Além da moda e do fetiche: a força das mulheres latinas. "A minha identidade sempre foi reduzida a algo sexual"

Desde domingo, o maior palco do mundo abriu espaço para canções em espanhol, e todos parecem finalmente escutar o que sempre esteve ali. Mais uma tendência ou um interesse genuíno? Entre cultura e resistência, este é o manifesto das mulheres que sempre "falaram alto demais" mas raramente tiveram voz.

Mulheres latinas unem-se num manifesto de cultura e resistência Foto: Getty Images
13 de fevereiro de 2026 às 11:01 Patrícia Domingues

Cindy Galván, 37 anos, food creator. Mexicana em Portugal há 10 anos. 

"Há uma diferença entre adotar uma estética e viver essa identidade. Muitos traços e estilos associados a mulheres latinas - lábios grandes, curvas, pele morena, certa forma de vestir - tornam-se 'tendência' quando os usa alguém que não é latina, mas não recebem o mesmo reconhecimento quando são nossas.

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Cresci a ver esses estilos como parte natural da nossa cultura, mas em mulheres latinas reais às vezes são julgados ou invisibilizados. Isso fez-me tomar consciência do quão injusto é: não é a estética, é quem tem permissão para a usar e ser celebrada. Mais do que raiva, foi um momento de consciência sobre como funciona a validação nos meios de comunicação e como, por vezes, se apropriam de estéticas sem reconhecer a sua história.  

Quando era adolescente comecei a aperceber-me deste fenómeno, especialmente quando comecei a viajar. Muitas vezes sentia que os homens, geralmente da minha idade, me viam mais como um objeto sexual do que como pessoa porque era latina, “sexy”, “quente”, e nada mais. Era estranho e desconfortável, porque parecia que não me levavam a sério; a minha identidade era reduzida a algo sexual. Foi uma experiência feia, sentir que o meu valor era medido apenas por essa ideia preconcebida.

Crescemos numa cultura aberta, onde expressar emoções, rir, falar, demonstrar entusiasmo faz parte do dia a dia. Não fervemos mais do que outras mulheres de outras culturas; simplesmente expressamo-nos de forma mais direta e intensa, e isso é parte da nossa identidade como latinas. O problema surge quando os media ou estereótipos transformam essa vivacidade em algo negativo.

Gostava que fossemos retratadas simplesmente pelo que somos: mulheres. Não somos mais nem menos do que qualquer outra mulher no mundo. Claro que temos culturas diferentes, e isso deve ser mostrado, mas de uma forma que respeite a diversidade de cada país da América Latina, sem nos reduzir a estereótipos.

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Hoje há mais visibilidade. Na verdade, acho que representação sempre existiu, o que mudou é que estamos a ser mais vistas. E isso é bonito. Quando era criança, a figura que mais me marcou foi Selena Quintanilla. Naquele momento, era uma das poucas latinas com verdadeira visibilidade internacional, e lembro-me de pensar 'uau'. Ver uma mulher latina ocupar aquele espaço era muito poderoso.

Mais tarde, artistas como Natalia Lafourcade também me marcaram, mas de outra forma pela autenticidade, pela sensibilidade e pela força tranquila com que representa a cultura mexicana. E hoje em dia, ver cada vez mais presidentes latino-americanas também é algo muito simbólico. Mostra que estamos a conquistar espaço em áreas importantes e que a representação vai além do entretenimento.

Na América Latina existe uma pressão grande para estar sempre arranjada, maquilhada, bem vestida quase como se fosse necessário estar perfeita para ser aceite. Os padrões de beleza sempre foram muito exigentes. Crescemos com a ideia de que precisamos de estar impecáveis para ter valor.

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Hoje arranjar-me ou maquilhar-me já não é um dever é uma escolha. Já não vem de uma pressão para ser aceite, mas de gostar de mim assim. Tenho muito orgulho em ser latina e em ser mexicana. Identifico-me com vários traços que muitas vezes são chamados de 'estereótipos', mas para mim fazem parte da minha identidade. Acho que a diferença está no ponto de partida: quando é uma imposição externa, torna-se limitador; quando é uma escolha consciente, torna-se força.

Momentos como o do Superbowl têm um impacto muito forte. No caso do Bad Bunny, senti que houve uma intenção clara de representar especialmente as mulheres do Caribe, muitas delas afrodescendentes que historicamente têm sido das menos visibilizadas, tanto dentro da própria América Latina como no mundo. Para mim, aquele halftime foi muito poderoso porque, apesar de falar de uma identidade caribenha específica, mostrou uma diversidade real de mulheres diferentes corpos, diferentes cabelos, diferentes formas de estar. Não havia um único padrão.

Eu não sou do Caribe, mas senti orgulho na mesma. Porque quando uma parte de nós é representada com dignidade e força, todas nos tornamos um pouco mais visíveis. E isso importa."

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