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Beleza / Produtos

Fomos ver como é feito o famoso Chanel Nº5

Nos idílicos campos de jasmim e de rosas da família Mul, no Sul de França, desvendamos o processo que leva à produção daquele que é, possivelmente, o perfume feminino mais desejado de sempre: o Chanel Nº 5.

Foto: Chanel
24 de janeiro de 2024 Rita Silva Avelar

Nem mesmo um dia nublado, com o céu encoberto e chuva miudinha, um presságio da entrada no outono, tem poder para retirar um milímetro de beleza aos campos de jasmim que se estendem ao longo dos 30 hectares da propriedade dos Mul, em Pégomas, no meio do vale de Signe, na região de Provença-Alpes-Côte d’Azur. Desde 1987 que esta família de agricultores, cuja figura principal hoje é Joseph Mul (da quinta geração), produz jasmim em exclusivo para a Chanel, o chamado "ouro branco" que a maison descreve como "uma pequena estrela branca que se esconde do sol ao curvar as suas cinco pétalas". A poesia a que soa esta descrição faz jus à estética do Jasminum grandiflorum, uma planta que emana um aroma sedutor e enigmático, sobretudo se plantada aos milhares.

Joseph Mul
Joseph Mul Foto: DR

Até ser colhido, como comprovamos in situ, o jasmim é delicado: "É apanhado com as duas mãos ao mesmo tempo, de forma rápida e cuidadosa para não cair, com os dedos ligeiramente curvados, e com movimentos rápidos", explica Fabrice Bianchi, genro do Sr. Mul – apaixonadíssimo pelos campos e um dos especialistas a gerir a plantação durante todas as estações do ano, sem saturar os solos –, enquanto exemplifica. Estamos perante um terroir único, propício ao desenvolvimento do jasmim que aqui é plantado há décadas, porque as condições atmosféricas reúnem sol, calor, pouco vento e aliam-se a um solo argilo-calcário. "Corremos o risco de danificar tudo se não nos dermos ao trabalho de compreender as flores. Precisamos de arriscar, de testar e de pensar a longo prazo", nota Fabrice Bianchi. Parece-nos belo que assim possa ser.

Chanel Nº 5.
Chanel Nº 5. Foto: Chanel

Neste dia de visita aos campos, o sol sai finalmente de trás das nuvens ao meio­-dia, o almoço está servido e Olivier Polge, quarto perfumista na história da Chanel, reúne-se à mesa com amigos, jornalistas e influencers de todo o mundo para falar das suas criações de perfumaria, desde 2006. Enquanto saboreia um risoto de açafrão de Provence, o especialista, sentado ao meu lado, confessa, num semblante sonhador, que se não fosse perfumista seria pianista. Pergunto-lhe se o pai, Jacques Polge – perfumista histórico da maison durante 37 anos (1978-2015) e criador de bestsellers como Coco, Coco Mademoiselle, Allure, Chance, Chanel de Bleu e Chanel No.5 Eau Première –, o ensinou a treinar o nariz. Rindo-se, diz: "Não, nem pensar, nunca seria dele. Recomendou-me amigos da sua confiança, e estive vários anos a estagiar aqui nas fábricas e em muitos outros sítios." Na verdade, Polge passou quase metade da sua vida a estudar perfumes. A sua fragrância favorita, conseguimos arrancar-lhe, é o Chanel Nº 19. Aos terrenos dos Mul, que o pai descobriu nos anos 70 e com quem firmou o acordo de exclusividade que vigora hoje, vem uma vez por mês. Está mais próximo dos laboratórios em Paris, onde tem o hábito de ir diariamente, deixando as amostras a marinar de um dia para o outro, para depois as testar pela manhã, "quando tudo está fresco", conta. Tendências na perfumaria há muitas, "só não suporto as notas muito doces, nem as de musk". Ficamos a saber, mais tarde, que aprecia o aroma invulgar da íris, usada, também nos perfumes Chanel, tal como o gerânio ou a tuberosa. Polge enumera todas as recriações do célebre Nº5 Extract Parfum, criado em 1921 por Ernest Beaux a pedido de Gabrielle Chanel, e esclarece que em cada frasco de 30 ml há cerca de 1.000 flores de jasmim (jasmim exotique e de Grasse), e 12 rosas de maio (ou rose de mai), ambas plantadas nestas propriedades, e colhidas em alturas diferentes (a rosa, em maio, o jasmim de agosto a outubro), além de outros ingredientes.

Olivier Polge, quarto perfumista na história da Chanel.
Olivier Polge, quarto perfumista na história da Chanel. Foto: Chanel

Há várias razões para que o jasmim – o motivo que leva a Máxima, nesta visita, a contemplar de perto as suas plantações – seja um dos mais especiais ingredientes para a Chanel, e que tenha todo este protagonismo: 1 kg de jasmim representa 8.000 flores, apanhando cada colhedor cerca de 350 gramas de flores por hora. Depois da apanha, as flores seguem dentro de cestos de vime e, vestidos com parcas e botas de borracha, os colhedores alinham-se para pesá-las, um processo controlado pelo Sr. Mul, que ainda anota tudo num bloco com notável meticulosidade, recorrendo depois a uma balança antiga. Dali, as flores seguem para a fábrica, construída em 1988, onde a verdadeira magia acontece: são depositadas em grandes cubas, semelhantes às usadas com o vinho, para o processo de extração a altas temperaturas. Quando o solvente se evapora, as flores libertam todo o seu poder perfumado, transformando-se numa cera extremamente aromática, o "concreto". Para termos uma ideia de quão valioso é o jasmim, são necessários 350 kg desta flor para produzir 1 kg de concreto, e 1 kg de concreto rende 550 gramas da substância final: o chamado "absoluto" de jasmim. Este elixir é obtido quando o álcool é separado da substância perfumada, transformando-se num líquido extremamente concentrado utilizado nas fórmulas do Nº 5 e noutros perfumes da casa francesa. O resultado cabe-nos na mão e é poderosíssimo. Há algo muito enigmático num processo que se transforma num frasco, como se fosse uma poção mágica, para depois ser usado com rigor nos laboratórios, e transformado num outro frasco, que mais parece uma pequena obra de arte. Chegamos, enfim, ao Nº 5, que testamos a convite de Olivier Polge: uma gota aqui, outra ali, no pulso e no pescoço. Com método e com vaidade, e sobretudo com tempo. Um ritual de elegância que não se equipara a nenhum outro, como Gabrielle sempre quis que fosse.

O chamado `concreto´ de jasmim.
O chamado `concreto´ de jasmim. Foto: Chanel
*Artigo originalmente publicado na revista que celebra os 35º anos da Máxima.
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