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Os crimes mais chocantes da história portuguesa. "A primeira vez que tivemos um serial killer foi um verdadeiro tumulto"

No seu novo livro, a jornalista Rita Marrafa de Carvalho detalha oito casos mediáticos dos crimes de sangue cometidos por portugueses, num olhar ainda mais atento aos contornos de cada um, dos mais antigos como "O Mata Sete" aos mais recentes, como o "Monstro de Beja".

Foto: Raquel P. Fonseca
05 de novembro de 2021 Rita Silva Avelar

Como a série documental Depois do Crime, exibida na RTP, teve tanta receptividade, Rita Marrafa de Carvalho voltou às histórias dos crimes de sangue mais emblemáticos da história portuguesa, e onde muitas vezes se coloca não só como investigadora mas também como espetadora de primeira fila, dando pormenores que o leitor dificilmente irá encontrar noutro lado. Jornalista desde os anos 2000, acompanhou alguns destes casos mediáticos sobre os quais escreve, como o "Monstro de Beja" ou o "Maria das Dores", e outros fora do território dos crimes de sangue como o processo Casa Pia.

Editado pela Casa das Letras, é uma visão dos factos escrita, para ler com a avidez que o género pede, e descobrir pormenores inóspitos e sórdidos sobre estes casos que marcaram Portugal nos últimos 30 anos.

Descreve detalhadamente os crimes de sangue mais impactantes em Portugal. Que lado voyeur da humanidade é este, que se atrai por crimes como os que descreve neste livro?

É uma característica do ser humano. Querer conhecer aquilo que para nós é o mais tenebroso da escala da humanidade, e que passa pelo ato de tirar a vida a alguém. E como se vive com isso, como se faz, como se chega a esse ponto. A partir do momento em que alguém comete um crime de sangue, que tem um determinado contexto de violência, temos tendência para o apelidar de "monstro". Isto reflete bem a nossa concepção entre aquilo que é aceite como humano, enquanto estrutura moral, empática, emocional, e o momento em que o ser humano mata outro, e que perde todas essas características de humanidade. Ou aquilo que o define enquanto nosso reflexo, nosso par, nosso irmão de espécie. E isso é muito apetecível em termos de interesse por parte das pessoas em geral. Porque é irreversível e porque mexe com muitos conceitos internos, como a culpa. Como se vive com a culpa? Como se teve coragem? Como se resolveu o desespero? Como se chegou àquele ponto de violência? Todos estes elementos despertam curiosidade a todos, e não é exclusivo dos portugueses.

E os portugueses, em particular?

Durante muitos anos não fomos um país habituado a crimes de grande proporcionalidade, quer na forma de matar quer no número de mortos que se executavam em crimes desta natureza. A primeira vez que tivemos um serial killer foi um verdadeiro tumulto. A primeira vez em que houve um mass murder, foi um desvio grande da nossa norma – porque sempre vivemos num país recatado relativamente a outros países, com menos violência. A curiosidade e o fascínio vêm daí. Mas não há habituação possível… haverá sempre uma sedução grande pelo true crime, e pelos detalhes deste.

Quis dar um outro lado da série documental, com este livro?

A grande diferença entre a série documental e o livro é entre eles e o "eu". A série é puramente factual, e o meu "eu", enquanto personagem jornalística só existe de forma transparente, porque é um trabalho meu. Mas eu não apareço, a minha voz não surge, as minhas concepções e análises não aparecem. Eu fiz, eu vi, eu senti, mas só as pessoas envolvidas tinham importância para que documentalmente fosse apenas isso: os factos. O livro tem aquilo que falta à série, que é o detalhe pessoal de quem foi aos sítios, de quem analisou muitas notícias e foi a muitas audiências, de quem falou com as pessoas – que fui eu, com uma análise e um olhar de quem tem uma envolvência. No livro está espelhado um processo que é muito mais pessoal do que a série.

Depois do Crime, de Rita Marrafa de Carvalho, Casa das Letras.
Depois do Crime, de Rita Marrafa de Carvalho, Casa das Letras.

É uma sensação de ingratidão quando não se consegue contar tudo sobre a história?

Há uma sensação de ingratidão que acontece quando se tem uma imensidão de informação e só há 50 minutos de episódio. Havia muita coisa que ficava de fora, que nem tinha espaço na estrutura do Depois do Crime em televisão, como por exemplo o e-mail completo que o Militão me enviou ou o telefonema que o padre Frederico me fez depois da entrevista. Estes detalhes não têm forma de encaixe nem acrescentam muito mais à história, mas faziam sentido e eu tinha essa necessidade de os partilhar com o público que gostou da série.
Luís Miguel Militão, o assassino dos seis empresários portugueses mortos em Fortaleza, Brasil, na cadeia.
Luís Miguel Militão, o assassino dos seis empresários portugueses mortos em Fortaleza, Brasil, na cadeia. Foto: DR

Como foi regressar a estas histórias, a estas pessoas?

A série incidia nisso: descortinar o que aconteceu a estas pessoas quando o foco mediático deixou de lá estar, se a reinserção social funcionou, se as indemnizações foram pagas, como estão as famílias das vítimas, e os que cometeram os crimes. Todos eles tiveram finais diferentes, e agrupá-los é difícil porque todos tiveram motivações e traços de psicopatia ou sociopatia diferentes. Alguns têm coisas em comum, como o Militão e a Maria das Dores, ambos mandaram matar, em ambos a motivação era financeira, e em ambos há uma mitomania, uma necessidade de ascensão social. Há algo curioso, no entanto: é que de todos estes casos só um indivíduo cometeu suicídio na prisão. De resto, ou cumpriram pena, saíram e não voltaram a matar ou a cometer ilícitos criminais, ou ainda estão nas prisões.

Diria que, sobre isso, conclui-se o quê?

A ideia de que ninguém aguenta viver com esta dor, ou com esta culpa, não é bem verdade. Só Francisco Esperança se matou na prisão.

Qual foi o caso, dos que expõe, que mais a intrigou?

Refiro dois, por motivos diferentes. O primeiro é o padre Frederico, pois a sensação com que fiquei foi que toda a investigação foi altamente deficitária, da fase de inquérito ao julgamento. Foram, em determinadas alturas, atentados judiciais, e não me parece que ele possa ter usufruído de um julgamento isento, imparcial e com uma investigação rigorosa. Assistir às gravações que foram feitas das audiências é perturbador. A primeira pergunta que é feita no início do julgamento, quando ele estava acusado de homicídio, é se ele é homossexual, logo a seguir à pergunta do nome. O segundo caso é o de Vitor Jorge. A par de outras pessoas que cometeram crimes de sangue e que estão no livro, ele deu muitos sinais ao longo da vida de grande perturbação mental, foi pedindo ajuda várias vezes e foi sendo ignorado, mal diagnosticado, mal medicado. Existe este detalhe muito minucioso da sua vida desde a sua infância porque Jorge tinha uma compulsão de grafia, e escreveu um diário. Mesmo durante a prisão escrevia compulsivamente. A forma como descreve detalhes da sua infância que são impressionantes e impressionáveis, faz com que seja dos casos mais intrigantes até pela patologia que lhe foi diagnosticada numa primeira fase. E este é o homem que matou sete pessoas de uma vez só, não voltou a matar e esteve em liberdade muitos anos até falecer há cerca de dois ou três anos.

Julgamento do padre Frederico, acusado de pedofilia e homicídio, Tribunal do Funchal, em 2003.
Julgamento do padre Frederico, acusado de pedofilia e homicídio, Tribunal do Funchal, em 2003. Foto: Carlos Tomás

Tem por hábito manter um diário, além do caderno de anotações jornalístico?

Não tinha, nem tenho. A série documental ajudou-me imenso, já foi um trabalho arqueológico, quer no legado histórico de imagens da RTP, porque houve crimes em que não havia outra televisão se não esta, quer na busca das reportagens que foram feitas na altura. Anotações, horas de visionamento… a série Depois do Crime foi feita em plena pandemia. Como eu tenho uma excelente memória, havia muita coisa que não tinha esquecido.

O jornalismo de investigação criminal em Portugal é altamente desvalorizado? Qual é a sua percepção como jornalista?

É preciso fazer uma análise preliminar. Somos um país que teve um jornal chamado O Crime. E a verdade é que é possível fazer investigação criminal sem ser sensacionalista e sem ser indigno, sem explorar a dor alheia e sem ser demasiado sanguinário. Nem sempre é fácil e por vezes é trabalhoso. E nem sempre temos uma imprensa que deu o melhor exemplo ao longo dos anos. Eu tenho muito pudor em contactar as famílias quer do criminoso quer das vítimas, porque no meu caso, já passou tanto tempo que é apenas tocar numa ferida que nunca vai sarar. É possível fazer [reportagem sobre] crime seguindo todos os preceitos obrigatórios enquanto jornalista, de respeito pelas vítimas e pelos familiares do acusado. A receptividade que a série teve é um bom sintoma de como as pessoas estão recetivas a ver e a consumir true crime, e a saber que nada foi violentado, ao nível da emoção, naquele trabalho.

Como jornalista, há uma responsabilidade em como se transmite as notícias, sobretudo aquelas com contornos mais agressivos?

Eu não sei até que ponto isso está estudado no que diz respeito aos crimes de sangue. Sei que na televisão, a forma como são tratadas as imagens de incêndios exibidas (e que são fascinantes para todos os pirómanos) é tida em conta. Na RTP temos cuidado no uso de imagens de fogo. Sei também, ao nível estatístico, que sempre que se dá alguma notícia de pessoas barricadas, há depois processos de imitação nas semanas seguintes. No que diz respeito aos crimes de sangue e aos de violência doméstica eu desconheço. Só posso fazer uma especulação muito pessoal sobre isso. Não consigo perceber como é que, nos casos de violência doméstica dirigida às mulheres, isso é um incentivo, dado que muitas vezes são apanhados. Isso devia ser desencorajador. Às vezes temos decisões de tribunal incompreensíveis, que podem levar um agressor a tomar como exemplo alguém que saiu impune. A comunicação social tem, sim, imensa responsabilidade naquilo que torna a opinião pública generalizada, e até na propagação de mitos. No caso do Tó Jó, de Ílhavo, há muita gente que o recorda como sendo um crime satânico, algo que foi desmistificado em tribunal e pelas autoridades. Eles eram membros de uma banda de dead metal, e por acaso estava lua cheia quando o Tó Jó matou os pais. O mito jornalístico e urbano de que inicialmente era um crime satânico perdura na opinião pública até hoje. As próprias designações dos cognomes destas pessoas foram criadas pela imprensa, como o "Monstro de Beja". Ficam porque agradam, agarram, chocam.

O homicida, ex-bancário que matou à catanada a mulher, filha e neta, em Beja, esteve num café Crisfita 2, em Lisboa, perto do IPO, já depois de ter cometido os crimes, e ameaçou a dona do café.
O homicida, ex-bancário que matou à catanada a mulher, filha e neta, em Beja, esteve num café Crisfita 2, em Lisboa, perto do IPO, já depois de ter cometido os crimes, e ameaçou a dona do café. Foto: Vitor Mota

Há aqui um fascínio pela complexidade do ser humano que vai além do jornalismo?

É uma curiosidade pessoal. Eu sou fascinada pela interioridade humana, em saber porque somos como somos, porque agimos e sentimos de determinadas formas. Quem eram estas pessoas, de onde vinham, qual é o background delas, como lá chegaram, era uma coisa que me interessava hoje. Sou uma grande consumidora de documentários de true crime, e fico sempre muito frustrada quando há um documentário muito bem feito que depois não há uma única referência ao passado, não sei como cresceu. Eu gosto desse contexto histórico, social e humano de quem pratica o crime. Até porque ajuda a perceber muita coisa.

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Luís Miguel Militão, Rita Marrafa de Carvalho, O Crime, Maria das Dores, Frederico, RTP, Monstro, Beja, Casa Pia, Casa das Letras, Portugal
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