Quando falamos de beleza, a palavra do momento é longevidade. E se considerarmos a longevidade aliada à poderosa indústria da beleza, o cérebro ainda tem segredos para contar – e segredos que valem muito dinheiro?
Sim, tem, e cada vez mais. A beleza pode mesmo ser vista como um biomarcador neurobiológico e não é um simples quadro aleatório, fixo, executado pelos genes. É, aliás, extremamente dinâmica. Tudo o que tenha a ver com o nosso aspeto tem uma grande condicionante, que é a nossa saúde, física e mental. O stress não é uma simples sobrecarga emocional, isso é aquilo que sentimos subjetivamente e é apenas a ‘ponta do iceberg’. Para perceber o que é o stress, é preciso compreender todo esse iceberg. O stress é uma resposta do organismo, estereotipada, que é ativada na perceção de uma ameaça inespecífica. Inclui uma resposta comportamental, com a sensação emocional subjetiva que conhecemos, que pode incorporar a clássica resposta de luta ou fuga. O stress, ancestralmente, associava-se a determinadas características. Situações como ter de lutar com predadores, ou com pares, por comida ou sexo. Não eram emails, atrasos para reuniões ou entregar filhos a horas na escola. Eram situações em que a probabilidade do indivíduo se ferir e se infetar, ou ser alvo de outro desequilíbrio sistémico, era elevada. Por isto, a resposta de stress, selecionada pela evolução, inclui essa sensação subjetiva, que desencadeia comportamentos para o individuo se expor menos a esse evento ameaçador, mas inclui também uma resposta imunoendócrina. Por exemplo, com a ativação de uma resposta inflamatória e o aumento do cortisol. Hoje, mantemos este viés, selecionado ancestralmente. Quando nos stressamos, inflamamo-nos (situação muito bem documentada em humanos) e temos um pico de cortisol. Isto não é problemático. Torna-se problemático na presença de stress crónico, na ativação mantida desta resposta, com as consequências muito tangíveis que isto tem para a pele e para os tecidos. Com consequências inequívocas no nosso aspeto. Por isso, o cérebro e a saúde mental podem ajudar a alavancar objetivos estéticos ou fazer o seu contrário. A estética é muito mais que estética, sinaliza aspetos profundos relacionados com a saúde (e por isso é que a sua importância foi selecionada pela evolução da espécie). E isto dá-nos oportunidades.
Como é que a saúde mental pode, então, potenciar uma aparência mais jovem? Para além da óbvia influência no bem-estar geral através do desporto, da boa alimentação, da gestão do stress, etc?
Destacaria dois aspetos. O primeiro, mais óbvio, é a priorização do sono: não apenas dormir “mais”, mas proteger a regularidade e arquitetura do sono, incluindo as fases de sono profundo. Um sono inadequado não afeta só o humor. Durante o sono profundo é quando há renovação celular, reparação de danos e maior produção de colagénio. É durante o sono profundo que a pele “se reconstrói”. A hormona do crescimento (GH) é um dos principais motores de regeneração da pele e depende diretamente do sono profundo (slow wave sleep). Além disto, um sono inadequado associa-se a níveis de cortisolémia mais elevados, com consequências já descritas. Em segundo lugar, destacaria a capacidade para ter stress e a capacidade para deixar de ter – mas há uma rasteira linguística aqui, porque o stress não é eliminável. Vejo muitas vezes um esforço enorme para conter o stress, para não sentir stress ou emoções em geral e até para transformar essas emoções em diagnósticos. Não querer sentir coisas pode ser visto como um evitamento, que sabemos que só agrava a ansiedade subjacente. Muito mais importante que não sentir “coisas” é a capacidade para conseguir deixar de as sentir. O stress não é eliminável e não tem consequências negativas no cérebro, nem no nosso aspeto. O stress crónico tem. A capacidade para gerir emoções e não ficar paralisado em estados patológicos depende de neuroplasticidade. Da capacidade do cérebro se adaptar, ser flexível, conseguir apagar circuitos e fortalecer outros, consoante os desafios que surgem. Por isso, diria que a forma de potenciar uma aparência mais jovem é construir um cérebro o mais plástico possível, que organicamente consiga uma gestão do stress, que não exponha a pele e os tecidos às suas respostas imunoendócrinas. E é por isso que os aspetos mencionados na pergunta são muito importantes. Porque eles são os principais influenciadores da neuroplasticidade. Por exemplo, o exercício físico faz no cérebro exatamente o contrário do que a depressão – aplana a inflamação, aplana o cortisol e dá um boost de fatores neurotróficos, que são “adubo” para os neurónios e exatamente aquilo de que ele precisa para ser plástico.
Se tivesse de escolher três tendências que vão marcar o futuro, o que elegeria?
Vejo algumas tendências ou promessas para este campo da ciência, mas com evidência ainda muito distante do prime-time. A primeira é, acompanhando as tendências da medicina em geral, a transição de intervenções genéricas para intervenções mais personalizadas, adaptadas às características de determinada pessoa e com base em biomarcadores (características biológicas mensuráveis que ajudam a prevenir, diagnosticar e tratar doenças) que as evidenciem. Em beleza e longevidade, isso significa estudar mais sobre os diferentes fenótipos (a expressão física ou funcional dos genes) e trajetórias de envelhecimento, para um dia poder integrar biomarcadores de sono, metabólicos, de composição corporal, epigenéticos e muitos outros, na mesma “equação” clínica. Para intervenções mais específicas, que possam potenciar resultados.
A segunda é a consolidação da psicodermatologia e da importância do chamado eixo cérebro-pele, utilizando as suas vias verdes para potenciar os resultados da estética e mesmo certos objetivos cirúrgicos, por exemplo, na cicatrização. A terceira é a ascensão dos agonistas da GLP-1 e de outros fármacos metabólicos – podemos estar apenas no começo – como agentes com impacto não só no peso, mas na inflamação, em circuitos neuronais fundamentais no comportamento alimentar e potencialmente no tratamento de algumas doenças psiquiátricas. A quarta, num horizonte distante, mas que algumas fontes invocam erradamente como próximo: uma beleza mais “neurointeligente”, com produtos e abordagens pensados para a pele, mas não apenas para a pele; que possam influenciar, em sentido bottom-up, essas vias verdes entre cérebro e pele. Sabemos que o que acontece à periferia pode influenciar o cérebro, o que sugere plausibilidade biológica. Mas não sabemos ainda, de forma robusta, capitalizar isto na prática. Infelizmente, ainda não existe evidência firme para uma intervenção com estas características, apesar de várias promessas.
No caso dos agonistas GLP-1, de que tanto se fala atualmente, falta saber muito sobre o seu impacto na saúde mental. Como é que isto pode mudar uma sociedade?
Os agonistas da GLP-1 podem vir a ser uma das grandes histórias médicas desta década, precisamente porque atuam em intersecções muito sensíveis. Na minha visão enquanto psiquiatra, os agonistas da GLP-1 são eles próprios uma mudança de paradigma do próprio objeto de estudo da psiquiatria. E isto repercute-se na sociedade. Os agonistas da GLP-1 não são simples modificadores do peso corporal. Pela forma como o fazem, interferem com mecanismos diversos, como a inflamação e, também por isso, parecem ter influência no healthspan e na longevidade. Um dos pontos mais interessantes é que estes medicamentos atuam diretamente no cérebro e não apenas no intestino, como em zonas relacionadas com a recompensa, a motivação e a cognição. A promessa é grande. Mas a evidência psiquiátrica ainda é preliminar e heterogénea.
Sabemos que existe uma poderosa ligação entre o cérebro e o intestino, por exemplo, mas o mesmo acontece, então, entre o cérebro e a pele. É mais um avanço que pode prometer juventude?
O cérebro e a pele são o eixo cérebro-órgão mais especial de todos. Têm a mesma origem embriológica. Diferenciam-se e migram até às suas residências definitivas, mas nunca se “interrompem” verdadeiramente. A pele é uma espécie de muralha hipertecnológica que, em alguns aspetos, lembra um bocadinho um cérebro “desmanchado” à periferia. O cérebro tem como funções principais estar informado de tudo o que se passa para decidir e orientar respostas centralmente. Por isso, faz todo o sentido esta ligação com a pele, que está estrategicamente posicionada para o ajudar a cumprir essa missão. Esta comunicação acontece através de diversas formas: vias nervosas, endócrinas e através do sistema imunitário – coincidentemente os braços da resposta biológica do stress. Por outro lado, o stress, que também é inflamatório e pode, por isso, agravar uma doença inflamatória da pele, pode também, pela libertação de noradrenalina, por exemplo, influenciar outros aspetos da pele. Não é por isso bizarro que os fenómenos mentais se repercutam com tanta facilidade, através destes sistemas, na pele e vice-versa. Além de tudo isto, o stress influencia também outros aspetos da pele, como a cicatrização.
Finalmente, o stress envelhece a pele como uma doença crónica. O stress associa-se a aumento do cortisol, central e periférico, que inibe fibroblastos, essenciais para produzir colagénio, elastina, fibronectina, proteoglicanos; ativação das metaloproteinases da matriz, que os degradam; aumento do stress oxidativo que oxida adicionalmente estas proteínas e esgota os sistemas de antioxidantes. Isto inclui a vitamina C – essencial à produção de colagénio. Como se isto não bastasse, o stress associa-se a inflamação crónica. É como se a pele, que recebe o sinal de stress, se preparasse para ser ferida e ter de ser remodelada. Ancestralmente, o stress estava de facto associado à probabilidade do indivíduo se ferir e infetar. Mas o stress crónico é perverso na medida em que a pele não tem a oportunidade de se reparar. O stress crónico acelera a degradação e inibe a reconstrução do colagénio, silenciosamente desfazendo a estrutura que sustenta a pele.
E como é que todas estas ligações interferem em questões como a menopausa?
A menopausa, a obesidade e a diabetes são praticamente laboratórios naturais destas interseções. Para começar e por diversos motivos, todos são autênticos reservatórios de inflamação. Contribuem para a manutenção ou agravamento de um estado de inflamação de baixa intensidade, mas que é mantida no tempo, com todas as suas consequências, no cérebro e na pele.
Por exemplo, nos casos da perimenopausa e da menopausa, caracterizam-se por flutuação ou défice de estrogénios e de outras hormonas. Os estrogénios têm recetores dispersos por todo o corpo e, por isso, os sintomas associados à queda estrogénica são sistémicos. No cérebro, estão amplamente distribuídos em circuitos que são autênticos epicentros do comportamento humano, influenciando-os, com produção de sintomas bem conhecidos de todos. Estes sintomas, através das suas assinaturas imunoendócrinas, também podem contribuir para aquilo que vai acontecer na pele. Na pele, a queda estrogénica leva à diminuição da produção de colagénio, ao aumento da sua degradação, podendo haver perda de até cerca de 30% do colagénio cutâneo nos primeiros cinco anos após a menopausa, que se mantém paulatinamente depois. Isto ajuda a explicar a rapidez com que muitas mulheres descrevem mudanças súbitas na pele e na sua aparência.