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Leïla Slimani: "Aos 35 anos, tomei uma decisão (...) silenciar para sempre aquela que é ao mesmo tempo, a melhor e a pior parte de mim."

A propósito do aniversário da Máxima, a escritora franco-marroquina Leïla Slimani reflete sobre os seus próprios 35 anos, cheios de descobertas e conflitos interiores.

Foto: Julien da Costa
30 de janeiro de 2024 Máxima

Trinta e cinco anos. Por altura do aniversário da revista, lembrei-me do meu trigésimo quinto aniversário, em outubro de 2016. Tinha um filho de 6 anos, estava grávida da minha filha e o meu trabalho estava a tornar-se cada vez mais exigente. Tinha acabado de ganhar o Prémio Goncourt e estava prestes a começar uma digressão internacional para promover o meu romance, Canção Doce. Foi sem dúvida com essa idade que senti com mais força que já não era uma rapariga jovem, leve e cheia de ideais, mas uma mulher esmagada pela carga mental. Foi nessa idade que me apercebi de quão difícil era ter uma carreira e cuidar dos meus filhos ao mesmo tempo. E do quanto tivemos de lutar contra a culpa que pesa sobre nós, mulheres, muito mais do que sobre os homens.

"Aos 35 anos, apercebi-me de que ser uma mulher livre significava também aceitar desiludir." Foto: Julien da Costa

Lembro-me de um dia em que estava em Berlim, esgotada e sozinha. Telefonei à minha mãe, tinha lágrimas nos olhos. Ela repetia: "Tu fazes muita falta aos teus filhos." E lembrei-me que quando o meu marido viajava, as pessoas diziam-lhe: "Os teus filhos devem fazer-te muita falta." A minha mãe viveu num Marrocos onde as mulheres tinham de pedir autorização aos maridos para poder abrir uma conta no banco ou viajar. A minha mãe, que me educou a mim e às minhas irmãs na ideia de que era preciso sermos financeiramente independentes, que me deu a ler Simone de Beauvoir e sempre me incentivou a tentar realizar os meus sonhos. E, no entanto, ela dizia-me isso. A minha mãe faz parte da primeira geração de mulheres que puderam estudar e trabalhar. Era médica, mas também tratava das refeições, dos nossos trabalhos de casa e das compras. Nunca se queixava porque, provavelmente, tinha medo de que alguém lhe dissesse: "Quiseste trabalhar, então aceita."

A minha mãe foi o anjo do lar tal como o descreveu Virginia Woolf. Sabe ser silenciosa, guarda para si as suas paixões, os seus sonhos de fuga e de realização pessoal. Não denuncia aqueles que a impedem, não aponta o dedo aos seus carrascos. O anjo do lar é aquele que cumpre o destino da mulher, uma vez que "a natureza quis que os dons das mulheres fossem destinados à felicidade dos outros e de pouca utilidade para elas próprias". Uma verdadeira mulher, uma mulher como o sistema patriarcal a concebeu, traz dentro de si mil renúncias.

"Uma mulher verdadeira, escreve Mona Chollet, é um cemitério de desejos, sonhos perdidos e ilusões." Foto: Julien da Costa

"Uma mulher verdadeira, escreve Mona Chollet, é um cemitério de desejos, sonhos perdidos e ilusões." Repetiram-nos vezes sem conta que uma mulher não pode ter tudo, não pode querer mais do que a sociedade decidiu para ela. E se, casada, mãe, com um estatuto social que a protege, continuar teimosamente a desejar, o destino tratará de a castigar. Ela acabará debaixo de um comboio como Anna Karenina, beberá o veneno como Madame Bovary, ela terá a letra escarlate de Nathaniel Hawthorne bordada no seu vestido.

Em Espanha e em Inglaterra, foi realizada uma experiência muito interessante com um grupo de crianças de idades compreendidas entre os 8 e os 10 anos. A todas era explicado que iam fazer um casting para uma marca de iogurtes e que o teriam de provar frente à câmara, com um ar encantado no rosto. Nas embalagens de iogurte, os sociólogos deitaram uma colher de sal e seguinte aconteceu: cem por cento dos rapazes cuspiram o iogurte salgado, apenas um terço das raparigas se recusou a comer. As restantes continuaram a sorrir para a câmara, na esperança de conseguirem o papel no anúncio.

"Sabe ser silenciosa, guarda para si as suas paixões, os seus sonhos de fuga e de realização pessoal." Foto: Julien da Costa

Então, aos 35 anos, tomei uma decisão. Ia estrangular a Branca de Neve, assassinar a Bela Adormecida, matar a mãe perfeita, a esposa conciliadora, silenciar para sempre aquela que é ao mesmo tempo, a melhor e a pior parte de mim. Aos 35 anos, apercebi-me de que ser uma mulher livre significava também aceitar desiludir. Aceitar desagradar quando tudo – na educação, nos mitos comuns, na forma como nos adornamos – nos incita a agradar. A um homem que quis saber porque é que ela não tinha salvo mais escravos, Harriet Trubman, a célebre abolicionista americana, respondeu: "Se tivesse convencido mais escravos de que eram escravos, teria salvo milhares de outros." Parece-me que o caminho da emancipação, para qualquer mulher, consiste, em parte, em recusar-se a corresponder, traço por traço, aos modelos que nos são apresentados na infância. Recusar o silêncio, recusar a conciliação, recusar carregar todo o peso do compromisso.  Para mim, este caminho foi possível graças à literatura. O meu crime começou numa biblioteca.

"Tinha um filho de 6 anos, estava grávida da minha filha e o meu trabalho estava a tornar-se cada vez mais exigente" Foto: Julien da Costa

Caras leitoras, não vos vou mentir. Se matarem esse anjo, provavelmente vão ser condenadas e ninguém compreenderá o vosso gesto. Chamar-vos-ão egoístas, más mães, esposas inconsequentes e aventureiras. Mas se tivesse de vos convencer, dir-vos-ia que na cela em que estiverem, estarão em boa companhia. É nessa cela que eu vivo.

 

Tradução: Tiago Manaia.

Fotografia: Julien da Costa.

Styling: Joyce Doret.

Maquilhagem e cabelos: Elodie Fiuza.


*Artigo originalmente publicado na revista que celebra os 35º anos da 
Máxima.
Saiba mais
Mundo, Testemunho, 35anos, Leïla Slimani, Máxima, 35 anos
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