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Nuno Baltazar: “Um desfile tem de ser um prazer, não pode ser uma obrigação de calendário”

Com Ensaio, Nuno Baltazar quis fazer experiências com um futuro que sempre foi o seu. À Máxima, explica porque esta foi a coleção para “assumir quem realmente sou”

Foto: ModaLisboa
10 de outubro de 2020 | Rosário Mello e Castro

Foi uma coleção de regressos para Nuno Baltazar – regresso à ModaLisboa, seis anos depois de ter saído do seu calendário, e aos desfiles, um ano e meio após ter deixado a passerelle do Portugal Fashion por já não se identificar com a estratégia da organização. Mas foi sobretudo um regresso ao entusiasmo dos começos, como nos explica Baltazar, o designer da elegância e da perfeição, que agora quer desmanchar os seus próprios clichés para chegar a quem realmente é enquanto criativo. A viagem, que começou com o curso de Design de Moda no Citex, em 1998, e que já conta com 33 coleções está, na verdade, apenas a começar.

Como é regressar às passerelles um ano e meio depois do último desfile no Portugal Fashion? Suponho que seja emocionante.

Foi, mas mais do que a emoção é a responsabilidade que sinto. Sente-se o peso daquela palavra assustadora, que é o "regresso", uma palavra pesada para quem tem a responsabilidade de estar a apresentar. Mas foi um momento tão feliz, com uma energia tão boa e rodeado de pessoas boas, uma equipa fantástica, ainda estou um bocado em êxtase.

Na altura, quando deixou o calendário do Portugal Fashion, explicou as suas razões. Porque decidiu voltar agora?

Durante o confinamento comecei a fazer algumas das peças que entraram no desfile, como um exercício, sem pensar que iria desenhar uma coleção, sem qualquer tipo de pressão e senti-me muito feliz a trabalhar daquela forma. Percebi a dada altura que funcionava muito bem aquilo que estava a fazer, percebi que tinha de mostrar o que tinha feito, sentia falta disso – dá-me prazer, estou feliz com isto. E achei que era o momento para mostrar, falei com a Eduarda [Abbondanza], que me recebeu muito bem e para mim fez sentido porque era verdade, não foi o processo ao contrário, isto é, não foi pensar em regressar e depois começar a fazer uma coleção. Comecei a fazer a coleção, aliás, nem era uma coleção, não tinha esse peso e os respetivos processos, nada foi feito da maneira habitual, de facto as coisas preencheram-me de uma maneira que eu já não me lembrava de sentir.

Foi bom estar longe desse ciclo de mostrar coleções sempre num determinado período de tempo?

Eu acho que nós temos de mostrar coleções quando são verdade, quando sentimos que de facto temos alguma coisa para dizer, não é mostrar porque se está no calendário, mostrar porque é obrigação, até porque a moda tem esse peso que é bastante mau, pelo menos para mim, essa obrigatoriedade. Primeiro, eu quis libertar-me disso, depois também não me revia naquilo que acontecia no Portugal Fashion, como já tornei público, e já há algum tempo que tinha começado a sentir cada vez menos prazer em fazer um desfile. E fazer um desfile sem prazer, não pode ser. Tem de ser um momento de colaboração. Não pode ser [uma obrigação] nem o momento da apresentação nem o momento da criação, e quando sentimos que a apresentação está tão condicionada, com tantos problemas começa-se a deixar de sentir prazer no próprio ato criativo e isso começa a influenciar de tal forma que começa a ser tudo pesado. O criador seja de que área for, tem de fazer aquilo que sente, com verdade, se não o público percebe, ou pelo menos não se conecta com o nosso trabalho.

O Nuno dizia numa entrevista recente ao Observador que pensou o seu trabalho mais enquanto autor e menos enquanto marca…

Eu tenho sempre que pensar na marca porque eu tenho uma loja e porque vivo do meu trabalho. Isto tem que estar presente, mas eu sentia que esse peso estava demasiado presente nas apresentações… E as apresentações não têm que ter um caráter comercial, pelo menos não quando se faz moda de autor. Moda de autor é uma assinatura, uma identidade, um conceito, uma ideia. Não temos de mostrar tudo o que vai estar na loja, e há tantas maneiras de o fazer. Aliás, durante este processo houve várias peças que eu tinha na coleção e decidi tirá-las exatamente por isso – senti que estava a resvalar para uma coisa que não é o que eu quero. O que eu quero é mostrar um conceito, mostrar uma história e mostrar o momento em que eu estou.

E foi preciso coragem para fazer isso?

Não sei se foi coragem ou se foi maturidade. Sempre fui muito autocrítico em relação ao meu trabalho e esta coleção começou exatamente por isso, porque olhei para algumas peças que eu tinha feito, e que não gostava e fui perceber porque é que não gostava – e percebi que uma das coisas que me fazia não gostar é a maturidade que sinto agora, enquanto criador. Então achei que fazia sentido refletir e perceber o que seria aquela peça, estruturada pelo Nuno de hoje. Portanto, algumas das peças que estavam nesta coleção são peças que têm 12 ou 13 anos, das quais eu não gostava e que encarei com essa perspectiva: "não, eu vou fazer disto uma coisa que me represente". E daí, parti para outras.

Acha que esta pandemia e este confinamento lhe trouxe essa humildade?

Eu acho que já tinha isso, acho é que me deu tempo. Eu já tinha essa autocrítica e essa sensação de que havia qualquer coisa que queria mudar, e achava que de alguma forma não estava desenvolver criativamente como eu queria porque eu pensava sempre – isto não vai vender, as pessoas não me vão entender. E não, acho que agora é uma questão mesmo de maturidade: eu quero fazer um desfile porque é a minha assinatura. Tudo aquilo que vier comercialmente, apresento de outra maneira, não num desfile. O desfile é o meu momento.

Esta coleção brinca muito com o seu ADN. Quis pôr em causa as suas certezas?

Eu tentei partir das certezas e dos erros. Ou seja, confirmar aquilo que sei fazer e depois corrigir aquilo que não fiz bem. Ou que pelo menos, aos meus olhos, aquilo que agora não é válido – naquela altura poderia ser, mas agora já não é. Há outras coisas no passado que eu fiz e continuo a achar que são bonitas, há outras que não e portanto foi sobre essas que eu me quis debruçar.

Também tinha vontade de se desafiar e fazer uma coisa diferente?

Acho que foi uma vontade de me assumir. De facto, nestes últimos anos, tenho-me aproximado de outras manifestações artísticas, vejo muitos espetáculos de dança contemporânea, vou muito ao teatro, continuo a ir muito ao cinema, e percebo que a linguagem narrativa é muito diferente porque nós acabamos por ter algum pudor de assumir a nossa personalidade, queremos corresponder a uma expetativa, a uma tendência ou a uma obrigatoriedade. Eu não senti isso desta vez, aquilo que eu fiz era exatamente aquilo que eu queria fazer, e a coleção chama-se Ensaio por causa disso, eu queria que fosse uma obra aberta – há peças que chegaram à fase final mas há muitas em construção e há ideias que estão "ensaiadas" que ainda não estão desenvolvidas em todo o seu potencial e portanto é um momento de olhar para essas ideias e pegar nelas e seguir para outros projetos e dar continuidade a isto. As coisas não podem estar tão fechadas e morrerem no final de um desfile, que é uma coisa muito deprimente. Não se mudam os vícios de um dia para o outro, que nos levam para determinados caminhos e depois percebemos que não podemos ir por aí e temos de mudar.

E quais são os seus vícios?

Eu acho que o meu vício, por vezes é a elegância e a perfeição e procurar uma beleza inquestionável. E ir de encontro muitas vezes à estética, que não é minha mas é a dos outros, eu acho que muitas vezes segui aquela ideia do "dramático da moda portuguesa" e as minhas referências eram muito dramáticas. Agora eu sou o que sou, e quem quiser gosta, quem não quiser vá à Zara, é mesmo assim [risos], eu tenho uma identidade e é isso que eu tenho de respeitar, se não, não vou ser nada.

Falava das suas referências ao longo dos últimos anos. Como é que o trabalho de palco que tem feito o tem influenciado? Está prestes a estrear a sua primeira colaboração com a Companhia Nacional do Bailado?

Tem influenciado muito porque o acompanhar desses processos, os ensaios e o desenvolvimento dos trabalhos de outros criadores tem sido muito enriquecedor e permitiu-me também, até nesses momentos, repensar os meus. O que estou a fazer com a Companhia Nacional de Bailado [Teu Corpo, Meu Eco], que estreia a 15 de outubro, foi uma influência muito grande no meu trabalho.

Desenhar para um corpo em movimento é completamente diferente?

Sim mas o processo de trabalhar com o Filipe Portugal, que é o coreógrafo desta nova criação, foi muito enriquecedor, porque ele é muito generoso e envolveu e integrou a minha estética e o meu trabalho. Ele diz-me sempre "tu tens a tua assinatura e isso tem que estar presente".

Esta coleção também aborda uma certa ideia de futuro: é uma coisa que o entusiasma ou que o assusta nesta fase?

É um bocadinho de extremos – por um lado, sei que o futuro pode não acontecer, portanto é importante que o presente seja feliz e eu sei que se construir um presente feliz, o futuro tem de ser ótimo.

Preocupa-o como a pandemia pode afetar a sua marca?

Sim, preocupa até porque já está a afetar. Eu não sou a pessoa mais positiva do mundo, mas sou reativo – choro dois dias e depois passa [risos]. Sou de sentir e de não ter vergonha de o dizer, mas depois tenho de reagir e andar para a frente. E se alguma coisa correr mal, no fim, que não seja porque eu não me esforcei, porque não dei tudo. Se eu der tudo e depois não resultar, pronto, tudo bem.

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