"Senti que me tinha perdido no meio da maternidade e que nunca me ia voltar a encontrar"

O que significa ser mãe hoje? Nesta série de testemunhos, partimos dessa pergunta para explorar a maternidade nas suas várias dimensões - pessoal, cultural e política - e o papel, em constante mudança, das mulheres na sociedade.

Mãe e cria à beira-mar simbolizam a jornada da mulher na maternidade Foto: Getty Images
30 de abril de 2026 às 12:56 Beatriz Teixeira

Nunca tive muitas certezas sobre a maternidade. Não fui a criança ou adolescente que sonhava com isso, nem nunca estive muito rodeada de crianças mais pequenas ou bebés - o que geralmente ajuda a criar esse desejo. Na adolescência, lembro-me de até sentir o contrário: que não conseguia criar ligação com crianças e que não tinha vontade de brincar com elas, nem de as aturar. Pareciam-me chatas e demasiado honestas, birrentas. Além disso, sempre abominei a ideia de destruir (eu sei, pode ser forte) o meu corpo com uma gravidez. Vi-o na minha mãe, que sempre se queixou duramente do que a gravidez de gémeas lhe fizera às mamas e à barriga. E via-o noutras mulheres, com os seus relatos de partos assustadores com pipis que foram cosidos e vidas condicionadas. Soava-me a uma sentença de morte.

Tu morres ali e nasce outra. E o que isso tem de catastrófico, numa relação estável de vários anos com a minha pessoa favorita, passou a soar a um bom plano. Estar perto dos 30, com um emprego igualmente estável e rodeada de colegas de trabalho que me trouxeram outras visões mais felizes da maternidade (ainda que com os seus desafios) fez-me perceber que afinal o queria. Afinal, até queria morrer e nascer de novo. Especialmente se isso vinha com a possibilidade de vivenciar um amor que não tem explicação e, ao mesmo tempo, de me pôr tão à prova. Antes de ser mãe, já imaginava que ia sentir-me ansiosa com a questão do corpo, e isso só se comprovou. Detestei estar grávida, estava sempre cansada, com insónias, com dores nos pés, sem paciência, deprimida e com fome. A minha compulsão alimentar ficou ao rubro, isolei-me muito e engordei +25kg. Depois, também me surpreendi: ganhei mais apreço pelo corpo de antes (o mesmo que eu sempre tinha odiado) e percebi que não tinha medo do parto, queria muito vivê-lo. Sabia que o meu corpo nisso não me ia falhar. E sabia também que quando tivesse o meu filho nos braços, saberia tudo, mesmo sem saber nada.

PUB

No primeiro ano vivi em survival mode, engolia as dúvidas e punha só as mãos na massa, com uma paz inexplicável de quem só tem a certeza do que está a fazer. O meu cérebro continuava barulhento, as tarefas só aumentavam e as muitas questões existenciais que sempre tive continuavam todas lá, mas parece que adormecidas para dar lugar ao que verdadeiramente importa. O que é mais uma fralda com cocó, quando o nosso filho pode ficar tão febril que tem convulsões? O que é uma pia cheia de louça, se o nosso filho estiver nas urgências? Passei a descomplicar ainda mais, a confiar no meu instinto, a viver um dia de cada vez, a saber melhor o que merecia a minha energia - e o que nem por isso.

Depois do 1 ano, comecei a acusar pressão. As noite mal dormidas, o piloto automático constante, a vida em casal comprometida, as birras, o corpo que não ia ao sítio tão rápido quanto gostaria, os planos que não fiz, os jantares a que não fui, que rugas são estas que não tinha? As minhas conversas ainda são interessantes? Tudo parecia interminável e insuportável. Senti que me tinha perdido no meio da maternidade e que nunca me ia voltar a encontrar. Que o sacrifício a que me tinha proposto (foi assim que me pareceu estar grávida) me tinha mudado para sempre para pior. Que a minha vida estava resumida a biberões, motas e idas ao parque. Foi difícil admitir, mas percebi que nem sempre me apetecia ser mãe. Eu que sempre tive síndrome do impostor, mas que surpreendentemente ainda não tinha posto em causa o meu papel de mãe, passei a achar-me a pior do mundo. Afinal, quando tantas pessoas querem ser mães, por que estava eu chateada por ter de dedicar mais um sábado de manhã a brincadeiras com legos? Não era isso o melhor do mundo? As sessões de terapia têm ajudado a perceber que, até pode ser polémico, mas uma ida à praia sem berros nem horários soa-me muito melhor e está tudo bem com isso.

Aceitar que deixas de ter a liberdade de fazer o que te apetece quando te apetece é muito duro. Deixas de ser a prioridade, e por um lado ainda bem (as vozes da minha cabeça são tão chatas), mas custa muito passares a ter o tempo contado. Por outro lado, não significa que não adore o facto de sermos três, mas tenho muitas vezes saudades de quando éramos só dois. Lidei e lido com terapia. Quando o receio de não ser a melhor mãe chega, lembro-me que é precisamente por me questionar sobre isso que tenho a possibilidade de me tornar melhor - dentro daquele que é o meu contexto real, e não no universo perfeito que a minha cabeça um dia pintou.

PUB

Não sinto que seja propriamente difícil ser mãe. Acho que me foi muito natural tornar-me numa, ou pelo menos na mãe que sou. O que não sei fazer, aprendo e não tenho problemas em testar o que poderá funcionar melhor para a nossa família. Se errar, hei de eventualmente vir a acertar. Sou cada vez mais prática e acho que este papel me assenta que nem uma luva. Mas também não quero ser só mãe. Preciso do meu tempo, do meu espaço, do meu treino, da minha ida à praia, do meu livro, do meu shopping spree, da minha viagem com amigas, do meu sushi date. Chega a ser injusto pensar que, em gerações anteriores, houve homens que nem nunca mudaram uma fralda ou deram uma colher de sopa, e que isso nunca lhes deu um pingo da culpa que tantas vezes sinto.

O amor que sinto pelo meu filho lembra-me que o mundo pode parar. Costumo ironizar que a minha love language são atos de serviço, mas na maternidade estou a esforçar-me por não ser apenas a mãe útil que faz, e muito mais a mãe que está. Essa é a minha maior e mais difícil prova de amor.

leia também
PUB
PUB