Atual

Paixão, uma insanidade tolerada?

"Na paixão não existe assim-assim, não há meio-termo. A queda, em potência, tem de ser fatal."

Foto: Fotografia de Rui Aguiar. Realização de Maria A. Ruiva. Edição 370 da Máxima [julho de 2019].
15 de setembro de 2020 | Cláudia Lucas Chéu

Comecemos pelos clichés do apaixonado: a adrenalina e a obsessão, que lhe retiram capacidades para fazer seja o que for, fora do circuito hipnótico exercido pela pessoa desejada. Haverá quem nunca tenha passado por estes sintomas, que não indicam uma doença mas que requerem uma cura? Não há especificamente uma bula a seguir, mas a terapêutica de apaziguamento mais comum é tentar satisfazer o desejo amoroso, exigindo comunicação e/ou presença (física) até se extinguir a paixão ou até se passar para o nível seguinte: o amor ou a saída de emergência. A palavra paixão (de origem grega, deriva de paschein) significa padecer de uma determinada ação ou do efeito de algum evento. Algo que acontece à pessoa, independentemente da sua vontade ou mesmo contra ela. De paschein derivam pathos e patologia, sendo que pathos designa tanto emoção como sofrimento e doença. As paixões, entendidas como emoções, mobilizam a pessoa, impondo-se à sua vontade e à sua razão. Não é por acaso que em algumas línguas, por exemplo em inglês, apaixonar-se significa cair (to fall in love ou cair de amores). Digamos que uma pessoa tem uma vida estável: um emprego, amigos, algum dinheiro, de vez em quando tem um encontro sexual, diverte-se, etc. De repente, surge alguém que quebra inesperadamente esta rotina equilibrada. Por vezes, acontece num encontro casual e muda a vida toda desta pessoa; nada será o mesmo dali em diante. Para os mais esotéricos, o passado foi desenhado de forma a que tudo conduzisse àquele momento, em que se encontra a pessoa. Segundo Slavoj Žižek (2015), o que se passa atualmente é que não queremos pagar o preço devido, ou seja, queremos a paixão, to fall in love, mas receamos a queda; e ficamos com o equivalente a querer uns sapatos de salto alto, sem o prejuízo na coluna vertebral. Todavia, não podemos destituir a coisa da sua essência. Na paixão não existe assim-assim, não há meio-termo. A queda, em potência, tem de ser fatal.

Comparemos o estado da paixão à osteoporose transitória, sofrida por algumas grávidas, normalmente manifesta na zona das ancas. No caso das grávidas com osteoporose, com a devida terapêutica, é frequente solucionar-se o problema ao fim de dois ou três meses. No caso da paixão, não foi ainda determinada cientificamente a duração do estado de demência que leva os humanos a cometer actos inusitados, mas estima-se que não ultrapasse os 18 meses. Depois, por razões de sobrevivência (associadas à habituação biológica, com perda de capacidades de percepção), o apaixonado vai-se desligando aos poucos da coisa desejada, até passar para outro nível. Caso contrário, a insanidade associada à paixão tornar-se-ia irreversível, crónica; uma condenação. Na paixão, o desejo é um movimento que faz passar estranhos fluxos que não se deixam armazenar numa ordem estabelecida. É um acto revolucionário (em potência), porque entra em desacordo com as convenções sociais; mesmo que permaneça em segredo. Há aqui também o desejo utópico, do todo, no qual não se deseja simplesmente a pessoa, mas também a paisagem que envolve a pessoa. O apaixonado quer desvendar a paisagem que desconhece e enquanto a paisagem não for revelada, o apaixonado não satisfaz na totalidade o seu desejo amoroso.

De uma forma geral, os actos dos apaixonados são avaliados com condescendência pela sociedade. Há uma espécie de pena suspensa ditada pela vox pop. Perdoa-se tudo, afinal a pessoa não teve culpa ou controlo, estava apaixonada. Raras terão sido as vezes em que alguém apaixonado tenha consultado um médico, queixando-se de uma doença. E muitas vezes, os supostos enfermos sofrem de alterações de apetite, humor e/ou sono. No entanto, consideram tratar-se de um estado normal, por estar associado à paixão. A insanidade transitória do apaixonado é tolerada socialmente, talvez porque não poderíamos medicar toda a espécie humana, que numa ou noutra circunstância já passou por este estado. Seriam precisas cidades-hospital.

*A cronista escreve de acordo com o Acordo Ortográfico de 1990. 

Saiba mais Cláudia Lucas Chéu, A Flor do Cacto, Crónica, Atualidade, Debates, Temas, Conversas, Feminismo, Sexualidade, Ingrid Bergman
Relacionadas

Ser mínima para ser máxima

"Há meses que (re)visitamos recantos emocionais, cada um à sua velocidade e, sem dar por ela, confinados à nossa própria existência, fomos obrigados a parar. O que é uma grande chatice ou pode ser uma grande ideia."

A era da fluidez sexual

Ser-se heterossexual, gay ou lésbica está ultrapassado? A crer no comportamento da Geração Z, está. Para ela, as fronteiras das preferências sexuais esbatem-se e o que importa é a pessoa em si. A maior abertura da sociedade para perceber identidades e sexualidades não normativas está a compor um futuro muito mais livre para os jovens. Livre também de definições vitalícias.

Existe um “gene do amor”?

Uma investigação recente demonstra que o gene CD38 pode influenciar os nossos comportamentos e dinâmicas numa relação amorosa.

A idade do outono: o que estamos a fazer com os mais velhos?

"A pandemia só veio tornar evidente o abandono social dos mais velhos. É como os trabalhos que trocam os experientes pelos estagiários que fazem tudo o que for preciso; é como os homens que trocam as mulheres do seu tempo pela namorada mais nova que bate palmas a tudo o que diz."

Fobia a pessoas feias

“Pode parecer ficção de nível paranóico, mas existem pessoas que sentem um medo irracional, pavor, pânico de se cruzarem com alguém que considerem feio.”

Mais Lidas