezembro não é pura coincidência.

Se dúvidas houvesse, elas são anuladas por uma rápida busca pelos principais sites de e-commerce femininos. Depois de, nos últimos meses, ter apostado numa série de editoriais sobre lantejoulas, cetins and all that jazz, o site Net-a-Porter criou uma secção especificamente dedicada à roupa de festa, "What to wear for party season" (literalmente, o que vestir na quadra festiva), com uma selecção de mais de 1.700 peças. Os vestidos ultra-luminosos da inglesa Galvan competem com as saias e os tops da dinamarquesa Ganni, marca de culto de influencers e de editoras de moda. Para as carteiras mais extravagantes, há obras de arte vermelho-sangue de Giambattista Valli e de Oscar de la Renta, mini-vestidos em pele Alexandre Vauthier, blusas em chiffon Saint Laurent e calças de seda Bottega Veneta. No gigante site alemão Mytheresa há uma "holiday shop" onde nos podemos perder em noites de insónia: dividida em oito segmentos, guia-nos nas melhores escolhas de "evening bags", "party looks" ou "standout shoes". E se alguma de nós achasse, por momentos, que os sapatos são o menos importante porque, como garantem várias amigas em noite de negação, "Ninguém olha para os pés", as perto de 400 opções desta loja de luxo virtual indicam-nos que esta é a altura certa para arriscar ? há pumps vertiginosos Gianvito Rossi, sandálias Jimmy Choo que se confundem com poeira das estrelas, mules em renda Malone Souliers que pedem o regresso das alcatifas, botins em glitter Miu Miu que realizam os nossos sonhos de criança. A cena repete-se no site Matches Fashion, onde é de realçar a importância dada aos "evening jackets", essa subespécie de casaco formal que resolve (quase) todos os problemas de um dress code ? blazers de veludo, smokings, kaftans, longas capas com brocados e aplicações… E se o orçamento não está para grandes viagens, e nunca está, a Zara, que nas últimas décadas destronou os diamantes como melhor amiga das mulheres, tem as soluções mais apetecíveis para qualquer jantar de Natal ou festa de passagem de ano. Dos sobretudos em pêlo sintético que replicam as peles verdadeiras com muito mais "pinta" e consideração (e que se descobrem tanto nas filas do Lux como nos cadeirões do JNcQUOI) às calças boca-de-sino com lantejoulas (uma ideia que Michael Halpern impôs na London Fashion Week e que se vê um pouco por todo o lado) e aos vestidos metalizados, a Zara é uma fábrica de sonhos ao nosso dispor, aberta 24/24 horas. 

E quando os compromissos se parecem sobrepor aos dias? "É tudo uma questão de bom senso", tentei atirar para uma amiga que nem de propósito tinha um casamento daí a uns dias. "Sabes-me dizer o que é que se veste com um frio destes? Pomos collants? E quem é que usa agora as sandálias de tiras da praxe?", resmungava. Não sabia. Espreitámos alguns perfis de Instagram que nunca falham, fizemos contas ao bom senso, observámos com atenção o armário das causas perdidas e no final considerámos que o melhor era um vestido de veludo estampado com cores outonais. "É por coisas destas que às vezes prefiro não ir." Eis o mantra repetido uma e outra vez por centenas de mulheres um pouco por todo o mundo. "Não tenho nada para vestir" é o sintoma mais claro de uma doença que junta stress, cabelo por cortar/pintar, mãos e pés por arranjar, maquilhadora profissional ao domicílio por marcar, tratamentos faciais por fazer (desde sempre), plano de emagrecimento de emergência por concluir (idem), aulas de yoga e meditação por começar, elevadas somas de cartão de crédito por pagar, demasiadas idas às compras por evitar. Em suma, um cocktail vertiginoso que só nós, mulheres, estamos habituadas a experimentar ? mesmo que sejam eles a trazer a bandeja. No fundo, a melhor preparação para o derradeiro mês do ano, esse que carrega as amarguras e as cicatrizes do passado e a esperança e a ilusão do futuro, seria a fuga para um Spa ou para uma ilha deserta, longe dos lançamentos especiais da Chanel (a palette de batons é maravilhosa) e da edição limitada do creme de corpo da Kiehl’s. Ou, em alternativa, uma assistente pessoal que enfrentasse connosco, para apoio moral, as filas infinitas no shopping, no supermercado, na lojinha da esquina. Para quê preocuparmo-nos com todos esses detalhes se as festas são, apenas, um rito de passagem? Porque são elas que nos lembram, de vez em quando, que é um privilégio estarmos vivos. E isso merece que trajemos a rigor.

No fundo, nem é preciso grande show off. Uma das coisas boas do século XXI foi ter simplificado a forma como brincamos com os acessórios. E como eles se tornaram o centro das atenções de um look de festa. Actualmente, um belo par de brincos pode fazer (toda) a diferença, principalmente se forem generosos em tamanho e luminosos em tom. A italiana Alessandra Rich tem os mais cobiçados do momento, mas todas as lojas de fast fashion fazem modelos de cortar a respiração. O mesmo serve para aqueles anéis gigantes que durante anos olhámos com desconfiança, os cocktail rings. Agora, quanto mais extravagantes, melhor ? e ainda vamos a tempo de pedir ao Pai Natal um exemplar de Alessandro Michelle para a Gucci. E o que dizer dos laços, ganchos e bandoletes que, de um momento para o outro, se tornaram indispensáveis em qualquer saída nocturna, um luxo necessário reinventado por Tom Ford e por Simone Rocha? Se nada disto a convence e quer ficar pela elegância descomprometida de um vestidinho preto, saiba que poucas coisas são tão certeiras como um batom vermelho. "Posso não saber o que vestir, mas sei que vou usar o meu Ruby Woo, da M.A.C. Nunca falha", confessava-me uma amiga a propósito destas questões de dress code festivo. É caso para pensar: o que é que resulta sempre ou quase sempre connosco? São os vestidos de lantejoulas, que se multiplicam em género e tamanho, transversais a todas as idades? São os fatos de duas peças em lã fria? São as calças largas de cetim, ultra-brilhantes? Ou será que, longe disso, há no nosso armário coisas que nos protegem do frio e, ao mesmo tempo, actuam como os nossos uniformes de glamour? Sim! Se nos afastarmos da poluição visual que nos rodeia, todas temos peças especiais que nos fazem sentir a nossa melhor versão de nós próprias ? pode ser algo tão simples como um little black dress que já usámos vezes sem conta.

Na noite em que eu completava 37 anos regressei à avenida mais badalada da cidade, agora ainda mais caótica, e perdi-me numa overdose de sapatos com tachas Valentino, mini-carteiras Chanel, vestidos ultra-justos Hervé Léger, bikers Balmain e um número para lá de normal de Louboutins, pretos e nude, normalmente compensados. No meio daquele frenesim fashion, os meus Mary Jane de verniz e as minhas calças de ganga pretas passavam totalmente despercebidos. Nem o meu blazer de veludo me faria sobressair naquela multidão. Foi aí que chegou a minha companheira de sempre, tão ou mais alheada que eu, num look que em tudo se assemelhava ao meu casual chic sem fins lucrativos. "De preto e iguais, como sempre!", rimos. "Somos uns aliens." Uns aliens cheios de personalidade. Boas festas.

 

 

Partilhar
Ver comentários
Últimas notícias
Vídeos recomendados
0 Comentários
Subscrever newsletter Receba diariamente no seu email as notícias que selecionamos para si!