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Luta de titãs: quem manda em quem, em Hollywood?

Quem detém, agora, o verdadeiro poder? Nestes tempos conturbados pós-Weinstein, em que o poderio masculino está a ser posto em causa, as mulheres deparam-se com novas oportunidades. E já não era sem tempo…
Por Rui Pedro Tendinha, 31.01.2018
O poder em Hollywood sempre foi um Santo Graal. A indústria do cinema vive de uma expressão sagrada: "Luz verde." Quem pode dar a "luz verde" fica com estatuto de poderoso, ainda que, nos últimos anos, a imagem do poder tenha mudado. Os patrões transformaram-se em investidores, tudo ficou mais "empresarial" e os grandes estúdios souberam fazer uma divisão do poder. Passou a ficar menos fácil medir a esfera de influência de um "jogador" poderoso. Tudo ficou a depender de muitos factores, de contextos específicos e de reuniões de conselhos de administrações. Aquele imaginário do "manda-chuva-todo-poderoso" fossilizou-se.

O efeito do vendaval do caso de Harvey Weinstein também está a mudar a paisagem do poder, em Hollywood. A maneira como Harvey e Bob Weinstein exerciam uma influência gigante nos anos 2000 é já notícia do passado. Agora, é virtualmente impossível o comportamento do "Quero, posso e mando". Os realizadores de Lista A (veja-se o poder de um Ridley Scott, que é também produtor...) foram ganhando também poder, talvez mais do que as mega-estrelas. O "sistema das movie-stars" está em vias de extinção e mesmo um Tom Cruise já não tem o poderio que tinha. A maneira como estrelas rentáveis como Dwayne Johnson, Julia Roberts ou Robert Downey, Jr. exercem a sua influência é muito mais diluída que nos tempos em que as vedetas tinham capacidade para fazer o que lhes apetecia.
Jim Carrey chegou a escolher realizadores e produtores para os seus projectos, sobretudo na altura da bonança nas bilheteiras de Ace Ventura e The Grinch Já ninguém consegue escolher entre todos os estúdios os projectos à sua imagem. A própria estratégia dos grandes estúdios de Hollywood passa por não criar novas estrelas – é sempre preferível apostar nos actores de tarimba, conhecidos do público, mas sem o chamado "star power". Nomes como Mark Whalberg ou Hugh Jackman têm essa capacidade de reconhecimento e trabalham muito sem salários inflacionados. Porém, há casos de actores que ganharam e conservaram um poder muito próprio. Um dos maiores exemplos talvez seja Oprah Winfrey que, desde os anos 80, trocou o cinema pela televisão e rentabilizou a sua popularidade a ponto de criar um império de comunicação, voltando ao cinema quando muito bem entende. Oprah, nesta altura, talvez seja mesmo a única alternativa real a Trump na corrida presidencial.

A uma outra escala, há um actor que conseguiu trilhar um território de poder muito próprio: George Clooney. Ganhou poderio político, tornou-se uma voz social e apostou na produção. Ao mesmo tempo, a sua imagem em termos publicitários deu-lhe uma mais-valia que pode dispensar algumas cedências em Hollywood. Juntamente com o seu sócio, o argumentista Grant Heslov, como que criou uma network fortíssima. A label criada, Smoke House, tem agora no forno Ocean’s 8, uma versão feminina dos filmes da saga Ocean. Se quisermos, é um "trendsetter" de um certo liberalismo da indústria.

Outro actor que passou a produzir e a conseguir criar os seus veículos é Brad Pitt, através da sua Plan B, que só nasceu depois de alguma ajuda no começo por parte de Harvey Weinstein. Tal como Clooney, Pitt sabe mover-se bem nos bastidores de Hollywood, bem como juntar talentos de diversas proveniências. Durante o seu casamento com Angelina Jolie, conseguiu optimizar todo o mediatismo de um casal que movimentava milhões, tal como tinha feito por alturas da relação com Jennifer Aniston, por sinal co-fundadora da Plan B. A dupla Brangelina era sinónimo de "power couple". O grande indicador da capacidade de Pitt levantar um projecto do nada passa pelo facto de, teimosamente, ter conseguido dar vida a filmes como 12 Anos Escravo, de Steve McQueen, os dois Kick-Ass ou Voyage of Time, de Terrence Malick. Conseguir alavancar cinema mais arriscado e independente.
 
Neste jogo de mandar mais do que outros há algo que todos sabem: tudo muda. A regra da intitulada "mudança de poder", em Hollywood, faz com que se controle a tentação do abuso do poder. Um executivo pode estar um dia no topo, mas sabe que no dia seguinte pode deixar de ser patrão. Ninguém fica muito tempo a mandar. O próprio sistema tem essa capacidade de mudança que se torna saudável para não haver sempre vícios de reinado, mesmo quando certas realezas permanecem intocáveis.

Mas a grande verdade é que, neste momento, assistimos a uma novíssima vaga de legado de poder. Estúdios como a Warner Bros., a Paramount ou a Lion's Gate estão a baralhar as contas. Em vez de haver um rosto de poder, estão antes a formar-se comités. As decisões de despedir ou contratar um realizador são feitas com estudos, debates e muito consenso. Está a deixar de se ver aquela escola de totalitarismo de rompante. Por exemplo, na Paramount, o antigo CEO, Brad Grey, terá tido alguma dificuldade em estalar os dedos e dar a tal "Luz verde" a um projecto. As diversas divisões da Paramount têm de estar em sintonia, sobretudo porque se trata de um estúdio gerido pela Viacom, onde quem manda é a implacável Shari Redstone que adora ter o tal poder que é afrodisíaco. Tudo isto baralha um pouco o processo de funcionamento da produção dos filmes.

Ainda assim, cada estúdio tem a sua lógica de poder. Na 20th Century Fox, que pertence ao império da Walt Disney, a teia do poder é gerida por uma mulher, Stacey Snider, especialista a escolher os seus "parceiros-chave", como a TSG Enternainment. Snider tem conseguido escolher os projectos a dedo e criar novas sequelas, apostando, também, num cinema de qualidade através da "label" Fox Searchlight, onde se tenta chegar ao prestígio dos Óscares.
Nesta nova mudança de poderes, o contingente feminino tem tido um reforço notório. A mão-de-ferro feminina que dá a uma realizadora activista, como Ava Duvarney ? uma das grandes feministas de Hollywood ?, a possibilidade de realizar Uma Viagem no Tempo, uma das maiores excentricidades da Disney. Um filme feito com um elenco maioritariamente feminino, como já referimos, e que aborda a questão da interioridade feminina. Duvarney tem tanto hype que a Netflix aceitou financiar a sua série sobre o caso Central Park Five (sobre cinco jovens que foram injustamente acusados e presos por alegada tentativa de homicídio e violação de uma mulher, em Central Park, em 1990), sobretudo depois das audiências positivas da série que também realizou, Queen Sugar. Como se não bastasse, criou o colectivo Array, uma plataforma para ajudar na distribuição de cinema feito por afro-americanas. Ser protegida de Oprah ajuda muito. Ajuda, igualmente, muito ser herdeira de uma fortuna exorbitante (o seu pai é o proprietário da Oracle), como é o caso da dona da Annapurna Pictures, Megan Ellison, uma jovem que ama cinema de qualidade e que tem conseguido produzir filmes como Golpada Americana, de David O. Russell, ou Her, de Spike Jonze. Ellison acredita que o lema da qualidade pode ser um bom negócio. O seu bom gosto acaba por ser o seu factor diferenciador.

Outra das tendências do poder é a divisão das responsabilidades. A lendária Kathleen Kennedy continua no topo na Lucasfilm com a Disney, mas não pode exercer influência na Marvel. Kevin Feige, o homem dos super-heróis, tem controlo total. Ele e, mais recentemente, os irmãos Russo, realizadores que controlam todo o novo universo da família do Capitão América, Homem de Ferro, Hulk e companhia. Aliás, o equilíbrio de vozes reinantes aí é bastante interessante. Por um lado, a figura tutelar de Bob Iger, o patrão supremo das operações Disney, homem poderoso que procura não interferir na esfera de Alan Bergman, o presidente dos estúdios e o dono dessa ideia dourada de refazer os clássicos de animação em imagem real (A Bela e o Monstro foi um portento de lucro em todo o mundo!). Na animação quem mandava era John Lasseter, o homem da Pixar, mas após o escândalo das acusações de mau comportamento sexual foi posto em "banho-maria". Nisto do poder em Hollywood, há decididamente um antes e um depois do caso Harvey Weinstein. 
 
E resistir nesta indústria dos sonhos é também uma prova de sucesso, de poder. Que o diga Amy Pascal, afastada do comando da Sony, que se reinventou como uma das maiores produtoras de Hollywood, capaz de fazer em tempo recorde The Post, de Steven Spielberg, como acto político ou de dar uma nova vida à série Homem-Aranha. Esse golpe de rins é coisa jurássica? Há sempre quem se aguente no poleiro. É impossível, nesta altura, não reconhecer a nova fonte de poder que a Blumhouse Productions conseguiu criar. Jason Blum, produtor, apostou em propor aos estúdios filmes de terror de baixo orçamento, como Actividade Paranormal, e saiu-lhe a sorte grande. É ele o responsável por Foge, por Insidious e por Feliz Dia Para Morrer. Onde Jason toca, há lucro garantido. A propósito de toques, não é por acaso que em Los Angeles existe um homem de quem todos querem ser amigos: Reed Hastings, o dono da Netflix. Esta plataforma digital precisa de conteúdo e necessita de gente para lhe dar produto. A chegada da Netflix e da Amazon veio mudar o panorama do financiamento dos projectos.

Depois, claro, Hollywood, nas suas múltiplas mutações, consegue criar fontes inovadoras do poder. A força das redes sociais transformou o movimento #metoo num fenómeno que hoje mete respeito. Graças a uma série de actrizes de cinema, milhões de mulheres, em todo o mundo, conseguem denunciar atitudes de abuso sexual e de misoginia através de uma hashtag. Um movimento impulsionado nas redes sociais por gente como Alyssa Milano, Gwyneth Paltrow, Viola Davis, Ellen DeGeneres e tantas outras. Trata-se de uma "onda" que ficou tão viral que terá consequências em Hollywood e na própria sociedade americana. Quem explora causas e temas politicamente correctos de forma organizada marca pontos nesta bolsa de valores. Por estes dias, há cada vez mais um endeusamento dos agentes de casting que arrastam uma considerável sombra de poder. Tornam-se peças fundamentais neste negócio, sobretudo a CR7 do casting, Avy Kaufman, uma directora de casting que pode decidir a sorte de um filme e de inúmeras carreiras. Já há muitos anos que é uma das rainhas de Hollywood, depois de ter trabalhado com Steven Spielberg, com Ang Lee ou com Ridley Scott. A força destes descobridores de talento é tanta que há um novo lobby junto à Academia para instituir o Óscar de Melhor Casting (nos Emmys já existe...).

O que é curioso, nisto tudo, é que num futuro próximo as chaves do poder poderão estar mais nas mãos dos actores que souberem ser polivalentes. Os que souberem fazer o lobby certo, terem séria repercussão nas redes sociais, saberem intervir bem no tabuleiro do "politicamente correto" e, claro, serem produtores. Em Hollywood, mesmo com todos os reinados, ainda é possível alguém cavar o seu próprio poder. Tem é de ser alimentado através de um sonho. E o sonho comanda o poder.
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