Culturas

O que sentem, e como vivem, as mulheres portuguesas, hoje?

Resumindo: as mulheres portuguesas têm cada vez menos tempo para si (54 minutos por dia, segundo este estudo), 33% estão infelizes – mais ansiosas, também - o trabalho pago está longe de ser satisfatório ao nível salarial e continua a não existir uma repartição justa do trabalho doméstico.
Por Rita Silva Avelar, 12.02.2019

O primeiro encontro do ciclo ‘Ao Encontro dos Portugueses’ decorreu a 12 de fevereiro, dia em que a Fundação Francisco Manuel dos Santos celebra uma década. Este ciclo abriu com a conferência "A Mulher, hoje" onde se discutiram os resultados e as principais conclusões do extenso estudo levado a cabo pela fundação, sobre a condição das mulheres em Portugal e no Mundo. Numa primeira parte, a reputada economista Laura Sagnier traçou as principais conclusões do estudo "As Mulheres em Portugal hoje" - debate moderado por José Alberto Carvalho, onde intervieram nomes como as sociólogas e investigadoras Anália Torres e Ana Nunes de Almeida e Teresa Fragoso (Presidente da Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género).

No estudo, foram avaliadas as várias dimensões da vida da mulher, desde o emprego, às horas de trabalho dedicado à casa, a situação económica, a relação com a pessoa parceira, o assédio no trabalho, a violência doméstica e de género; e a lista continua.  Foram inquiridas 2428 mulheres, entre 18 e 64 anos de idade, que utilizam regularmente a internet – ou seja, uma amostra que representa 2,7 milhões de mulheres). "As mulheres costumam achar que as pessoas devem cumprir as regras, mesmo quando ninguém está a ver; costumam gostar muito de crianças e ser críticas e exigentes com elas próprias". Assim começa o estudo debatido nesta conferência.

Há várias  conclusões alarmantes, que dizem respeito ao bem-estar físico e psicológico das mulheres portuguesas no presente. Ao longo dos anos, as mulheres vão-se tornando pouco a pouco menos liberais. As mulheres católicas estão a diminuir a favor das ateias e agnósticas. A imensa maioria das mulheres declara que se sente demasiado cansada, sempre ou quase sempre. Uma em cada dez mulheres declara tomar diariamente medicamentos para a ansiedade, para os distúrbios do sono ou antidepressivos. Mas são os resultados advindos dos temas trabalho pago, tarefas domésticas e felicidade que ressaltam no que à igualdade de género e de direitos humanos diz respeito. 

O trabalho pago

No estudo, conclui-se que "quase todas as mulheres com experiência no mercado de trabalho concordam com a afirmação "as mulheres têm dificuldades em progredir hierarquicamente porque a maioria das empresas é dirigida por homens e estes preferem promover outro homem". Mas há mais, as mulheres inquiridas valorizam a remuneração acima da felicidade: "dos oito aspectos em que se pediu às mulheres que definissem o seu "emprego ideal", o que surge em primeiro lugar é "que tenha um bom salário": para 23% das mulheres que têm trabalho pago, esta questão é a mais importante no emprego (…) e independentemente do nível de escolaridade, os dois aspectos mais relevantes para as mulheres no que diz respeito ao "emprego ideal" são os mesmos: "que tenha um bom salário" e "que lhe permita conciliar bem o trabalho pago com a vida em casal/família". Também consideram trabalhar mais duas horas do que seria necessário, já que "no que diz respeito ao número de horas que trabalham, o mais habitual é trabalhar 40 horas por semana (41%). As que trabalham mais de 40 horas por semana são 26%. E no que se refere aos rendimentos que recebem, dois terços (67%) têm rendimentos que não ultrapassam os 900 euros líquidos por mês.

As tarefas domésticas

Falando de tarefas domésticas, a grande maioria das mulheres tem de fazer face às mesmas. "Na execução das tarefas domésticas, as mulheres suportam mais do triplo de trabalho que o companheiro. A mulher efectua, em média, 74% das tarefas domésticas, enquanto o homem com quem vive efetua, em média, 23%. Os 3% restantes são feitos pela ajuda externa remunerada" pode ler-se no estudo. Ou seja, o tempo para si próprias fica reduzido a menos de uma hora por dia (em média: 54 minutos). No que toca à contribuição para as despesas familiares, 54% dos casais reparte as despesas equitativamente, conclui este estudo.

A felicidade

Uma em cada três mulheres sente-se infeliz com a vida (33%). Conclui-se que as relações interpessoais são as "facetas" da vida que proporcionam maior felicidade às mulheres. Já as facetas em que o mais habitual é que as mulheres não se sintam felizes são: o tempo de que dispõem para si e para os seus passatempos, os/as filhos/as que o/a companheiro/a tem de relacionamentos anteriores, o trabalho pago e o aspecto físico. o Parâmetros como o "trabalho pago", se "alguma vez passaram por alguma situação de assédio no trabalho ou de violência doméstica e de género" e "as dificuldades que têm para fazer o dinheiro chegar até ao fim do mês" também têm alguma capacidade de influenciar a felicidade feminina. Ainda assim, 47% sentem-se felizes ou muito felizes com a vida.

Na segunda parte desta conferência, que teve lugar na Aula Magna, Samantha Power, Freida Pinto e Ghida Fakhry conversaram sobre o papel da mulher e do caminho que está por fazer no que diz respeito à igualdade de género em diferentes sociedades com base nas suas experiências profissionais, que incluem cenários de guerra. Samantha Power é a ex-embaixadora dos EUA na ONU, Freida Pinto é atriz e modelo indiana, e Ghida Fakhry, moderadora deste debate, é jornalista de política e colunista no jornal Huffington Post.

Aceda ao estudo completo, aqui.

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