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Tardou, mas o tempo das mulheres artistas chegou

‘Tudo o que eu Quero’ — Artistas Portuguesas de 1900 a 2020 é o título da exposição do Museu Calouste Gulbenkian que, a partir de 2 de junho, mostra a obra de 40 artistas portuguesas. Os curadores aludem a uma necessidade de reparação do apagamento das mulheres na História.

Grada Kilomba, 'A World of Illusions', 2019
Grada Kilomba, 'A World of Illusions', 2019 Foto: © Cortesia da Artista
02 de junho de 2021 Joana Moreira

Helena Almeida, Paula Rego, Aurélia de Sousa, Lourdes Castro, Joana Vasconcelos ou Grada Kilomba. São apenas algumas das artistas portuguesas cujo trabalho pode ser visto até 23 de agosto, com entrada livre, na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa.

Helena Almeida, 'A casa', 1979
Helena Almeida, 'A casa', 1979 Foto: © Ar.Co

"Por trás desta exposição há uma ideia política", admite Helena de Freitas, curadora da exposição com Bruno Marchand, durante a visita guiada à imprensa, e "integra-se no movimento já vasto de reparação do histórico apagamento das mulheres no mundo das artes plásticas".

A exposição, uma iniciativa do Ministério da Cultura a propósito da Presidência Portuguesa da União Europeia, tinha estreia prevista no Palais des Beaux Arts de Bruxelas (Bozar) e estava apontada para chegar a solo nacional apenas em 2022. No entanto, um incêndio em janeiro acabaria por consumir as várias salas na Bélgica onde seriam exibidas as obras de 40 artistas portuguesas de 1900 a 2020. Assim, antecipou-se a mostra em Lisboa.

Lourdes Castro, 'Sombra projectada de Christa Maar', 1968
Lourdes Castro, 'Sombra projectada de Christa Maar', 1968 Foto: FCG Paulo Costa

All I want, ou em português Tudo o que eu quero é uma interpretação livre das palavras de Lou Andreas-Salomé (1861-1937), ensaísta e psicanalista que se debruçou sobre o lugar das mulheres em diferentes espaços. "É uma preposição de força e vontade", diz a curadora, que lembra como a exclusão das mulheres dos espaços artísticos "é uma História escandalosamente recente. As mulheres só puderam entrar na Escola de Belas Artes em Portugal em 1870. Há um caminho de reparação a fazer. Estas exposições são importantes para tomadas de consciência, para começarmos a pensar."

Apesar de as questões de género dominarem as conversas em torno da mostra, Bruno Marchand garante que "não deixa de ser uma extraordinária exposição de artes visuais, e é isso que queremos sublinhar. Aquilo que é preciso tirar da frente é que não há nenhuma razão qualitativa para a disparidade de representação entre géneros na Arte. A qualidade das obras das mulheres artistas portuguesas não é discutível. A raiz do problema não está aqui." O curador acredita que "dar atenção a esta realidade é a forma de começar a transformar a mentalidade que possa advir mais tarde ou mais cedo, esperemos que mais cedo, de uma paridade e uma igualdade entre géneros".

Aurélia de Sousa, 'Autorretrato', 1900
Aurélia de Sousa, 'Autorretrato', 1900 Foto: © Museu Nacional Soares dos Reis / Manuel Palma

"Não há nenhuma razão qualitativa para a disparidade de representação entre géneros na arte."

Perante uma exposição que "não é um inventário de artistas nem um dicionário de artistas", descobrem-se personalidades cujo trabalho dialoga entre si. Aurélia de Sousa (1866-1922) inaugura a primeira sala (de duas), com um autorretrato. É uma autora "que reinverte o olhar", teoriza a curadora. "Foi completamente focada na sua autorrepresentação e naquilo que ela representava, que é de facto uma afirmação de autora e de criadora, invertendo um pouco toda a História das mulheres enquanto modelos, enquanto musas. De facto, em toda a História as mulheres estão presentes nessa condição de ser olhadas." É a obra mais antiga ali presente e que sinaliza precisamente essa passagem de mulher-musa a mulher-criadora. "É um ponto de partida para a exposição", diz Bruno Marchand.

Gabriela Albergaria, 'Árvore cortada em cubos e montada em linha', 2018-2021
Gabriela Albergaria, 'Árvore cortada em cubos e montada em linha', 2018-2021 Foto: © António Jorge Silva

Em diálogo com a obra da pintora luso-chilena está o trabalho de uma outra pintora, menos conhecida: Rosa Carvalho (1952). A artista "coloca o dedo na ferida relativamente a esta questão do apagamento da mulher na História da Arte, quando toma pinturas clássicas, de referência, e replica totalmente a pintura, mas subtrai o modelo. O modelo sai de cena. E este sair de cena é um gesto que marca a nossa postura relativamente à questão da sub-representação da mulher ou do excesso de presença na História enquanto musa e não criadora. O lugar da mulher sempre foi considerado como a reprodutora, incapaz de criação", lembra Helena de Freitas. Nas paredes vemos reproduções de Rembrandt, Goya ou Velásquez, em que Carvalho extrai a figura – sempre central – feminina.

Ângela Ferreira, 'Talk Tower for Ingrid Jonker', 2012
Ângela Ferreira, 'Talk Tower for Ingrid Jonker', 2012 Foto: © Francis Ware

Entre as mais de 200 obras patentes estão pinturas, esculturas, desenhos, gravuras, fotografias, vídeos e instalações. As disciplinas não estão afastadas, mas antes perfeitamente enquadradas quando os temas o sugerem. Na mesma sala, em frente às mãos de Aurélia de Sousa, por exemplo, está uma obra de Armanda Duarte (1961). Chama-se "cabeça, tronco e membros" e é uma linha de madeira erguida, exatamente da altura da artista, que virá, duas a três vezes por semana, lixar a obra até que esta desapareça e reste apenas o pó marcado pelos seus sapatos. Um ato performativo sobre o aparecimento das obras e do seu apagamento.

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