Durante muito tempo achei que haveria um momento claro, inequívoco, em que decidiria não ser mãe. Uma espécie de epifania - um antes e um depois. Mas esse momento nunca chegou. E, ao mesmo tempo, consigo listar todas as razões do mundo. Ou então nenhuma. Porque, na verdade, também não foi aí que decidi não ser mãe.
A minha psicóloga disse-me uma vez que a natureza não é simpática para as mulheres. Estávamos sentadas naquele consultório todo amadeirado, com sofás plastificados - uma herança dos tempos pós-Covid - e eu tentava perceber-me: nunca quis realmente ser mãe? Ou não queria por causa de traumas que me atravessam (olá, pai)? Ir-me-ia arrepender de uma decisão que, qualquer que fosse, seria irreversível? O relógio na parede marcava os minutos com uma intensidade quase cruel e, de repente, parecia que não era o tempo da consulta que estava a acabar, mas o meu. O tempo da possibilidade de “gerar uma vida”.
Mais ou menos na mesma altura, tive “a” conversa com a minha mãe. “Mãe, por favor, pára.” Ela não fazia por mal. Mas cada “então, não vais ter filhos?” trazia de volta uma sensação amarga - a memória de uma gravidez que não continuou, de um corpo que senti como “estragado”, ainda que soubesse que essa palavra não me pertence. Nem eu sabia se queria, se podia, se teria coragem para voltar a tentar. Só sabia que não queria que aquele assunto deixasse de ser meu. Que se tornasse sobre ela, sobre o desejo de ser avó, sobre uma pressão silenciosa que tantas vezes se disfarça de amor.
“Mas explica-me”, perguntei-lhe um dia, “o que há assim de tão bom em ser-se mãe?” “É um amor maior do que tu”, respondeu. “É um orgulho gigante.” Aceitei. Mas não senti chamamento. E também não foi aí que decidi não ser mãe.
Lembro-me de sair daquele consultório nas traseiras da cidade de Lisboa - onde o mundo ficava suspenso - e ser engolida pelo barulho lá fora: turistas, música alta, copos, vozes. Como se houvesse sempre esta exigência de recomposição. De força. De engolir o que dói. E pensei: talvez seja assim que se faz. Talvez ser mãe seja isto, continuar apesar de tudo, secar as lágrimas dos outros enquanto se escondem as próprias.
Entretanto, o mundo à minha volta começou a dividir-se. Metade dos meus amigos tem filhos, ou quer tê-los. A outra metade continua a viver como antes. Cruzamo-nos, claro, mas já não habitamos o mesmo tempo. As manhãs são diferentes. As prioridades são diferentes. Tenho amigos que integram os filhos em tudo. Outros que escolheram outros caminhos, outras formas de cuidar. Tenho amigas que desejam profundamente uma família. Outras que desapareceram dentro da parentalidade. Gostava de dizer que não as julgo, mas seria mentira. E, ainda assim, também não foi aí que decidi não ser mãe.
O meu algoritmo sabe de tudo isto. Está cheio de vídeos sobre as maravilhas de não ter filhos. Repito, às vezes em voz alta (normalmente quando me sento em qualquer lado e consigo observar a dinâmica de uma família de filhos pequenos): não ter filhos foi a melhor decisão da minha vida. Mas basta abrir uma caixa de comentários para a dúvida ser projetada de volta: “vais arrepender-te”, “quem vai cuidar de ti”, “nunca estarás completa”. Porque é que incomoda tanto? Porque é que a escolha de não ser mãe parece sempre exigir defesa? Muitas vezes, confesso, do alto da minha arrogância, pensei que talvez haja inveja da liberdade. Outras vezes acho que é só medo - do que pode significar existir fora do guião. Também não foi aí que decidi não ser mãe.
Ao longo dos anos, ouvi confissões sussurradas de mulheres que são mães - boas mães - e que, ainda assim, carregam ambivalências. “Não me arrependo”, dizem, “mas se soubesse o que sei hoje…” Há uma honestidade rara nesses momentos. Uma quebra na narrativa dominante de que a maternidade é sempre o destino mais pleno. O mais completo. E aí voltamos a ser só duas miúdas que partilham segredos.
Infelizmente vivemos numa sociedade que mede o valor das mulheres pela capacidade - ou vontade - de ter filhos. Se não temos, somos egoístas. Se temos tarde, somos irresponsáveis. Se não conseguimos, somos defeituosas. Se temos, nunca fazemos o suficiente. Se é de parto normal ou cesariana, se amamentamos ou damos biberão. O julgamento é constante. O padrão, impossível.
Nunca me esqueci de uma cena em O Sorriso de Mona Lisa (2003) na qual Julia Roberts responde à pergunta “porque nunca casou?” com uma simplicidade desarmante: “porque nunca casei”. Sem explicações. Sem desculpas. Apenas isso. Brinquei com nenucos, com barbies, imaginei vidas inteiras em miniatura. Cresci a saber o que era suposto querer. Não fui mãe porque não fui, mas houve tanto que decidi ser. Amiga, namorada, madrinha, filha, irmã, colega. Jornalista, editora, comunicadora. Dona de demasiados pares de sapatos. Fatalista, às vezes. E mais: feliz.
No lugar da dor, escolhi alegria. E dizê-lo assim - sem rodeios - quase soa a uma decisão maior do que eu. Tantas vezes os corpos e as vidas emocionais das mulheres são contados a partir da falta, do sacrifício, da ferida. Eu (de forma privilegiada) recuso essa narrativa. Escolho outra linguagem. Outra história. Contada no meu corpo e na minha voz (e nas vozes que ficaram por dizer) - não sobre o que não aconteceu, mas sobre tudo o que aconteceu.
E que eu decidi.