Podíamos
tentar discutir o que é mais raro em Lisboa neste momento: apartamentos centrais
a menos de meio milhão de euros ou casamentos perfeitos, mas todos sabemos a
resposta. No ano em que comprei uma casa para a vida, desfez-se o outro contrato
que achava vitalício e ficou um dos mais belos planos que se pode fazer a dois,
um filho.
Quando uma
separação se torna inevitável, as escolhas que fizemos sob o efeito da poderosa
droga que nos viciou em alguém tão único quanto a cena final de Lost in
Translation vão testar todas as certezas que tínhamos na vida. Mas se há
coisa que crescer numa família disfuncional nos ensina – tem de haver um lado
bom – é que (quase) toda a gente perde o bom senso durante um processo de divórcio.
Pessoas que antes abraçavam os namorados ou namoradas carinhosamente
transformam-se em pequenos monstros que reclamam bens ao pormenor de açucareiros;
outras pedem guardas totais, subitamente apaixonadas por crianças que nunca
levaram à natação nem ao ballet; e outras ainda obrigam grupos de amigos a
decidir-se por um dos lados, como se a intimidade fosse uma batalha que se pode
ganhar.
Quando
fiquei grávida do meu primeiro e único filho, sem grande preparação ou
pensamento, senti uma euforia inexplicável, daquelas que não nos atraiçoa com
dúvidas ou inseguranças. Cinco minutos depois já fazia uma lista mental de tudo
o que podia correr mal. A separação do pai estava, naturalmente, no top 5, mas
houve uma coisa que me descansou imediatamente: eu escolhera a melhor pessoa da
qual algum dia me poderia separar. A intenção nunca foi essa, mas a minha cabeça,
tão avariada para preencher o IRS ou fazer listas de compras, sabia bem o que
fazia. Pouparíamos milhares em advogados e psicólogos e formaríamos aquele tipo
de parceria que muitos casais separados demoram anos a construir. E foi precisamente
essa nova ligação que assinámos a partir do dia em que decidimos dizer “I
don’t”.
“Os
casamentos vão e vêm, o divórcio é para sempre,” escreveu Nora Ephron, e eu
aprendi muito bem a lição. Quando existe um filho essa máxima é ainda mais
verdadeira. É preciso negociar, respirar fundo, encontrar meios caminhos e ter
discussões tão profundas quanto “de quem é a vez de mudar a fralda” ou “quem
pode ir à creche buscar a criança que está com 37,3°C de temperatura”, mesmo
depois de insistir três vezes com a auxiliar de educação “se abaixo dos 37,3°C
já é febre?” e ouvir do outro lado um suspiro telefónico. “Sim, mãe, tem de o
vir buscar antes da hora da sesta”, e o nosso dia acaba ali. É aqui que entram
as maravilhas da invenção moderna que é a guarda partilhada. Se é verdade que
as grandes decisões continuam a caber aos dois, e essas devem estar muito bem
traçadas à partida, há uma série de pequenos problemas que desaparecem como por
magia. É que, pelo menos durante metade do tempo, só estamos lá nós para os
resolver. Se antes nos impacientávamos com uma tarefa que nos parecia alheia,
agora só podemos ser nós a fazê-la, bem ou mal. E com isto ganhámos os 20
minutos que passámos impacientemente à espera que a outra pessoa tomasse iniciativa
e podemos ver a nova temporada da série Hacks. Final de um sábado feliz,
podem passar os créditos do filme.
Claro que
nada é tão linear como gostávamos, especialmente se se cresceu a imaginar uma família
em que os dois pais estão presentes. É provável que seja mais fácil para quem,
como eu, nunca viveu tal realidade, ou talvez seja o peso de uma sociedade que
continua a convencer as mulheres de que podem ter tudo. Família, carreira,
claro que sim, e até tempo para ir ao pilates e jantar com as amigas de vez em
quando. Até porque ninguém gosta de ver mães que não tenham tudo sob controlo,
impecáveis em tudo o que se espera delas, bonitas e competentes como antes, “se
todas conseguem, como é que tu não consegues”.
Num país em
que o número de pais que partilha a licença com as mães continua a cair e em
que nem metade dos homens usufruem do mês exclusivo com os seus bebés, a ideia
de um pai presente continua a ser uma miragem. Todos se dizem exceções, e eu
sei que elas existem porque tive um filho com uma, só que todas estas pressões
foram feitas para esmagar as mulheres e libertar os homens. E quando é mesmo
preciso que isso seja evidente, nem sempre o é, em particular se a carreira for
uma prioridade. Também aí, atrevo-me a dizer, a missão se torna mais simples,
organizam-se calendários, definem-se os dias de troca, dividem-se as marcações
dos médicos e as inscrições no judo. Esforço-me para trabalhar mais quando o meu
filho não está comigo e (tento) trabalhar menos quando está. Há acidentes de
percurso, refilamos com isto ou aquilo e seguimos em frente sem prolongar
discussões que na mesma casa durariam horas. O tempo que se ganha para sair,
ler, fazer exercício ou para simplesmente estar nunca compensará as saudades
que temos do nosso filho. Deixamos brinquedos espalhados aqui e ali para fingir
que ele está connosco, vemos vídeos de proezas às quais só nós achamos graça,
procuramo-lo na nossa memória para nunca deixarmos de ver os olhos enormes
cheios de perguntas. Mas também dormimos melhor, descansamos a imaginação de
que ele tanto gosta, distraímo-nos um bocadinho mais com os prazeres que sempre
tivemos. E depois, quando regressamos finalmente a ele, o mundo torna-se um
lugar melhor assim que o ouvimos dizer “mãe, não me apanhaaaaas…” Sabemos que é
verdade, mas agarramo-lo sempre contra nós mais um bocadinho.