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Entrevista Helena Sacadura Cabral. A alegria como acto de rebeldia

Helena Sacadura Cabral acaba de lançar O ABC da Vida, pequenas reflexões sobre temas gigantes, para ter por perto neste ano que se inicia.

Helena Sacadura Cabral
Helena Sacadura Cabral Foto: D.R.
30 de dezembro de 2020 | Patrícia Duarte

Não podendo sintetizar num livro as questões existenciais que nos assolam, acompanham e desafiam, na vida em geral e na pandemia em particular, Helena Sacadura Cabral - economista, a primeira mulher admitida nos quadros técnicos do Banco de Portugal e em vários cargos de chefia na Administração Pública, colunista e presença regular em televisão  —  tentou. Faz um apanhado, por ordem alfabética, dos grandes valores, que acabam por funcionar como pistas para este início de ano; pequenas sementes simplesmente escritas que procuram tantas respostas quanto se transformam em perguntas, como tudo o que nos guia ou nos transcende. Um livro de companhia ou consulta furtiva, escrito para todos, que nos deixa frases singelas e encantadoras como: "A disciplina é liberdade, a compaixão é fortaleza e a bondade é ter coragem" ou "Acredito que as coisas mais belas do mundo requerem paciência, para se revestirem de um halo de esperança e entusiasmo. Muitas vezes, acreditamos que a vida nos diz «não» quando, na verdade, está apenas a pedir-nos para esperar".

O ABC da Vida
O ABC da Vida

Escreveu este livro com alguém em mente? Ou é, de certa forma, um exercício autobiográfico?

Quando iniciei este livro a ideia era mostrar a fragilidade do mundo em que vivemos e os sentimentos que ela arrasta consigo. Depois, veio a pandemia e a ideia original manteve-se, mas a forma de a levar a efeito, alterou-se. É claro que uma abordagem desta natureza comporta sempre algo de nós próprios, porque é o nosso olhar sobre aquilo que nos rodeia. Não no sentido autobiográfico – eu não passei por todas as situações que as palavras descrevem - mas vi os outros passarem por elas.

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"Uma viagem aos valores que nos guiam pelos caminhos da vida", descreve. Porque é que uma economista decide pegar neste tema tão grande, desta forma tão específica e publicar este livro agora?

Foi justamente por vir do mundo da Economia e ter assistido durante meio século à forma como ela se foi deixando apoderar pela Política que me apeteceu chamar à atenção de quem me lê que há vida para além dela. Além disso, resolvi mostrar que os economistas também existem para aconselhar quem manda, a governar melhor!

Fala-se num certo retrocesso da Humanidade na área humana e dos afetos – concorda?

Tendo a concordar. Inicialmente a globalização fez tudo para diminuir a identidade pessoal. Depois a digitalização do mundo acabou com uma certa autoestima nacional que, do meu ponto de vista, seria importante não perder.

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"A escala de valores tem vindo a transformar-se", escreve no seu livro. De que forma?

Mesmo se e quando esta pandemia acabar, a nova normalidade não será jamais o que era. As pessoas não irão esquecer a forma como foram obrigadas a viver e irão criar uma nova forma de existir. Antes, era normal mudar de roupa e seguir modas. Hoje, isso não tem qualquer importância, face ao teletrabalho ou aos percursos domésticos aos quais estamos confinados!

Diz também que a sociedade portuguesa precisa "desta forma de viver em sociedade" baseada na compaixão. Porquê?

Porque a compaixão é um meio poderoso para nos aproximarmos dos outros. Curiosamente, este flagelo que nos afastou fisicamente, acabou por nos levar a preocuparmo-nos com o vizinho do lado que antes nem conhecíamos. É a compaixão que vence o egoísmo que uma situação como aquela que vivemos pode criar.

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A vida acelerou-se e sem calma não se disfruta nem se vai fundo. Considera a superficialidade, e daí o desapego, um dos maiores perigos da era moderna?

Neste momento, e ao contrário do que antes acontecia, o desapego é mais material do que espiritual. Nos dias que correm, cada vez mais, a espiritualidade tem sido a grande plataforma na qual nos podemos, e pudemos, agarrar para não desesperar.

Escolheu os temas mais importantes para si, escolheu o que lhe ocorreu de forma instintiva ou seguiu alguma lógica de prioridades?

Um pouco das duas. Primeiro escolhi as palavras que me pareciam corresponder mais ao estado geral do país. Depois o tratamento de cada uma delas foi sendo ao correr do meu estado de espírito.

Helena Sacadura Cabral
Helena Sacadura Cabral Foto: D.R.

Se tivesse de isolar uma qualidade maior, e uma menor, no ser humano, ou seja, o que mais admira e mais abomina numa pessoa, quais seriam?

A que mais odeio é a mentira e a que mais aprecio é a bondade

As qualidades são inatas ou podem ser trabalhadas como um músculo?

Quando inatas excelente. Mas eu sou das que defendo que não as tendo, elas podem e devem ser trabalhadas, para que possamos ser pessoas melhores, mais aptas, mais preparadas.

E qual será a qualidade mais imperativa, ou mais necessária, para enfrentar os tempos modernos, e este ano de pandemia?

Não tenho qualquer dúvida que é a resiliência que se aplica em qualquer das duas situações. Um exemplo: quando morreu o meu filho Miguel [Portas, líder politico] julguei que partia com ele. Mas o seu único pedido foi que eu continuasse a viver como se ele cá estivesse. Todos os dias da minha vida, desde então, representam o esforço de ser fiel ao nosso compromisso. Sem resiliência e a proteção divina eu não seria capaz. A vida é, todos os dias, um cair e levantar permanente!

Diz no capítulo da qualidade humana que a inteligência e a cultura não devem ser os guias principais para o coração. Quais devem ser, então?

Ao longo da minha vida conheci muita gente que me marcou tendo uma inteligência e uma cultura, digamos, médias, mas cujo coração era cheio de bom senso, de alegria, de amor ao próximo. E continuo a sentir que elas deram mais sentido à minha vida.

Numa era que está a trazer à tona e ao debate causas grandes e urgentes – alavancadas por movimentos como o #metoo ou o #blacklivesmatter ou o movimento ecológico – pergunto-lhe: tem alguma que lhe seja cara?

Pertenço a um grupo restrito que se chama "me free" pelo qual trabalhei toda a vida. Por isso não precisei de nenhum dos outros. E posso garantir-lhe que nunca fui assediada por ninguém. Sou do tempo do "piropo"!

O caminho será para um maior equilíbrio entre as pessoas, para uma maior justiça, mas vivemos num mundo tão desigual, o planeta em risco. Mantém o seu conhecido otimismo em relação à evolução da humanidade? Algumas coisas vão mudar ou continuaremos a, como diz, valorizar mais o ter do que o ser? 

Muito possivelmente continuaremos a cometer erros e haverá sempre quem "tenha" e não "seja". Mas não será já a mesma coisa. Algo foi vital nesta crise. É que só sobreviveremos se nos unirmos e não se nos degladiarmos. Veja o caso das vacinas do Covid. Se não houvesse um esforço científico comum, não teríamos as vacinas.

Adoro a sua imagem da alegria como acto de rebeldia, a sua busca como truque para viver uma certa plenitude. É uma forma de não nos levarmos demasiado a sério e suportarmos a dor? E como se treina essa alegria?

Tenho um livro que se chama "Gosto de gostar", o título do livro é a resposta à sua pergunta. O amor é o caminho para suportar a dor e manter a alegria!

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