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"A mulher da casa abandonada": o podcast com a história mais sinistra do Brasil

Jornalista, sociólogo, escritor e roteirista brasileiro, Francisco Dias Felitti conversa sobre o hype que se gerou em torno do seu podcast, que atravessou fronteiras e se tornou um sucesso também em Portugal.

18 de outubro de 2022 Clara Drummond

No início, o podcast "A mulher da casa abandonada" era para ser uma história prosaica sobre o tempo. Em todo o caso, era essa a primeira ideia do jornalista Chico Felitti. "Eu queria contar uma história poética sobre uma mulher abandonada dentro de uma casa abandonada". Anos antes, em 2017, Felitti havia feito uma reportagem nesses moldes, de grande sucesso, sobre o "Fofão da Augusta", personagem das ruas com rosto deformado por procedimentos estéticos que pedia esmolas e distribuía panfletos na rua Augusta, na região central de São Paulo (posteriormente, a reportagem deu origem a um livro, Ricardo e Vânia, publicado pela Editora Todavia).

Dessa vez, não havia nada de poético nessa história, mas sim de sinistro. Só depois de o primeiro episódio ter sido gravado é que o jornalista descobriu a verdade sobre Margarida Bonetti: a brasileira havia mantido uma empregada doméstica em condições análogas a escravidão durante vinte anos nos Estados Unidos, e foi condenada pelo FBI em 2000. A vítima, que era analfabeta e não sabia falar inglês, havia sido "dada de presente" pela família de Margarida antes da sua mudança para um subúrbio rico de Washington, em 1979. Lá, teve o passaporte confiscado pelos patrões, trabalhava sem direito a folga, era agredida fisicamente, e não podia ir ao médico.

"A mulher da casa abandonada" de certa forma faz parte do fenómeno de público que é o género "true crime". Há, contanto, diferenças, já que o foco é na criminosa, enquanto a vítima, embora tenha dado consentimento para que a sua história fosse recontada, permanece anónima. "Não é um "Whodunnit" [jargão literário que significa who has done it – ou, quem cometeu o crime], e sim uma tentativa de entender porque ela nunca foi punida", analisa Felitti.

Chico Felitti
Chico Felitti Foto: DR

O sucesso do podcast é sem precedentes. "Normalmente, um podcast grande, com sucesso de público tem 100 mil ouvintes por episódio. Eu tinha a expectativa que fizesse esse tipo de sucesso – já fiz outros podcasts que chegaram a essa marca. Mas foram 3 milhões de ouvintes por episódio. Em dado momento, foi o podcast mais ouvido na Irlanda, que tem uma comunidade brasileira significativa", conta Felitti. Esses números já geraram outros frutos: "A mulher da casa abandonada" provavelmente será um filme. Conversámos com Chico Felitti para saber mais sobre como foi o processo investigativo e as demais repercussões do podcast.

De que modo "A mulher da casa abandonada" se insere dentro do fenómeno de "true crime"?

"A mulher da casa abandonada" é diferente por causa do recorte, é um perfil da acusada, não da vítima. A vítima deu consentimento para que a sua história fosse contada, mas preferiu ficar em silêncio, e respeitamos a sua privacidade. Não é um serial killer: é uma brasileira que cometeu um crime mas fugiu antes de ser julgada (René Bonetti, que na época era marido da Margarida, por ser cidadão americano, não conseguiu fugir, foi julgado, condenado e cumpriu seis anos de prisão). Nesse sentido, não sei se é realmente um "true crime", nós sabemos quem cometeu um crime, a grande pergunta é: porque é que essa mulher nunca foi presa? E porque é que esse tipo de crime é tão comum?

Já lhe interessava este tipo de abordagem?

Eu não tenho nenhum interesse em especial por "true crime". Na verdade, o livro que escrevi sobre o João de Deus (A casa: A história da seita de João de Deus, Editora Todavia, 2020) tem muito mais de "true crime". Ainda assim, eu estava interessado mais na história daquela cidade que na história do criminoso (o médium internacionalmente famoso que na verdade era um violador em série de mulheres). Abadiânia é uma cidade no meio do nada, com menos de vinte mil habitantes, que tinha uma economia riquíssima por causa do turismo espiritual, a ponto de venderem açaí orgânico em inglês.   

No caso do [podcast] "A mulher da casa abandonada", é mais que a história de um crime, é a história de uma sociedade, de uma vizinhança rica que sabia que havia um crime, mas não fez nada para impedi-lo. Eu não me interessaria pela história de um assassinato não resolvido.

Os documentários de "true crime" misturam jornalismo com entretenimento. "A mulher da cas abandonada" é uma reportagem jornalística, mas os capítulos têm estrutura de folhetim. Nas redes sociais, criticaram que seria uma espetacularização do sofrimento. Como foi separar essa linha que é tão ténue?

Eu sempre encarei como uma reportagem. Eu usei a mesma ética jornalística de todas as outras reportagens que fiz para a Folha de São Paulo. Mas aprendi que não é só uma reportagem, há outro tipo de consumo. Há pessoas que não consomem jornalismo que não entendiam que aquilo era uma reportagem, e me escreviam a dizer: você inventou tudo isso. Outras criticaram o facto do podcast ter anúncio publicitário. Ora, todo jornal tem anúncio, é assim que o jornalismo se sustenta.

Qual é a principal diferença para o tipo de "true crime" que tanto há na Netflix?

No podcast, você pode ser mais jornalístico porque não depende de imagem. É tão por escrito quanto uma reportagem comum de jornal ou de livro, então você pode-se apoiar no registro factual. Já os documentários precisam de imagem, reencenação, e isso pode cair para a dramaturgia. Mesmo que continuem sendo factos reais, dá um aspecto de adaptação ficcional. No podcast, é apenas uma reportagem muito grande. 

Você mudaria alguma coisa caso tivesse oportunidade?

Eu só entrevistei a Margarida Bonetti no último episódio, quase dois meses depois de ir para o ar. E, como jornalista, acho que deveria ter ouvido o outro lado antes, mesmo que matasse o suspense. Era importante mostrar a versão dela mesmo que todas as evidências mostrassem que ela estava a mentir. Ela dizia: eu nunca tranquei a geladeira, e eu precisava de contra-argumentar: o FBI tem fotografias da geladeira com cadeado.

O sucesso fora do comum do podcast teve algum efeito negativo?

Eu ainda não digeri essa repercussão toda. Não esperava que se tornasse num episódio de Black Mirror. De repente, as pessoas estavam preocupadas com os bichos de estimação da Margarida. O TikTok começou uma trend de fazer dancinhas na frente da casa, tinha até uma música e coreografia. Um jornalista famoso me ligou a perguntar se eu havia ganho um milhão de reais para gerar especulação imobiliária. Meu amor, se eu tivesse ganho um milhão de reais eu estaria nas Maldivas.

Eu já presenciei a Margarida a acenar da sua janela como se fosse a Evita Perón, e uma multidão de fãs que gritavam: Margarida, eu te amo! Já me pararam na rua para defendê-la, e diziam que ela foi inocentada – o que é uma mentira – e que eu estava a destruir a vida de uma velhinha. A vida dela não foi destruída, nada mudou, e, agora, passado uns meses, tudo já voltou ao normal.

Minha preocupação no auge da comoção era entender quais eram os grupos majoritários, porque tinha todo o tipo de gente. Mas acho que a maioria das pessoas entendeu que era uma casa que representava o Brasil.

Que tipo de pessoa é fã de uma mulher condenada por manter uma mulher escravizada?

Há dois tipos de pessoas. Algumas eram amigas da família, diziam que ela era uma boa pessoa que vinha de uma família tradicional. Mas também teve gente que ouviu o podcast e que disse: ‘taí uma pessoa legal.

Chico Felitti, autor do podcast famoso
Chico Felitti, autor do podcast famoso "A Mulher da Casa Abandonada". Foto: DR

O que você acha de casos cuja repercussão causam mudanças na legislação?

A discussão é sempre válida. A questão é o que vai nascer dessa discussão. Eu fiquei com muito medo de acontecer um esvaziamento da discussão que eu queria propor, mas respirei aliviado quando o podcast terminou. No final das contas, o que prevaleceu não foram esses comportamentos bizarros, e sim os números de denúncia de escravidão doméstica que haviam duplicado ou triplicado – os números variam dependendo da região do Brasil. Eu recebi a mensagem de uma adolescente que denunciou a bisavó que mantinha uma pessoa escravizada em casa. É um momento que eu nunca vou esquecer.

Em relação à legislação, a pena para uma pessoa que submete outra pessoa a uma vida inteira de escravidão doméstica é menos que dez anos. A categoria de trabalhadoras domésticas é muito fragilizada, e são quase sempre mulheres.

Reportagens investigativas que levam meses para serem concluídas estão cada vez mais muito raras, é muito caro. Como foi convencer a Folha de São Paulo a embarcar nessa investigação que envolvia viagem para os Estados Unidos?

Há quinze anos, você podia propor esse tipo de pauta, hoje é quase impossível. Eu já tinha o primeiro episódio gravado antes de falar com a Folha de São Paulo. Mas, na época, achei que era uma história prosaica sobre a passagem do tempo: uma mulher abandonada numa casa abandonada. Quando descobri que ela era procurada pelo FBI, falei: olha, o primeiro episódio é ela a protestar contra o corte de uma árvore, mas tem muito mais, é na verdade a história de um crime. E eles imediatamente toparam.

Você tem uma presença muito ativa nas redes sociais. Isso ajuda a que o seu trabalho atinja um público maior ou atrapalha por quebrar a imagem de neutralidade do jornalista?

Para mim, sempre foi muito penoso seguir as regras dos grandes veículos de jornalismo, em que você precisa ser apartidário. Acho isso uma anulação da personalidade. Eu sou um homem abertamente gay, que tem uma posição política, um sentido de humor, um sentido estético. Acho uma injustiça que um repórter não possa ter um time de futebol ou um partido político. Isso só favorece os grandes grupos de media que não precisam bancar uma pluralidade de vozes, com diferentes etnias, géneros, orientações sexuais. É por isso que não sou mais funcionário fixo de nenhum jornal, eu quero ser eu mesmo. Nós não somos feitos de papel, nós somos seres humanos, e como seres humanos temos uma visão política, uma orientação sexual e um time de futebol.

Não acho que nenhum profissional deva sentir-se obrigado a ter uma presença ativa nas redes sociais. No meu caso, eu adoro redes sociais, sempre gostei de internet, e sei que me ajuda muito, porque se lanço um projeto novo, imediatamente algumas dezenas de milhares de pessoas vão saber. Mas é lógico que deve ter gente que olha para o meu Instagram e pensa: é só uma bicha que posta foto sem camisa.

 

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