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Ousadia e classicismo na relojoaria de luxo

Arrojo, arte e muito requinte são conceitos chave na Alta Relojoaria. Em Genebra, de 30 de março a 5 de abril, no Salão Watches & Wonders, algumas das grandes marcas do setor apresentaram as suas propostas para 2022, com as preocupações ambientais em fundo.

Foto: Watches and Wonders
05 de abril de 2022 Maria João Martins

Sabia que o relógio de pulso nasceu para evitar que as senhoras da alta sociedade imitassem o gesto tido por masculino (e, afinal, revelador do busto) de tirar o relógio do bolso para ver as horas? E que o best-seller de uma marca de topo na relojoaria como a Tag Heuer continua a ser Monaco Gulf, o modelo usado pelo ator Steve McQueen (1930-1980) no filme Le Mans ? Na Alta Relojoaria, o storytelling continua a ser fundamental para o sucesso já que, ao investirem numa peça tão cara, quase sempre destinada a passar de geração em geração, como uma joia, os compradores adquirem tanto o conceito e o simbolismo como um conjunto de características técnicas. Num tempo em que quase tudo é volátil, feito para durar pouco, o que torna este setor, em que a mecânica ainda tem a primazia sobre o digital, tão rentável e atrativo?

Algumas soluções para este mistério foram sendo apresentadas no salão Watches & Wonders, que decorreu em Genebra de 29 de abril a 5 de maio, o maior e mais diversificado de sempre da especialidade. Nesta primeira edição presencial após a interrupção ditada pela pandemia, aos participantes históricos, como o grupo Richemont, detentor de marcas como Cartier, Jaeger-LeCoultre ou Montblanc, juntaram-se outros pesos pesados como a Rolex, Patek Philippe, Vacheron, Chopard ou TAG Heuer, mas também marcas independentes como a Oris, somando um total de 38 expositores que apresentaram a profissionais e jornalistas as novidades do ano.

O classicismo de muitos dos modelos mais bem sucedidos destas marcas não significa, porém, que a inovação quer técnica, quer estética esteja arredada. Nesta edição, a policromia tornou-se tendência, com o desejo de conquistar um público mais jovem, que sabe (e pode) conciliar o luxo com o melhor do streetwear. Em conjugação com o ouro, surgem o amarelo e o rosa, vários tons de cinzento para o aço, platina e titânio. Mas a cor soberana, em todas as variações possíveis, é o azul, que vai do turquesa ao ultramarino, em mostradores e braceletes. 

A tendência não é de hoje, mas 2022 assinala a consagração deste fenómeno, que conquistou o mercado do luxo depois de se afirmar, com preços bem mais acessíveis, com marcas como a também suiça Swatch. Nesta edição, a Cartier apresentou um Santos bicolor, metade em aço, metade azul, da luneta ao mostrador passando pela bracelete em borracha. Mas se o Santos, sobretudo no formato extra-large tem muito sucesso entre os homens, a Cartier aposta também no público feminino, com uma versão renovada do Panthère, em ouro rosa, com um mostrador em tons de ameixa, que muda conforme a incidência da luz, graças ao trabalho desenvolvido na superfície do relógio.

Cartier Panthère
Cartier Panthère Foto: Cartier

Mas inovação estética não passa apenas pela diversificação do pantone das peças, sejam elas mais clássicas ou modernas. Outro aspecto em franca expansão criativa é a textura, cada vez mais diversificada. Bons exemplos dessa tendência são os novos modelos da Chopard, que exploram a sua imagem de marca (os diamantes móveis no mostrador, os chamados happy diamonds) de novas formas (na linha Happy Sport, por exemplo) ou o Lady Arpels, o exuberante modelo floral da Van Cleef & Arpels.

Chopard
Chopard Foto: Watches and Wonders

Também a duplamente centenária Vacheron Constantin (foi fundada em 1755) glosou este mote, apresentando uma nova série, Les Cabinotiers – Les Royaumes Aquatiques. Ao longo da sua História, a marca tem estado ligada ao mar, sendo responsável pela criação de cronómetros marinhos, consciente de que este equipamento era indispensável para calcular a longitude no mar. Fiel a esta tradição, a série Royaumes Aquatiques inclui 3 peças únicas: Tartaruga, Cavalo Marinho e Flying Dutchman, o Navio Fantasma, todas elas combinando técnicas de pintura em miniatura, gravura, esmaltagem, engaste de pedras preciosas, com mecanismos relojoeiros. Para além disso, Les Cabinotiers apresentam mais um modelo em estreia na própria Vacheron Constantin: o Cronógrafo monobotão com rattrapante, turbilhão e repetição de minutos. 

Vacheron Constantin Cavalo Marinho
Vacheron Constantin Cavalo Marinho Foto: Watches and Wonders

Como não podia deixar de ser, outra das "estrelas" do Watches & Wonders foi a Rolex, que apresentou o novo GMT-Master II, que traz como grande inovação a coroa deslocada para a esquerda, apropriada para quem gosta de usar relógio na mão direita – dessa forma, é possível dar corda ou ajustar o horário sem o tirar do pulso. O calibre deste relógio é o 3285, com 70 horas de reserva de marcha e, como todos os da marca, com cronómetro Superlativo. A caixa é de 40 milímetros e o disco de luneta giratória é em Cerachrom. Mas a Rolex apresentou ainda versões atualizadas do Day-Date, do Air King e do Yacht-Master. 

Rolex Day-Date
Rolex Day-Date Foto: Watches and Wonders

Outro gigante, a Tag Heuer, desde sempre muito ligada ao mundo automóvel (recorde-se que o piloto brasileiro de Formula 1, Ayrton Senna, foi um dos mais carismáticos embaixadores da marca) trouxe ao Salão duas novidades que fazem jus a esta tradição: o Carrera Porsche e a nova versão do Monaco Gulf, ambos em edições limitadas.

Neste mundo dominado pelos gigantes de Genebra, a Oris, com sede na cidade suiça (mas na zona de língua alemã) de Hölstein desde a sua fundação, em 1904, mantém a independência, com um espírito muito próprio. No Salon apresentou-se com aquilo a que chamam a sua alegria mecânica, o ProPilot X Calibre 400, modelo que se apresenta com um calibre automático de elevado desempenho. Concebidos internamente pelos engenheiros especializados da marca, os movimentos da Série Calibre 400 são todos antimagnéticos, apresentando uma reserva de marcha de cinco dias e uma garantia de 10 anos. A Oris faz gala, aliás, de manter uma relação próxima com os consumidores fiéis da marca, com várias iniciativas, entre as quais os clubes sociais. Existem em vários pontos do mundo (incluindo Portugal) e promovem iniciativas relacionadas ou não com o universo dos relógios. No nosso país, uma das últimas atividades passou pela limpeza de praias, que se tornou uma das bandeiras da marca.

Oris ProPilot X Calibre 400
Oris ProPilot X Calibre 400 Foto: Watches and Wonders

Uma das preocupações que dominou esta edição do Watches & Wonders foi justamente a responsabilidade ambiental destas empresas. Embora o setor do luxo, até pelas quantidades produzidas e pela longevidade garantida dos artigos, seja menos crítico do que os envolvidos na produção em massa de consumíveis de rápida substituição, a questão foi colocada várias vezes. A Chopard, que faz do trabalho com diamantes um dos seus elementos de identidade, assegura que só trabalha com minas na África do Sul, que atestem, por um lado, salvaguardar as boas condições de trabalho dos seus mineiros, e, por outro, a sustentabilidade dos meios utilizados. Outras marcas, como a Vacheron Constantin ou a Rolex participam e apoiam programas de preservação da Natureza e a Oris aposta sempre que possível em recursos locais para reduzir as emissões de carbono associadas ao transporte de materiais. 

Em 2022, vai longe o tempo em que um editorial do The New York Times proclamava: "O relógio de pulso é a moda do momento. Esta é a jóia mais útil que foi inventada nas últimas décadas". O que este empolgado jornalista talvez não esperasse é que, mais dum século depois, esta fosse muito mais do que uma moda do momento. Uma verdadeira questão de arte e património, à prova de caprichos.

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