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Este país não é para velhos. O novo livro de Carmen Garcia é um retrato cru da vida nos lares

Depois dos livros para crianças, Carmen Garcia, 'A Mãe Imperfeita', escreve agora sobre os mais velhos. Oficialmente lançado no Dia Mundial da Terceira Idade, que se assinala a 28 de outubro, 'A Última Solidão' é muito mais do que um caderno de memórias ou um retrato cru sobre a vida nos lares. É um alerta social.

Foto: Bruno Cardoso
27 de outubro de 2022 Maria Afonso

Carmen Garia é enfermeira, autora da página de Instagram A Mãe Imperfeita e da crónica Tanto Faz Não é Resposta, no jornal Público. Carmen Garcia é mãe do Pedro e do João. Carmen Garcia é de Vendas Novas. Diz-se orgulhosamente alentejana, "do interior, de dentro". Não é da grande cidade nem inveja quem é. Gosta da sua comunidade e de pertencer a ela. E admite que, mesmo que tentasse, não saberia como não se envolver na luta pelas injustiças e pelas desigualdades, sejam elas vividas em sociedade ou dentro das paredes do lar em que trabalha. Foi em lares como esse que encontrou as personagens do seu novo livro. A Última Solidão (Avenida da Liberdade Editores) conta as histórias de homens e mulheres na idade a que se convencionou chamar a terceira, tantas vezes esquecida e desprezada, vivida num murmúrio constante, sem que lá esteja alguém para ouvir.

A Última Solidão (Avenida da Liberdade Editores)
A Última Solidão (Avenida da Liberdade Editores)

Carmen Garcia é a enfermeira de serviço. Muda-lhes o penso e, às vezes, lava-lhes a alma. A tempos, transforma-se na mediadora familiar que tenta decifrar casais desavindos ou restabelecer a ligação entre gerações que desistiram de comunicar. Mas também é a cabeleireira que tem sempre uma amostra de perfume para partilhar ou a amiga que leva um dos utentes a ver um jogo do Sporting e ainda lhes paga o jantar. Carmen Garcia é, como tão bem escreve Maria Filomena Mónica no prefácio do livro, "um cometa que surgiu da noite escura onde pululam os "especialistas" em Geriatria".

Uma mulher que gosta de Moda, mas que acaba sempre a calçar os ténis e a arregaçar as mangas, porque cada dia tem mais tarefas do que ela gostaria de abraçar. Mas ela vai, faz. E, no final, ainda tem forças para contar (a quem a segue) como foi. As redes sociais são um extra que, da mesma forma que não serve para pagar contas, também não funciona para encenar histórias de encantar. "No instante em que tiver de deixar de ser honesta, apago. No dia em que tiver de escrever com medo, saio".

Carmen Garia é enfermeira, autora da página de Instagram A Mãe Imperfeita e da crónica Tanto Faz Não é Resposta, no jornal Público
Carmen Garia é enfermeira, autora da página de Instagram A Mãe Imperfeita e da crónica Tanto Faz Não é Resposta, no jornal Público

Quando é que decidiu que queria ser enfermeira?

Só descobri que gostava de cuidar durante o primeiro estágio do curso de enfermagem. Ser enfermeira não era um sonho de pequena. Diziam-me ‘com essa média – porque eu era boa aluna – porque é que vais para Enfermagem?’. Havia sempre aquela comparação idiota com Medicina quando, na verdade, são áreas complementares. O médico cura, o enfermeiro cuida. Durante o curso, percebi que gostava mesmo de cuidar, mas não sabia o que ia acontecer na primeira vez que tivesse de mudar uma fralda. Podia correr lindamente ou ser uma tragédia. Mas correu lindamente.

Começou por estagiar num lar. No livro descreve com detalhe as sensações, mas sobretudo os cheiros.

Comecei numa unidade de apoio integrado, que já não existem. Hoje, temos as unidades de cuidados continuados. Era um piso de internamento de idosos, todos muito dependentes. A sensação olfativa sempre foi muito importante para mim, lembro-me bem dela. Do cheiro a urina. Pensei: ‘Ai, mal a volta que isto leva, não vou aguentar’. Ao fim de uma semana já não me via a fazer outra coisa. Lembro-me de uma senhora, a primeira utente que piquei, que era a coisa mais querida deste mundo e de sentir que gostava dela. Eu já gostava de velhos, mas dos meus. Não sabia, até esse momento, que também gostava dos velhos dos outros.

É diferente cuidar de uma pessoa que está internada num hospital e cuidar de uma pessoa que vive num lar, sem perspetivas de lá sair...

É verdade. Quando terminei o curso não comecei logo a trabalhar num lar porque pensei – e bem – que precisava de ferramentas que ainda não tinha. Quando acontece alguma coisa num lar, somos nós que lá estamos. Precisamos de algum poder de decisão e de uma capacidade de autonomia que eu não tinha. Decidi fazer carreira hospitalar até me sentir confiante. Trabalhei no Hospital de Évora durante 11 anos, sempre em cuidados intensivos, primeiro na Unidade de Cardiologia, depois numa unidade polivalente. E fui à minha vida. À Geriatria.

Como soube que estava no momento de sair?

Foram várias coisas, a começar pela remuneração, que era péssima. O último salário que trouxe para casa, enquanto enfermeira com 11 anos de experiência, foram 962 euros. Depois, o meu filho mais velho, o Pedro, é surdo. E eu precisava de ter disponibilidade horária para, entre mim e o pai, acompanhá-lo à terapia da fala. Por fim, houve um dia que mudou tudo. O meu avô estava internado nesse hospital. Quando cheguei de manhã, perguntei às minhas colegas como é que ele tinha passado a noite e disseram-me que as coisas não estavam bem. Fui cuidar do meu doente e, entretanto, recebi uma mensagem a dizer que o meu avô estava a chamar por mim. Tentei despachar-me, mas percebi que precisava de voltar a ventilar o meu doente. Chamei o médico e pedi-lhe que fossemos rápidos. E fomos. Saí a correr, mas quando cheguei o meu avô tinha acabado de morrer. Foram segundos, mas isso passou a aterrorizar-me. Não queria continuar no hospital. Senti que já não era vida para mim. Havia um sentimento de culpa muito grande.

Porquê a Geriatria?

Gosto de velhos. Nem sequer vou usar a palavra idosos. Detesto-a. Tresanda-me a eufemismo. As palavras têm a conotação que lhes damos e, para mim, velho é uma palavra boa. São os meus velhos e eu adoro-os.

Uma das particularidades do livro prende-se com a linguagem. Não tem medo das palavras, mesmo das mais cruas.

Só sei escrever assim. A certa altura tive medo que as pessoas dissessem que o livro tinha o mesmo estilo de escrita que as minhas crónicas no Público. Até que percebi que ia ser assim porque aquele é o meu estilo de escrita, não sei fazer de outra maneira. Ter uma escrita mais erudita (coisa que não queria, porque detesto) ou que me obrigasse a ter um maior distanciamento do leitor é que seria complicado. Sou próxima das pessoas a falar e não faz sentido ser de outra forma a escrever. E, depois, se o meu objetivo é que se mude o paradigma, a forma como se encara a velhice, a mensagem teria sempre de passar de uma forma direta e pura.

Como é que estas histórias foram selecionadas?

Escrevo em cadernos desde cedo, muito cedo mesmo. Usava-os para apontar as coisas de que não me queria esquecer. Sempre por tópicos. Durante o meu primeiro estágio houve um senhor que, num episódio de desorientação durante a noite, saltou por uma janela. Encontrei nos meus cadernos várias notas sobre isso: o seu nome, a sua altura, o nome do monte para onde ele queria ir, detalhes. Era uma forma de preservar a minha memória. Também escrevo sobre coisas que nada têm a ver com o meu trabalho. Os meus cadernos são uma salsada cheia de cores. Ainda bem que os guardei. Este é um livro de contos, ficcionado, mas sempre baseado em histórias reais e eu nunca me lembraria de certos pormenores se não os tivesse apontado.

Uma das principais críticas que faz é a da infantilização feita no tratamento destas pessoas. Porque é que isso a incomoda tanto?

Quando se cuida, há dinâmicas a seguir, mas já está tudo errado quando as transformamos em rotinas. Em primeiro lugar é preciso olhar para quem se está a cuidar, luto muito por isso. Por exemplo: se aquela pessoa não está bem disposta, porque é que a vamos sentar à mesa? Come mais tarde. Se sempre tomou banho ao final do dia, porque carga de água é que, ali, tem de passar a tomar banho de manhã? São coisas que parecem de nada, mas são parte de quem a pessoa é. É preciso respeitar a individualidade.

Como é que uma personalidade assim encaixa em estruturas com regras próprias?

É difícil para toda a gente. É difícil para a estrutura, é difícil para mim. Já houve lares onde me chateei a sério. Se percebo que se persiste em más práticas ou em práticas desaconselhadas, saio. Sabes aquela ideia do ‘onde não fores feliz, não te demores?', comigo é ‘onde não conseguir cuidar com dignidade também não me demoro’. Tento, faço o meu melhor, mas se não der, não deu. Sei que nenhum lar em Portugal é aquilo que acho que deveria ser, nem mesmo os melhores, mas tenho noção daquilo que é aceitável ou não.

Quando se entra num lar raramente há a perspetiva de lá sair. Como é que se faz essa gestão emocional?

A maioria dos meus utentes tem uma relação muito pacífica com a morte. Muitos, no dia em que entram, já levam escolhida a mortalha, a roupa que vão usar quando morrerem. Vem preparada no cabide. A morte paira como uma inevitabilidade, e eles aceitam-na. Dizem-me ‘nunca tive medo de viver, também não tenho de morrer’. A serenidade deles é incrível. Também eu perdi o medo da morte. Em compensação, tenho pânico das demências. O dia em que se perde a identidade, é o dia em que se morre. Assusta-me muito essa ideia de morrer em vida.

Além da identidade, outro aspeto importante é o da liberdade. Mesmo nos casos em que a pessoa entra no lar por vontade própria, há sempre uma perda de liberdade.

Sempre, infelizmente ainda não temos lares onde seja possível prestar cuidados individualizados. O modelo de lar em Portugal em 2022 é o mesmo que havia em 1982. Não pode ser. Se antes as pessoas entravam num lar aos 70, agora entram aos 90. As necessidades são completamente diferentes. Antigamente as pessoas morriam de doenças infeciosas, agora têm dez doenças em simultâneo: osteoporose, diabetes, hipertensão, colesterol, neoplasias... tomam toneladas de medicação e o modelo mantém-se inalterado. Os lares têm de começar a organizar-se por graus de dependência. Na Alemanha ou na Bélgica existem lares onde os utentes mais independentes mantêm uma vida de contacto com a comunidade. É um modelo mais residencial onde existem vivendas, um pátio comum, um serviço de refeição, apoio de enfermagem, auxiliares. São locais onde podem receber a família a qualquer hora, mantêm atividades na comunidade. Em Portugal, esses utentes são misturados com utentes muito dependentes e depois não servimos uns nem outros. 

Há uma dimensão intersecional no livro. Fala-se de idade e classe social, idade e género, idade e deficiência. Há um cruzamento de condições que derivam em maior fragilidade?

São as condições esquecidas. Quando se olha para um lar pensa-se em velhos. E depois não nos passa pela cabeça que a violência doméstica também é uma realidade dentro daquelas paredes. Que há mulheres ali que continuam a ser empregadas dos maridos. O feminismo chega à porta dos lares e não entra. A mentalidade daquelas mulheres ainda é a da obediência. E se o marido bateu é porque ainda tem esse direito. Tentei intervir junto a um casal em que ele obrigava a mulher a ter relações sexuais quando ele próprio já não tinha ereção, mas forçava-a, acabando por ser agressivo, porque ficava frustrado. Mas a mulher não quis que interviesse, não queria que as outras pessoas falassem. A deficiência também está presente, ainda que a uma menor escala, porque a esperança de vida de alguém com deficiência é menor. Mas, quando chegam à velhice, estas pessoas têm as duas piores coisas que alguém pode ter: são deficientes e são velhos. Se já não há boas respostas para estas situações quando elas estão separadas, imagine-se quando estão juntas. A maioria das pessoas não sabe o que é um lar. Não faz ideia de como funciona. Supõe, imagina, viu imagens. Essa clivagem chateia-me muito... até porque há uma riqueza tão grande de histórias lá dentro.

Há espaço para a felicidade?

Há espaço se o lar fizer bem o seu trabalho e se a família cumprir bem o seu papel. O que não pode acontecer é que as famílias utilizem os lares como depósitos e desresponsabilizarem-se completamente. Os lares são estruturas residenciais. Quando alguém lá vai deixar o pai ou o avô, é importante perceber que ele mora ali, mas a família dele não é aquela.

Considera que há muito a fazer para melhorar a vida dos nossos velhos. Andamos distraídos, como filhos/as, como família, como sociedade?

Parece-me que isso acontece por cobardia, também. Quando olhamos para um velho estamos a olhar para a nossa própria velhice. Estamos a ser confrontados com a nossa mortalidade. É mais fácil não ver. É duro ver um pai a envelhecer, mas é ainda mais duro perceber que não os acompanhámos na fase final. Isso é que é mesmo duro. Já vi arrependimentos gigantescos. Uma família que deixa alguém num lar e passa meses sem lá ir está a falhar. Uma coisa é não ter tempo para cuidar, e a maioria das pessoas não tem, pode até não ter condições para os levar a casa, mas não ter uma hora por semana... não consigo compreender. Por mais carinho que uma pessoa receba num lar, o meu abraço para um utente que me adora nunca vai ser igual ao do filho que não aparece.

Há um grande envolvimento pessoal, que às vezes extravasa as paredes do lar. É fácil, conseguir essa ligação?

Eu conheço todos os utentes do meu lar. Assim que chegam, apresento-me. Tenho uma atenção especial nas primeiras semanas, para perceber como está a ser a adaptação. As pessoas gostam de sentir essa preocupação e a maioria tem vontade de conversar. Às tantas sabemos quem são, o nome dos filhos, a roupa de que gostam, os pratos preferidos, o que os acalma, o que os enerva, os programas de televisão que gostam de ver. Esta é uma das grandes diferenças em relação ao trabalho num hospital, há uma ligação pessoal. Por outro lado, estão-me sempre a morrer avós. Mas é bom sentir que fiz tudo o que podia ter feito por eles.

Parece ter uma certa rebeldia, um inconformismo. Até que ponto é que esta característica a define?

O Miguel Torga dizia que os portugueses são uma coletividade pacífica de revoltados. Acho que é verdade. Não sou particularmente boa, mas perante uma injustiça há aquelas pessoas que se compadecem e as que se zangam. Eu pertenço ao segundo grupo. Não consigo dormir, tenho de fazer alguma coisa, tenho de ir lá, por cá para fora. Isso, por vezes, traz-me um desgaste que eu não queria ter, uma exposição que eu não queria ter e chatices que não queria ter. Se consigo não fazer? Não.

Este livro é exemplo disso. Qual é o principal objetivo da sua publicação?

Faz-me confusão que pessoas da minha idade não percebam que aquilo que fazem hoje aos deles é o mesmo que, um dia, lhes farão. Gostava muito que as famílias se ligassem mais aos lares, que aparecessem mais. Gostava que os lares mudassem algumas coisas, que não tivessem medo de se atualizar, que a infantilização dos idosos parasse, que voltássemos a colocá-los no lugar que merecem e gostava, essencialmente, que se abrisse um debate político que nos fizesse arranjar uma solução. Atualmente temos 180 velhos por cada 100 jovens. Em 2080 vamos ter 317 velhos por cada 100 jovens. Isto vai rebentar-nos na cara com muita força. Gostava que este livro nos pusesse a pensar na velhice, no modelo de assistência que temos e que nos fizesse agir. Que servisse como tiro de partida para alguma coisa. As pessoas não gostam de falar de velhos, não é um tema que interesse.

Não há glamour na velhice.

Pois não. Não há glamour em fraldas nem incontinência de esfíncteres. Mas há outras coisas. Há sabedoria, há força, há memória, há o que tu és. E tu não és nada se não souberes de onde vens. Só sei dar valor à liberdade porque tenho avós que viveram na ditadura. Venho daí. Venho do campo, de uma família de pessoas não escolarizadas. Sou neta de um avô que fugiu do franquismo e de outro que lutou contra o salazarismo, de uma avó que viveu com medo da própria sombra... se perder isto de vista, perco uma parte importante de mim própria. E enquanto sociedade estamos a deixar de conhecer uma parte importante da nossa história porque achamos que sabemos tudo aos 30 e aos 40. E esquecemos. Esquecemos os mais velhos.

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