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“O suicídio expressa a dor intolerável da depressão”

Em tempos em tudo estranhos, a morte ganhou mais palco do que desejaríamos. Será um caso mediático o rastilho para algo maior, que nos está a escapar enquanto sociedade? Ricardo Sousa Andrade, psicoterapeuta e psicólogo clínico, desvenda o enigma da equação mundo virtual, depressão e relações humanas.

Foto: Pexels
26 de junho de 2020 | Rita Silva Avelar

Não há vidas perfeitas, nem mesmo escondidas de forma imaculada através de um ecrã, essa montra virtual que espelha os nossos dias  - muitas vezes de forma ambígua - nem camufladas com os sorrisos mundanos que trocamos, agora, por baixo das máscaras. A morte do ator Pedro Lima (Luanda, 1971) chocou os portugueses, que se familiarizaram com o seu sorriso através das televisões, nomeadamente das telenovelas (apesar de o ator também ter feito teatro e cinema) há mais de duas décadas. Pai de cinco filhos, tinha ao seu lado uma mulher talentosa e lindíssima, a artista Anna Westerlund, tinha emprego (múltiplos, até), era aparentemete saudável, físicamente, fazia surf e mais recentemente tinha retomado a prática de boxe. "O que é que se anda a passar? Grande ator, lindo, cheio de vida, com uma linda família" escreve, num dos milhares de comentários deixados na sua conta de Instagram, um fã deste ator português. Um entre tantos outros.

Segundo o relatório legal, a autópsia revelou que o ator morreu por afogamento na Praia do Abano, em Cascais, mas o facto de ter deixado uma carta de despedida à família aponta para um possível suicídio. Mas porque é que este caso é tão chocante, como a maioria das pessoas tem expressado? Segundo a OMS, uma pessoa suicida-se no mundo a cada 40 segundos, sendo o suicídio responsável por cerca de 800 mil mortes a cada ano, mais do que o cancro da mama, a malária, a guerra ou o homicídio.

Ricardo Sousa Andrade, psicoterapeuta e psicólogo clínico com orientação psicanalítica, desmistifica – à luz da atualidade – a depressão e o suicídio associados às crises existenciais, o mundo real das relações versus o ficcionado pelas "personas", a ânsia de canalizar emoções de forma acelerada e imediata, a obsessão com a felicidade constante e, em última instância, a ausência de laços duradouros e a missão dos afetos.

Que mundo é este, que vivemos hoje, alguns de nós submergidos nas redes sociais?

Vivemos num mundo saturado de sinais confusos e impetuosa individualização, propenso a mudar com rapidez e de forma imprevisível. Estar em constante movimento, tornou-se uma necessidade imperiosa para as pessoas sobreviverem aos ritmos frenéticos da sociedade moderna e pós-moderna. O sociólogo Zygmunt Bauman definiu o mundo em que vivemos de modernidade líquida. É neste cenário liquefeito e volátil que as pessoas escorrem vertiginosamente para o isolamento. Vivemos numa espécie de paradoxo relacional, numa era onde é aparentemente fácil e imediato nos ligarmos uns aos outros, todavia, este imediatismo relacional enuncia uma inquietude que desespera por relações autênticas.

Há uma crise, digamos assim, na construção dessas relações?

A construção de relações autênticas depende de elos de ligação que necessitam de um tempo para se edificarem. A sociedade atual em que vivemos despreza esse tempo. O tempo em que vivemos é o das conexões, de conectar-se e estar conectado. A conexão é imediata e não precisa de tempo. Ao contrário dos relacionamentos reais, é fácil entrar e sair dos relacionamentos virtuais através da tecla delete.

Perante uma morte mediática, como aconteceu recentemente, as pessoas reagem, regra geral, de forma quase imediata. O que é que este imediatismo expressa?

É neste ecossistema virtual das redes sociais que a misteriosa fragilidade dos vínculos humanos habita. Por vezes, confunde-se o luto do processamento de uma perda, e dos seus significados, com a necessidade em agir de imediato. Este agir imediato pode também ser uma expressão reativa ao choque. O imediatismo das redes sociais oferece um canal direto para expressar instantaneamente a reação ao choque. Essa reação, logicamente, varia de pessoa para pessoa.

Há uma falsa sensação de intimidade, de conhecimento pessoal do outro?

Uma das motivações subjacentes à necessidade humana de relacionamento, real ou virtual, é o desejo de reconhecimento. O relacionamento no contexto virtual das redes sociais pode complicar ainda mais esse processo. A Internet levou a novas definições de privacidade e de intimidade. A tecnologia propõe-se como uma nova arquiteta das nossas intimidades. Antes da emergência das redes sociais, a linguagem era o arquiteto das nossas intimidades, e a palavra escrita uma ferramenta desse arquiteto. As redes sociais e outras tecnologias sociais, como as incorporadas nos smartphones, projectaram uma nova arquitectura comunicacional para as nossas intimidades, oferecendo conexões instantâneas para expressar as emoções.

Em que momento entra a construção das tais "personas"?

Esta possibilidade de conexão imediata para veicular emoções pode, nalguns casos, redimensionar o espaço da "persona" que habita em cada um de nós. A "persona" é uma espécie de falso eu, tem um efeito de máscara, que procura causar impacto sobre os outros, mas, por outro lado, o seu objetivo principal é camuflar, ocultar a verdadeira natureza do indivíduo. Todos nós precisamos de uma "persona", ou seja, a "persona" não é essencialmente patológica, porque se desenvolve como mediadora natural entre o mundo interno e o externo. A patologia desenvolve-se apenas quando o indivíduo se identifica com a sua versão "persona" à custa dos outros atributos de sua personalidade, obliterando uma relação interna com o "verdadeiro eu" e, desta forma, não se reconhecendo a si próprio.

São muitas vezes essas "personas", e não os "eus reais" que se espelham nas redes sociais?

A natureza das tecnologias e das redes sociais está voltada para o exterior e endereça um convite sedutor à "persona". Este convite sedutor pode conter um perigo não pensado, deixando o "verdadeiro eu" invisível e irreconhecível e, a um nível mais profundo, não amado e incompreendido. O principal papel da "persona" é "esconder e proteger o "verdadeiro eu". Em casos extremos, a "persona" configura-se como real e é isso que os habitantes das redes sociais tendem a pensar que é a pessoa real. Neste extremo, o "verdadeiro eu" fica oculto. É aqui que a patologia irrompe provocando uma profunda dissociação entre a "persona" e o "verdadeiro eu".

É isto que pode explicar o abismo que muitas vezes se interpõe entre a vida de real de alguém e a que transparece para o mundo?

A "persona"é uma fachada social da nossa subjetividade e tende a ser o ator das emoções no palco virtual através das constantes atualizações de "status", posts e tweets, excluindo outros aspetos abrangentes e múltiplos da nossa subjetividade. Ao expressarmo-nos desta forma, estamos a proteger aspetos da nossa subjetividade que nos fazem sentir menos felizes em projetar no mundo. Por outro lado, esta forma de viver na realidade virtual pode estar a criar uma tela que reflete os contemporâneos de narciso, os modernos narcisos, reatualizando através de novos cenários o mito de narciso, confundido e não distinguindo um reflexo de uma pessoa verdadeira. Neste sentido, os modernos narcisos projetam uma narrativa social de felicidade fictícia ou parcialmente real na tentativa de anestesiar a frustração.

O que é que ainda estamos por aprender sobre a felicidade?

Na realidade da nossa existência, a felicidade é efémera e intercalada com sucessivos momentos de frustração. A tentação de anestesiar a frustração pode amputar as possibilidades de compreendê-la. É através da compreensão da frustração que muitas vezes nos aproximámos da possibilidade de felicidade e dos seus significados. Aceitar que a felicidade não é um estado permanente, mas sim efémero, é um desafio para a nossa existência. A arte de viver passa pela construção de uma narrativa de relações e de sentimentos onde a felicidade e a frustração podem coexistir em vez de se separar. Aprender a sermos artesões de afetos é um dos grandes desafios para a nossa existência.

O que é que leva o ser humano a desejar a própria morte?

O impulso de ansiar pelo cenário da morte irrompe das trevas de uma vivência depressiva. O ser humano, tendencialmente depressivo e, com intuito de não perder totalmente a sua esperança em encontrar o reflexo constante da felicidade, procura opacificar as ideias e sentimentos mais negativos a seu respeito. Em contrapartida, numa ilusória, mas necessária, tentativa de reequilibrar o sentimento de si próprio para a dor não se tornar intolerável, refugia-se na idealização das suas capacidades, confundindo o desejo em ser forte com as forças que realmente tem. É, desta forma, que o ser humano com tendências depressivas entra numa relação depressiva com a sua existência.

O suicídio é a expressão dessa crise existencial?

O suicídio expressa a dor intolerável da depressão. Este sofrimento insuportável, espelha frequentemente, raízes masoquistas e vulnerabilidades narcísicas que condicionam os sentimentos e pensamentos sobre a nossa existência. Entre os diversos ciclos de vida, a "crise de meia-idade" é um dos períodos mais frequentes, onde a procura e o desfrute do prazer do sentimento de viver podem sofrer uma erosão. Este desgaste emocional provoca um sentimento de saldo negativo no balanço que se faz da vida vivida, tornando nebuloso o horizonte do que ainda está por viver. Nestes casos, o ser humano é invadido e dominado por uma incapacidade de fazer o luto dos sonhos perdidos, sendo que o sonho perdido mais importante é a ideia omnipotente que idealizamos sobre nós mesmos.

Essa sensação de ter perdido, de certa forma, o rumo da vida, pode ser fatal?

A impossibilidade de fazer os lutos do que perdemos ou não alcançamos ao logo dos ciclos de vida, faz com que os sonhos perdidos se transformem em pesadelos sentidos como reais. O ser humano é um ser em constante construção. Nesta construção e reconstrução dos nossos "edifícios humanos", a experiência do luto é vital para reparar as "fendas" da nossa existência, pois permite ressignificar acontecimentos vividos e pensamentos que perduram dentro de nós.

Em que é que consiste o ato de ressignificar?

Esta possibilidade de ressignificar convida a uma oportunidade de redesenhar a ideia de vida, da vida vivida e da vida por viver, questionando e procurando mitigar a voz interna e externa persistente que nos "exige" a ideia omnipotente de perfeição. A experiência do luto é uma depressão reativa, uma espécie de depressão normal, uma fase difícil, transitória, mas necessária, para reagir às perdas e frustrações. Ressignificar é criar um espaço para a dor ser revisitada e repensada através do sentimento e significado da palavra, criando uma possibilidade de compreensão narrativa do que foi vivido. Esta nova compreensão do que foi vivido pode também criar a possibilidade de uma nova narrativa para o futuro, tornando o horizonte menos nebuloso.

Mas há situações em que as pessoas são incapazes de ressignificar… São essas as que se conduzem, por assim dizer, ao suicídio?

Para muitos de nós, a experiência do luto pode ser dolorosa. Pensar sobre ela pode ser sentido como impensável e o impensável desliga a nossa capacidade de pensar sobre o que sentimos, podendo emergir estados dissociativos da própria realidade. Nestes estados dissociativos, a morte pelo suicídio pode acenar como uma promessa de alívio, mas, é um alívio "não pensado", que não passou pela experiência da ressignificação. Nestes casos, é fundamental que a pessoa procure a ajuda de profissionais especializados. A medicação é em certos casos importante, mas, nunca é por si só suficiente.

O papel da psicoterapia é fundamental nesta equação?

É na psicoterapia, através de uma relação pela fala e pela palavra, que se cria e descobre o espaço para a dor ser ressignificada, abrindo espaços para que o tabu psíquico do sofrimento seja gradualmente diminuído e esclarecido.

A depressão tem vários rostos, ou seja, camufla-se de várias formas?

A depressão tem diversas facetas e gradientes, por vezes confundidas com a tristeza. A relação com a depressão pode ser mascarada com outros sintomas, camuflando-a e transformando-a numa depressão latente. O depressivo ama para ser amado e admirado. O que fica em falha é a capacidade de se amar a si próprio. Este sentimento de falha corresponde a um vazio traumático que empobrece os sentimentos de auto-estima. Na depressão, a pessoa desenha no atelier da sua mente um auto-retrato carregado de traços defeituosos que fica sempre aquém do auto-retrato ideal, um holograma da nossa perfeição omnipotente e inalcançável.

Como é que se pode, se é que se pode, saber se a pessoa está deprimida quando aparenta uma vida feliz?

Uma das características mais audíveis das personalidades depressivas é o eco do medo de falhar. Este eco amplifica o sentimento de falha, de vergonha e de culpa que caracteriza o depressivo e a depressão. Durante muito tempo a reverberação deste eco depressivo é apenas interna, pois há um receio em expor aos outros a intimidade das nossas vulnerabilidades psíquicas que a própria pessoa pode ainda não ter compreendido. Este receio é acompanhado por outro receio, o da angústia da dúvida se a fragilidade partilhada será julgada e não compreendida pelos outros. É na pressão deste duplo receio interno que a depressão se instala silenciosamente, criando um tabu psíquico do sofrimento.

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