Beleza / Wellness

Esta é a razão porque não consegue emagrecer

As abordagens holísticas são cada vez mais procuradas na busca por uma vida mais saudável. Falámos com Juliana Martins, uma jornalista portuguesa residente em São Paulo especializada em nutrição integrativa que nos explicou as suas bases.

Juliana Martins é especialista em nutrição integrativa
Juliana Martins é especialista em nutrição integrativa Foto: D.R.
06 de agosto de 2020 | Carolina Silva

Pode explicar-nos quais são as bases da nutrição integrativa, e no que é que esta se distingue da abordagem tradicional?

É preciso dizer que eu não sou nutricionista, nem substituo uma. Sou Health Coach, formada pelo Institute for Integrative Nutrition, sediado em Nova Iorque, e o meu trabalho é ser uma guia ou mentora que ajuda o cliente a traçar e alcançar os seus objetivos de saúde e bem-estar. Portanto, o meu trabalho não pode ser comparado à nutrição tradicional porque são duas abordagens distintas, que são (ou podem ser) complementares. Diria que há duas coisas centrais que diferenciam o meu trabalho da nutrição tradicional. Primeiro, somente o nutricionista está apto para passar um plano alimentar, analisar exames médicos e subscrever alguns suplementos adicionais, como vitaminas, minerais, etc. Este é o seu trabalho e eu faço questão de dizer que não é a minha expertise. E em segundo lugar, o nutricionista tradicional costuma centrar o seu atendimento puramente na alimentação, podendo logicamente dar algumas orientações de estilo de vida e exercício físico, mas o seu foco é a alimentação. Já no meu trabalho, olhamos além disso, dando enfoque a tudo o resto que nos nutre. Nas consultas ofereço uma visão integrativa da saúde, onde instigo o meu cliente a olhar para a sua vida de forma holística e a reclamar o seu poder, entendendo que é ele quem cria a sua realidade.

Juliana Martins é health coach
Juliana Martins é health coach Foto: D.R.

Em termos práticos, como é que isso se reflete nas suas consultas?

A abordagem tradicional da nutrição esquece, muitas vezes, o que nos nutre em outras esferas. Na minha atuação, explico os conceitos de Alimentação Primária e Alimentação Secundária que ajudam a nortear os meus atendimentos. Ao contrário do que poderíamos ser levados a crer, a comida no prato não é a nossa principal fonte de energia, mas sim a secundária (Alimentação Secundária). A Alimentação Primária é o que realmente nos move, aquilo que profundamente nos nutre e permite que possamos prosperar em todas as áreas da vida, incluindo alcançar os nossos objetivos de saúde e bem-estar. A Alimentação Primária resume-se em quatro grandes pilares: Relacionamentos, Carreira, Exercício Físico e Espiritualidade. Para ilustrar a importância da Alimentação Primária, gosto muito de fazer um exercício que partilho aqui: Lembra-se de quando era criança e estava a brincar durante horas com os seus amigos ou brinquedos preferidos e, de repente, a sua mãe chamava-a para jantar e respondia-lhe: "só mais um bocadinho, não tenho fome!"? Isso é normal nas crianças porque elas vivem maioritariamente de Alimentação Primária, a comida é muitas vezes secundária. E nós, mesmo adultas, continuamos a ser essas crianças, que se nutrem em primeiro lugar com a Alimentação Primária. Quando temos essa parte da vida equilibrada, fica muito mais fácil comer bem, por exemplo, porque não precisamos de descontar na comida para sentirmos algum tipo de conforto.

Questões como as alterações hormonais ou o stress são hoje consideradas determinantes na saúde feminina, o que se reflete na qualidade da pele, e na dificuldade em perder peso. Mas não são todos os especialistas que as têm em consideração. Quais são as estratégias a ter em mente quando os objetivos são afectados por estas duas influencias internas?

Nesses casos, a minha sugestão é sempre encontrar um bom médico de Medicina Integrativa que possa analisar o desequilibrio e ver a paciente como um todo. Questões hormonais devem ser tratadas com seriedade e muitas vezes exigem medicação, nem que seja numa primeira fase. Na minha área, aquilo que eu procuro trazer para a minha cliente, numa situação destas, é primeiro entender quando e como começaram essas mudanças hormonais (ou as situações de stress) e trazer consciência e reflexão sobre o que pode estar a criar esse desequilibrio. Para isso, auxilio-a com ferramentas de autoconhecimento para que consiga ir à raiz do problema. É também importante despistar o uso do anticoncecional oral ou de outros medicamentos que possam estar a interferir negativamente no organismo, mas é sempre importante não negligenciar a questão  emocional e do estilo de vida.

Outra coisa extremamente importante em relação à saúde feminina, um tema que tenho aprofundado é que nós, mulheres, temos sido levadas a crer que temos que seguir um certo padrão pessoal e profissional. Temos de ser as mulheres perfeitas, as mães perfeitas, as profissionais mais eficazes e disponíveis... No fundo, fizeram-nos crer que temos que viver no tempo masculino, que é biologicamente mais linear que o nosso (eles não têm oscilações hormonais como nós). Mas nós somos diferentes e acredito que estamos a chegar a um momento da História em que estamos todas a sentir a necessidade para resgatar o que nos torna tão únicas. Somos cíclicas como a lua e a Natureza e isso é parte da nossa força e beleza. Essa desconexão com a nossa verdade, que há tanto tempo nos poda, tem trazido vários problemas a muitas mulheres, problemas esses que muitas vezes se refletem em alterações hormonais. Eu acredito que resgatar a nossa essência, aceitar o nosso ciclo menstrual e abraçar as mudanças que ele traz, é um dos primeiros passos para resolver algumas das questões relacionadas com a saúde feminina.

Os desequilíbrios no microbioma intestinal também podem estar na origem da dificuldade em adelgaçar na zona abdominal. Quais são as suas sugestões para regularizá-lo?

O intestino é absolutamente fascinante e de extrema importância na nossa saúde. Isto é indescutível. Independentemente de se querer ou não emagrecer, regularizar o intestino é fundamental para a imunidade e bem-estar. Pelo menos 90% da serotonina, conhecida como a hormona do bem-estar, é produzida no intestino. Se não comemos as comidas certas e não vibramos nas emoções corretas, desregulamos tudo. Dito isto, o que eu sugiro para quem procura regularizar a função intestinal é: comer comida de verdade (descascar mais e desembalar menos); fugir o máximo possível de alimentos industrializados; controlar o consumo de açúcar, já que ele alimenta as bactérias más do intestino e pode ser responsável pela sensação de inchaço; priorizar os alimentos bio (isto é importante em duas frentes: por um lado, reduz a quantidade de agrotóxicos e pesticidas que são agressivos para o intestino, por outro estes alimentos são muito mais ricos em antioxidantes); beber muita água (isto é básico, mas sempre importantíssimo de referir. Comer toda a fibra do mundo e não beber água só vai entupir as paredes do intestino); dormir bem (não consigo reforçar este ponto o suficiente. O ideal é dormir em média 8h por dia), visto que é fundamental para que o nosso corpo possa regenerar, queimar gordura e ainda manter o apetite controlado; tomar probióticos pode ser uma ótima estratégia aliada a tudo o que falei acima; L-Glutamina também é um ótimo suplemento, uma vez que tem o papel de regenerar as paredes do intestino, reparando a permeabilidade e melhorando, assim, a absorção de nutrientes; praticar exercício físico (alguns estudos comprovam que praticantes de atividade física têm maior diversidade de bactérias no intestino, o que está relacionado a saúde); evitar tomar antibióticos, a menos que seja estritamente necessário e quando o fizer, lembrar de sempre fazer uso de um bom probiótico nas semanas seguintes. Agregado a tudo isto, é importante não negligenciar os aspetos emocionais. Seguir todas as regras e não cuidar da mente pode não trazer os resultados esperados. Vou dar uma dica rápida e simples: quando for comer, escolha um ambiente tranquilo e procure fazer a refeição com calma e presença, mastigando bem. E se estiver triste ou zangada, veja se consegue mudar o mindset antes de começar a comer. Muitas vezes isso é o suficiente para diminuir o desconforto intestinal e até mesmo a distensão abdominal.

"A abordagem tradicional da nutrição esquece, muitas vezes, o que nos nutre em outras esferas" Foto: D.R.

Um dos seus programas inclui acompanhar o cliente ao supermercado para uma reaprendizagem sobre fazer compras mais inteligentes. O que é que leva em consideração para fazê-lo?

 Nesse serviço, que dura uma manhã, eu vou a casa do cliente e, juntos, analisamos a dispensa com o intuito de compreender o que está desajustado e pode melhorar e o que está em conformidade com os seus objetivos. Nessa altura, já ajudo a perceber melhor como ler rótulos e algumas rasteiras que certos produtos e marcas usam. Depois, vamos juntos ao seu supermercado de eleição fazer uma compra típica. Juntamente com a pessoa vou auxiliando nas escolhas, pontuando onde está a acertar e onde pode fazer substituições mais saudáveis. Nesse momento levo tudo em consideração: os seus os objetivos, os seus gostos e até mesmo quanto está disposto a gastar na sua alimentação. O importante nesta hora é ajudar o cliente a tirar dúvidas e a tomar melhores decisões nas próximas compras. Trata-se de empoderá-lo para não se tornar refém de propaganda enganosa.

Quais são as maiores red flags nos rótulos?

Infelizmente são várias. Cada vez mais, eu defendo que aprender a ler rótulos deveria fazer parte do currículo escolar. É triste ver que as marcas se aproveitam da ignorância dos consumidores para vender produtos com aspecto e nomes apelativos, que estão longe de ser aquilo que parecem.

Em todo caso, existem alguns alertas que simplesmente devem fazer a pessoa devolver o produto à prateleira, como é o caso do glutamato monossódico, um realçador de sabor, muito usado na soja, que torna tudo apetitoso. Isto não só é perigoso porque vicia o nosso paladar em relação a certos produtos, como acarreta problemas de saúde, já que, segundo vários estudos, o glutamato monossódico pode desencadear crises de enxaqueca, reações alérgicas e até mesmo cancro. Outra red flag são os corantes artificiais, com destaque para o corante caramelo, que tem sido apontado como potencialmente cancerígeno. Nitrato e Nitrito de sódio, além dos Conservantes BHT e BHA, também são conhecidos por serem cancerígenos. E, claro, a gordura trans, que reduz o colesterol bom (HDL) e aumenta o colesterol mau (LDL), além de aumentar as chances de AVC e problemas cardíacos. Mas além dos red flags, acho muito importante que as pessoas aprendam o básico da leitura de rótulos, como por exemplo aprender a ver o açúcar escondido nos produtos (sacarose, frutose, lactose, glicose, glucose, dextrose, maltodextrina, mel, agave, xarope de milho, tudo isso é açúcar), ou a importância de olhar para o valor diário recomendado dos ingredientes e a quantidade por porção, uma vez que os níveis de calorias e gorduras não se referem ao produto inteiro e isso, às vezes, leva-nos a comer mais do que deveríamos. Acrescentaria ainda a importância de dar prioridade a alimentos com até cinco ingredientes (ou seja menos processados) e de prestar atenção à ordem dos imesmos, pois eles são proporcionais à composição daquele produto. Se num chocolate, o primeiro ingrediente é o açúcar e não o cacau ou a manteiga de cacau, devolva-o à prateleira.

O veganismo nem sempre está em concordância com uma dieta para quem quer perder peso. Nestes casos em particular, o que é importante ter em mente para manter uma alimentação equilibrada?

Esse é um grande equívoco, mas muito comum. Na verdade, creio que as pessoas pensam que, ao deixarem de consumir produtos de origem animal, vão abusar de hidratos de carbono e, consequentemente, engordar. Na prática, muita gente se queixa justamente do oposto, de perder peso e isso é explicável por alguns fatores. Primeiro, a comida vegetal, por ser fonte de fibras, sacia mais e, muitas vezes, dependendo do gasto calórico do indivíduo, este vai precisar de comer muito mais do que antes para manter o peso. Caso não ajuste a dieta, emagrece. Eu sou exemplo disso, na transição para o veganismo precisei de adequar a minha alimentação para não perder demasiado peso. Em segundo lugar, ao adotar uma alimentação vegan, deixamos de consumir alguns alimentos pró-inflamatórios como é o caso dos laticínios, de carnes processadas e alguns produtos industrializados. Isso reduz significativamente a inflamação e dá o efeito de "desinchaço" no corpo. É importante dizer que estou a falar de uma dieta vegan, whole food plant-based diet, ou seja, baseada em alimentos integrais, que elimina ao máximo os produtos processados. Eu diria que, para quem é ou quer ser vegan e perder peso, a melhor estratégia é procurar um nutricionista funcional, capacitado para atender vegans ou pessoas em transição para o veganismo, de maneira a garantir que os macro e micronutrientes, além do aporte calórico específico para aquela pessoa estão a ser cumpridos.

Há uma controvérsia crescente em torno da toxicidade do que colocamos na nossa pele. Qual é a sua posição sobre este tema?

Eu estou do lado de quem alerta para a importância de escolher bem os cremes e produtos de beleza.
Se pensarmos que a pele é o nosso maior órgão e que o que colocamos nela entra diretamente na corrente sanguínea, fica mais fácil perceber porque devemos levar este assunto a sério. A Ayurveda tem uma frase que eu adoro sobre isto: "não coloques na pele o que não comerias". Na minha vida, eu dou prioridade a produtos naturais, livres de parabenos, silicones, formol, metais pesados e químicos e, tanto quanto possível, gosto de usar produtos bio (e claro, sempre cruelty free).

A sua experiência na área do health coaching divide-se entre São Paulo e Lisboa. Do que tem observado, há muitas diferenças entre os hábitos das brasileiras e portuguesas, e no que pretendem alcançar?

Na essência, todas procuram o mesmo: autoconhecimento e mudança real de hábitos. No entanto, penso que as brasileiras acabam por estar mais habituadas a olhar para si mesmas e, normalmente, já trazem alguns hábitos de autocuidado. Além disso costumam ser mais abertas a abordages alternativas à saúde física e mental. Contudo, felizmente vejo que isto começa a mudar e, francamente, acho que somos muito mais parecidas do que diferentes. Há uma coisa que tenho constatado, é que os desafios das portuguesas e das brasileiras são bastante comuns.

Relativamente ao sexo masculino, quais são as questões mais habituais quando a consultam?

Infelizmente, até agora os homens não me procuraram. Acho uma pena. Acredito que existe muito a ser feito no mundo masculino. Os homens têm diversos desafios e sentem-se obrigados a desempenhar alguns papéis, que às vezes não lhes trazem verdadeira felicidade. Adoraria poder ajudá-los a conhecerem-se melhor, a serem mais saudáveis e felizes. Mas aquilo que percebo da minha experiência, e até de conversas com outras profissionais holísticas, é que os homens parecem ter maior resistência a este tipo de abordagem. Não sei se são mais céticos ou simplesmente envergonhados, mas essa é uma realidade, até mesmo no Brasil.

Saiba mais saúde, Alimentação Secundária, nutrição integrativa
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