A melhor música é a que nos faz sentir gostosas: o que Marina Sena nos ensinou sobre autoestima no Coala Festival
Este domingo, o evento dedicado à música portuguesa foi menos um festival e mais uma terapia de grupo ao ar livre. E o prazer foi todo nosso.
Há artistas que têm fãs. Marina parece ter devotos. Amém à fantasia das meninas que dançaram a vida toda frente ao espelho. Amém à delícia estética de uma criação andante de alta-costura. Amém ao alter ego de todos os gays. Amém à crush mundial. Amém à personificação de molho.
Ontem no Coala Festival, o fenómeno era impossível de ignorar. Havia uma sensação coletiva de antecipação, como se todos soubéssemos que estávamos prestes a assistir a algo mais do que um concerto. Marina Sena não é apenas uma das artistas brasileiras mais relevantes da sua geração; tornou-se um símbolo de uma feminilidade contemporânea simultaneamente vulnerável, sensual, estranha, intuitiva e profundamente livre. Chegou não apenas para encher o Hipódromo Manuel Possolo - naquela que foi a maior audiência da história do festival - mas também os nossos imaginários. E uff, a quantidade de gente que saiu apaixonada por ela.
O sol torrava-nos a cabeça quando entrou em palco para apresentar a Coisas Naturais Tour. Berros. A indumentária - primeiro impacto, primeira mensagem - era difícil de explicar. Roupa que faz barulho ao andar, mangas que prolongavam os braços até sugerirem unhas pontiagudas, uma coroa. Uma espécie de armadura, que takes a village, ou mais precisamente o artista Victor Hugo Matos, o joalheiro Caio Mota e a marca Silfar . Na mão, um microfone-tótem construído a partir de roscas, peças que pareciam ter pertencido a uma bicicleta, latão, colheres, relógios, fragmentos de joias. Uma parafernália que anunciava, sem margem para dúvidas, que a era espiritual de Marina tinha chegado. Nos pés, botas Miista — porque a diva é cool, claro, e o stylist Leandro Porto sabe exatamente o que faz.
É uma imagem distante daquela que apresentou em De Primeira (2021), onde o Y2K, as silhuetas justas e uma sensualidade mais terrena dominavam a narrativa visual. Mas a atenção ao detalhe já estava lá desde o início. Até o nome do álbum nasceu de uma frase da avó Estelina: “De primeira, as coisas eram diferentes.”
“Descalça numa ilha, é tão mágico.” E foi. Entre gritos, lágrimas e uma sucessão de sensações boas, o concerto assumiu contornos de culto. As danças tribal fusion de Marina pareciam conduzir as verdadeiras orações da noite. “Que saudade que eu estava de vocês, é um prazer estar de volta, Cascais. Espero voltar muito mais vezes. É muito impressionante atravessar o oceano e estar aqui com tanta gente”, disse, emocionada, perante um público que lhe devolvia o afeto em coro.
Vinda de Taiobeiras, no interior de Minas Gerais, Marina construiu uma carreira sem nunca parecer interessada em caber numa categoria. O seu universo mistura pop, MPB, eletrónica, regionalismo brasileiro e desejo. Mas aquilo que a distingue não é falar de sensualidade - muitas artistas o fazem. É a forma como a habita. Como a transforma numa extensão natural da sua personalidade e não numa personagem criada para agradar aos outros.
Quando passou no casting do The Voice Brasil, aos 17 anos, largou a escola e apostou tudo na música. A sua força continua a estar naquela voz agreste, anasalada e aguda, inspirada nas lavadeiras e nas mulheres que cantam nas igrejas do interior mineiro. Os seus álbuns têm servido de aviso para quem decidir amá-la: encare essa potência.
Durante o concerto, essa sensação era constante. Havia qualquer coisa de hipnótico na forma como ocupava o palco: segura, louca, feiticeira, quase etérea. Como alguém que encontrou uma frequência própria e decidiu viver nela. É uma das explicações para tantas mulheres se reconhecem nas suas canções. Porque elas não falam apenas de sermos desejadas. Falam de nos desejarmos a nós próprias.
Quando lhe perguntámos, após o espetáculo, sobre essa autoestima que atravessa a sua música - uma autoestima que parece ser tão física quanto espiritual, tão ligada ao corpo quanto à memória - a resposta foi reveladora.
“Para mim, a autoestima tem a ver com reconhecer a sua história, saber a sua ancestralidade, reconhecer seus traços, reconhecer tudo o que te trouxe até aqui”, explicou à Máxima. “Mas também uma coisa muito espiritual. Eu acho que é você sentir que o seu espírito está inteiro dentro de você. Eu acho que isso é o que mais dá autoestima, para além de arrumar um cabelo, colocar uma roupa bonita.”
A distinção é importante. Numa cultura que tantas vezes reduz a autoestima feminina à aparência, Marina propõe outra visão. Com o seu cabelo-manto a cair até ao rabo, os olhos delineados numa maquilhagem negra que faz lembrar o Cisne Negro e um cheiro que ficará para sempre na minha memória, ela é absolutamente linda. Mas a beleza, como sugere, não é o ponto de partida. É a consequência.
“Tudo isso é resultado de um espírito que está feliz em estar dentro do corpo vivendo.”
Talvez seja essa a razão pela qual termina frequentemente os concertos a lembrar que é “Marina de Taiobeiras”. Há uma recusa em abandonar as próprias raízes (num todo e em detalhes, como a gengiva de tonalidade escura que, após críticas, disse que jamais mudaria pois faz parte de quem é). Como se a verdadeira confiança não viesse da fama, mas da capacidade de permanecer ligada à história que nos trouxe até aqui.
E continua: “A autoestima é meditar. A autoestima é fazer yoga. A autoestima é estar perto de pessoas que te engrandecem. Eu acho que tudo isso faz você se amar.”
Marina Sena faz do pop um território elástico, onde convivem o regionalismo mineiro, a eletrónica, o desejo e a vulnerabilidade. Nas suas canções, há espaço para amores de todas as formas - e para todas as versões de quem os vive. Talvez seja por isso que saímos dos seus concertos um pouco diferentes de como entrámos. Não porque ela nos ensine a gostar mais de nós próprias, mas porque, durante uma hora, torna impossível esquecer uma coisa simples: o prazer não é um luxo nem uma conquista. É parte da nossa natureza. As melhores músicas - e as melhores pessoas - são as que nos ajudam a lembrar disso.
“Uma mulher que sabe o que quer ainda assusta.” Porque é que o prazer feminino continua a ser um tabu?
No Máxima House of Beauty 2026, Rosário Mello e Castro moderou uma conversa com Bárbara Branco, Ivvi e Catarina Lucas sobre prazer, assédio, vulnerabilidade e a urgência de devolver às mulheres a posse plena dos seus corpos.
Prazer, clitóris. Com 30 anos de atraso em relação ao pénis, ciência traça o “GPS” do corpo feminino
Em 2026, a pergunta soa quase absurda: como é que sabemos tão pouco sobre o epicentro da nossa felicidade?
"A masturbação feminina contraria a crença de que as mulheres são menos sexuais, de que o seu prazer deve depender de um parceiro"
Em entrevista à Máxima, a sexóloga Melanie Eichhor explica que, em muitas culturas, "não é o ato em si que é problemático, mas a independência e a autodeterminação que ele representa".