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Um truque que ajuda a retardar, não a curar.
Em 1993, a ativista e diretora-executiva da The Endometriosis Association nos Estados Unidos, Mary Lou Ballweg, criou a Yellow March (março amarelo), uma iniciativa que procura sensibilizar e informar o público sobre a endometriose, contribuindo para quebrar o estigma que ainda envolve esta condição e, consequentemente, incentivar a investigação científica a trabalhar em tratamentos mais eficazes. Ao longo do mês, multiplicam-se as ações dedicadas à causa. Desde eventos educativos, campanhas nas redes sociais, caminhadas solidárias, encontros com especialistas e seminários com médicos especialistas.
Todo o esforço é pouco. A endometriose ainda vive no silêncio apesar de, já há dois anos, a Organização Mundial da Saúde (OMS) contava já com cerca de 190 milhões de mulheres em idade reprodutiva que vivem com esta doença, o que corresponde aproximadamente a 10% da população feminina global.
Mas e então, o que tem a endometriose a ver com aquilo que comemos?
"A alimentação tem precisamente um papel relevante nestes mecanismos. Alguns padrões alimentares estão associados a níveis mais elevados de inflamação sistémica, enquanto outros parecem ter um efeito protetor ou modulador", refere Mariana Coelho, nutricionista especializada em saúde da mulher na Nutriway Clinic. A endometriose é uma doença inflamatória crónica e, por esse motivo, fatores que influenciam a inflamação, o stress oxidativo e o metabolismo hormonal podem ter impacto na forma como os sintomas se manifestam. "Nos últimos anos tem surgido cada vez mais evidência científica que sugere que determinados padrões alimentares podem ajudar na gestão de sintomas, como dor pélvica, fadiga e desconforto gastrointestinal associados à endometriose."
Tendo a nossa alimentação um papel tão importante nesta questão, haverá algum alimento ou padrão alimentar que pode ter um efeito anti-inflamatório particularmente benéfico para as mulheres que sofrem com esta doença? Segundo a especialista, há sim alimentos que podem reduzir a inflamação. "Embora a alimentação não cure a endometriose, pode ter um papel importante na modulação da inflamação e na gestão de alguns sintomas. De forma geral, padrões alimentares com perfil anti-inflamatório parecem ser os mais benéficos." A nutricionista destaca, por exemplo, um padrão alimentar semelhante à dieta mediterrânica, rico em hortícolas, fruta, leguminosas, cereais integrais, azeite, frutos oleaginosos e peixe gordo: "estes alimentos fornecem compostos com ação antioxidante e anti-inflamatória, como polifenóis, fibras e ácidos gordos ómega-3, que podem ajudar a modular processos inflamatórios associados à doença", realça. Além disso, uma alimentação rica em fibra pode contribuir para o equilíbrio da microbiota intestinal e para uma melhor regulação hormonal, aspetos que também têm vindo a ser estudados na endometriose.
Nutrientes ou grupos alimentares que merecem especial atenção na dieta de quem tem endometriose, segundo Mariana Coelho:
• Ácidos gordos ómega-3, presentes em peixes gordos como sardinha, cavala e salmão, associados a um efeito anti-inflamatório.
• Antioxidantes como as vitaminas A, C e E, bem como polifenóis presentes em fruta, legumes, azeite e frutos vermelhos, que ajudam a combater o stress oxidativo.
• Fibra alimentar, importante para a saúde intestinal e também para o metabolismo hormonal, podendo ajudar na regulação dos níveis de estrogénio.
• Vitamina D, que tem sido associada à modulação do sistema imunitário e inflamação.
• Magnésio, que pode ajudar na gestão de sintomas como dor e tensão muscular.
Tão importante quanto o que ingerimos, é também saber aquilo que não devemos comer ou pelo menos moderar na nossa alimentação. "Algumas evidências sugerem que padrões alimentares ricos em alimentos ultraprocessados, açúcares adicionados e gorduras trans podem contribuir para um estado inflamatório de baixo grau no organismo. Por isso, recomenda-se geralmente moderar o consumo destes alimentos, uma vez que tendem a ser nutricionalmente pobres e podem favorecer processos inflamatórios, que estão envolvidos na fisiopatologia da endometriose", adverte a nutricionista. Além disso, algumas mulheres relatam agravamento de sintomas gastrointestinais com certos alimentos, como álcool, cafeína em excesso ou alimentos muito processados. "Nestes casos, a abordagem deve ser sempre individualizada, já que a tolerância pode variar bastante de pessoa para pessoa", explica Mariana.
Sabemos que o ciclo menstrual traz consigo muitas mudanças hormonais no corpo da mulher e por isso deverá a alimentação sofrer alterações nesta altura do mês para quem tem endometriose? Mariana Coelho defende que não existe obrigatoriamente a necessidade de alterar a alimentação em cada fase do ciclo menstrual, mas no entanto, algumas mulheres podem beneficiar de pequenos ajustes de acordo com os sintomas que sentem em determinadas fases. Na fase lútea, quando muitas mulheres sentem maior fadiga, alterações do apetite ou retenção de líquidos, pode ser útil reforçar alimentos ricos em magnésio (como sementes, frutos oleaginosos e leguminosas), vitamina B6 (cereais integrais, banana e peixe) e proteínas de boa qualidade, mantendo um padrão anti-inflamatório para apoiar o equilíbrio hormonal e reduzir sintomas. "Mais importante do que mudanças rígidas ao longo do ciclo, é manter uma alimentação equilibrada, anti-inflamatória e adaptada aos sintomas individuais."
A endometriose continua a ser uma doença pouca falada e há muitas mulheres a conviver anos e anos com sintomas antes de receberem um diagnóstico. Informação é poder e por isso devemos estar atentas aos sintomas mais comuns da endometriose, tais como dor menstrual intensa, dor pélvica crónica, dor durante as relações sexuais, alterações intestinais ou urinárias durante o ciclo menstrual, fadiga e, em alguns casos, dificuldades em engravidar. "Muitas mulheres também relatam sintomas gastrointestinais, como inchaço abdominal, alterações do trânsito intestinal ou desconforto digestivo, o que pode tornar mais difícil a identificação da origem dos sintomas", acrescenta a nustricionista. Será possível a alimentação ter um papel relevante na descodificação dos sintomas associados à doença? "A alimentação pode não ser determinante para o diagnóstico, mas pode ter um papel muito importante na gestão dos sintomas, sobretudo ao ajudar a reduzir inflamação, melhorar o funcionamento intestinal e apoiar o equilíbrio hormonal."