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Paula Rego, 1935-2022

Multidimensional na obra, caleidoscópica na personalidade, Paula Rego era génio e inocência, transgressão e compaixão. A pintora morreu aos 87 anos.

Foto: Pedro Ferreira @ 2009
08 de junho de 2022 Maria Afonso

Quando, no final de Abril, o Museu Picasso de Málaga inaugurava a exposição Paula Rego (patente até 21 de Agosto), Nick Willing justificava a ausência da mãe, adiantando que se encontrava a recuperar de uma cirurgia. Mas à medida que a conversa se transformou em visita guiada pelas salas do museu espanhol a consternação causada pelas notícias da debilidade da pintora foi dando lugar às considerações sobre a vitalidade da sua obra. Porque, entre as muitas sensações que o talento de Paula Rego faz despertar, vai sempre imperando essa sensação de vida. Mesmo quando o tema é a (sua) morte.

Nascida em Lisboa a 26 de janeiro de 1935, no seio de uma família republicana e liberal, Paula Rego cedo trocou a terra natal por Inglaterra. Coube ao pai, José Figueiroa Rego, assumido antifascista, a decisão de inscrever a filha numa escola de Kent, onde terminou o liceu. "Aos 16 anos, mandou-a para Londres, por considerar que Portugal não era um sítio para uma mulher crescer", explicava Elena Crippa, comissária da exposição patente no museu da Andaluzia, curadora das coleções de arte moderna e contemporânea da Tate Britain, e também a grande responsável pela retrospetiva apresentada neste museu britânico no ano passado. Entre 1952 e 1965, Paula estudou pintura na Slade School of Fine Art onde conheceu Victor Willing, com quem viria a casar em 1959. Terminados os estudos, o casal viveu entre Portugal e Inglaterra. Em 1972, acabaram por fixar residência em Londres, cidade onde a artista faleceu esta manhã, em casa, junto aos três filhos. 

Hoje considerada uma das mais influentes e reconhecidas artistas plásticas portuguesas, Paula Rego tem um percurso longo e profícuo, ainda que a sua visibilidade tivesse demorado a chegar: só aos 53 anos teve a primeira grande exposição individual. É o próprio filho que recorda uma mãe silenciosa, movendo-se discretamente num ambiente artístico, tantas vezes elitista e demasiadamente masculino. Paula perseverou. Em 1969 representou Portugal na Bienal de São Paulo, palco onde regressou em 1985, desta feita em representação da Grã-Bretanha. Em 1988, ano da morte do seu marido, apresentou exposições individuais na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa (instituição que hoje é a mais principal colecionadora da sua obra), no Museu de Serralves, no Porto e na Serpentine Gallery, em Londres. Em 1990 tornou-se na primeira Associate Artist da National Gallery, na capital inglesa. Seguiram-se numerosas retrospetivas, entre elas na Tate Liverpool (1977), no Museo Nacional Centro de Arte Reina Sofia em Madrid (2007), no Museu de Arte Contemporáneo de Monterrey e na Pinacoteca do Estado de São Paulo (2010-11), no Musée de l’Orangerie em Paris, já em 2018. Já este ano, foi a única portuguesa convidada para a 59ª edição da Bienal de Veneza, onde apresentou a exposição The Milk of Dreams. Além do museu dedicado ao seu trabalho, Casa das Histórias, inaugurado em Cascais em 2009, foi distinguida com vários galardões, entre eles o Prémio Turner, em 1989, e o Grande Prémio Amadeo de Souza-Cardoso, em 2013. Em 2010, a Rainha Isabel II concedeu-lhe a Ordem do Império Britânico com o grau de oficial e, em 2016, foi distinguida com a Medalha de Honra da Cidade de Lisboa.

Considerada uma das 25 mulheres mais influentes do ano pelo Financial Times em 2021, Paula Rego nunca perdeu uma certa ingenuidade, tantas vezes tida como quase infantil, até pela forma peculiar como Paula se expressava. Em entrevista a Anabela Mota Ribeiro, no livro Paula Rego por Paula Rego (Temas e Debates), confessava à jornalista que nunca se lembrava dos seus sonhos: "Não gosto de acordar. Tenho medo. A minha vida é medo. Medo, medo". Era a pintar que enfrentava os seus demónios. No dia da sua morte, nas muitas reações de pesar que as rádios portuguesas foram partilhando ao longo da manhã, essa singularidade, marcada por uma pureza pueril, algo entre o deslumbramento e o choque, foi repetidamente assinalada. A tal "capacidade para ver o mundo inteiro como se fosse um país estrangeiro", em tempos destacada pelo crítico cultural Edward Said e evocada por Elena Crippa, no texto que abre o catálogo da exposição Paula Rego.

Deslocada, inadaptada, desconcertante, sempre fiel à urgência da sua verdade, Paula Rego cedo desenvolveu um acutilante sentido crítico de justiça social, traduzido ao longo de décadas na sua obra. Uma arte que, como a própria autora definiu, ajuda a entender a vida. A vida pessoal, tantas vezes convocada para os seus quadros (caso da série Possessão, de 2004, em parte inspirada pela depressão com que a pintora se debateu), mas também a vida de um país. O país que ela deixou, mas cuja história acabou por moldar a sua identidade artística. Se, por um lado, é impossível não mencionar a série Aborto, de 1980, criada no lastro da discussão pública em torno da legalização da interrupção voluntária da gravidez, por outro, é incontornável recordar a forma como retratava tão desassombradamente marcas e memórias de uma certa portugalidade (como na obra As Criadas, de 1978).

"Rego dedicou sempre a sua arte a visualizar o invisível das histórias das mulheres e do seu próprio inconsciente", escreve Crippa, acrescentando que, tantas vezes, tantos quadros, são verdadeiras viagens de vingança e de autoempoderamento, exercícios da rebeldia que sempre caracterizou a pintora que, continuadamente, recorria à arte para expressar aquilo que nem sempre era possível na vida real. "Uma verdadeira heroína", não hesita a curadora da Tate Britain, especialista na obra de Paula Rego, reconhecendo à obra da pintora uma intrínseca dimensão feminista. Também Gabriela Canavilhas, ex-ministra da Cultura, em declarações à Rádio Observador, mencionava essa sedução quase inevitável que a obra de Paula Rego exerce sobre as mulheres. Um fascínio desconcertante que, ao invés de obrigar a desviar o olhar, nos faz mergulhar fundo na obra à procura de um sentido que, mesmo quando calado, é sempre partilhado.

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