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Encontros depois dos 50. Conselhos e histórias de quem experimentou

Cada vez há mais mulheres maduras disponíveis para novos relacionamentos depois do divórcio. Pelas suas caraterísticas, as apps e sites de encontros facilitam a tomada de decisão. Uma psicóloga explica como dar os primeiros passos.

Alguém tem que Ceder (2003)
Alguém tem que Ceder (2003) Foto: IMDB / Something's Gotta Give
06 de fevereiro de 2024 Júlia Serrão

Há vida depois do divórcio e as mulheres maiores de 50 anos começam a perceber isso e a fazer por isso, tomando a iniciativa de conhecer pessoas, procurar romance ou encontros casuais. Sem tabus ou vergonha. Ainda que a interdição social ou cultural e o pudor "possam, eventualmente, persistir em determinados grupos e meios menos urbanos", comenta a psicóloga clínica, psicoterapeuta e terapeuta de casal Isabel Sequeira.

"Em mulheres de 50 e tal anos, diferenciadas e autónomas esse peso não está lá", comenta, apontando outros "condicionantes" à possibilidade de novas relações: "Alguns são internos, têm a ver com a própria estrutura da mulher. Outros são externos. Por exemplo, se tem filhos menores e a guarda partilhada, o que não é muito comum em mulheres desta faixa etária. Os filhos estão crescidos e a maioria é autónoma e, por isso, elas estão mais libertas." No entanto, o que os filhos crescidos podem pensar "pode ter um peso mais significativo".

A terapeuta fala ainda "em vergonha pela diminuição do estatuto social", sentida por mulheres que "do ponto de vista financeiro tinham uma grande dependência dos maridos e, portanto, o regresso ao mundo dos ‘dating’ ou encontros é diferente". 

Autoconfiança e autoestima  

Há ainda a considerar o facto de as mulheres "já estarem na menopausa e, portanto, estarem menos confiantes no seu próprio corpo", adianta. As causas do divórcio podem também não jogar a favor da procura de novos companheiros, sobretudo se houve uma traição: "O ser trocado por alguém mais jovem é um ataque à autoestima da mulher." 

Ainda assim, segundo Isabel Sequeira, estas mulheres têm muitas vezes "expectativas mais irrealistas". Especialmente se estão fragilizadas e procuram nestas possibilidades de relação uma reparação do amor-próprio. "E, portanto, vão à procura muito mais de se valorizarem, de uma reparação emocional, do que de passarem alguns momentos com alguém e, eventualmente, daí vir alguma coisa." Por vezes, "também se entregam de forma desmesurada", esperando muito logo nos primeiros encontros que, não correndo como tinham idealizado, "reforça-lhes a ideia de desvalorização, de que já não tem idade" para estas ligações e aventuras.

A mesma especialista garante ainda que as expectativas destas mulheres não mudam tenham 50 ou 60 anos. Procuram "encontrar o amor e voltar a sentirem-se apaixonadas, a reparação emocional, uma companhia para sair e fazer amor". Naturalmente, "trazem uma bagagem emocional e a história de vida já é maior, o que pesa imenso nas escolhas que fazem e na forma como as vivem. Há aspetos, que eventualmente possam ter sido traumáticos na separação, que trazem aqui o risco de a pessoa fazer uma espécie de revisitação de lugares onde já foi muito infeliz". Nota que tem a ver com a história da infância de cada um e a história das relações que teve.

Conhecer pessoas online

Em matéria de conhecer pessoas para relacionamento, há o antes e o depois da criação do Tinder, a principal app grátis de encontros do mundo, e da pandemia de Covid-19 que obrigou a humanidade a sucessivos confinamentos e promoveu os benefícios das ligações à distância. Hoje, conhecer pessoas online faz parte do dia a dia de muitos jovens e menos jovens.

Concordando que as aplicações trazem facilidade no potencial de se conhecer mais pessoas, Isabel Sequeira comenta que a mulher também fica mais vulnerável e é preciso aprender com isso. Há o risco de ghosting, isto é, do outro desaparecer sem deixar rasto, e da expectativa construída à volta da imagem de perfil não corresponder ao real, para além do mundo interno desse outro poder ser muito pobre. A especialista em psicoterapia e terapia de casal ressalva situações em que a utilização destas aplicações não acontece com vista a encontrar parceiro, pelo menos num primeiro momento.  "O que a pessoa procura é conexão, e isso é transversal a qualquer idade." Por outro lado, "o fazer ‘match’ traz uma adrenalina que faz com que se sinta um bocadinho mais viva!"

Apesar da normalização do ‘online dating’, ainda há muitas mulheres que vacilam em recorrer a estas aplicações. "Tem a ver com a ideia de que é um bocadinho o fim da linha, do já não se conseguir encontrar [alguém] em mais lado nenhum, e o medo do desconhecido", adianta a terapeuta, que chama a atenção para o facto de "também se apanham homens pouco disponíveis para uma relação, e mais para colecionar pessoas".

Os homens são pouco interessantes?

Marta S. tem um trabalho exigente passou há pouco a barreira dos 55 anos. Esteve casada quase duas décadas, está divorciada há dois anos, depois de concluir que o amor tinha acabado. Há uns tempos, criou um perfil no Encontros do Facebook – que entretanto apagou, "porque no geral os homens por lá são pouco interessantes", refere – e outro no Tinder. "Inicialmente ia só para conversar online. Nem sequer queria pensar em conhecer pessoalmente uma pessoa, ter um relacionamento, que um homem me viesse a tocar ou que a coisa pudesse evoluir.

Mas, entretanto, já conheceu alguns: tomou café com uns, deu dois dedos de conversa cara a cara com outros, e dormiu com dois ou três. "É muito engraçado voltar a essa vida, porque agora é muito diferente do que era no nosso tempo", diz. E quando um destes dias uma amiga lhe perguntou porque ‘andava por lá’, respondeu-lhe que era uma forma prática de conhecer pessoas, ainda mais estando tão absorvida pela profissão. É o que realmente pensa. 

"Ao menos no Tinder vou conhecendo pessoas diferentes", aponta. Para logo desabafar: "Mas há muita falta de homens interessantes a partir dos cinquenta e tal anos". São ‘dados’ a rotinas: "querem o encontro às terças ou às quintas-feiras, fazer um jantarinho e fazer amor, e é tudo". A proposta de um fim-de-semana diferente ou de viajar, a ideia de uma ida a um concerto, a um teatro ou de sair para dançar é sempre tida como muito cara, ou não oportuna. Os homens intelectualmente interessantes, que gostam de ler e discutir assuntos, são raros. De qualquer forma, e apesar de se dizer "não assídua", vai manter o perfil no Tinder.

Entretanto, também já passou pelos novos clubes sociais para conhecer pessoas, que organizam jantares para pequenos grupos. Ao contrário do Tinder, que pode ser de acesso gratuito ou pago, ser membro dos Clubes tem uma mensalidade associada. "Já fui a um destes jantares e conheci gente muito gira. Não no aspeto romântico, mas muito interessante."

Não ter medo e aproveitar a vida

Encontrar o que se espera não é mais fácil através destas novas opções. Mas são uma forma legítima de o tentar, esgotadas que estão todas as outras, desde a agência de casamento ao anúncio no jornal em que, há duas décadas, "cavalheiro procurava mulher para relacionamento sério". E se o amor acontecer, tanto melhor!

Às vezes é preciso curar as mágoas que ficaram do casamento desfeito, ultrapassar bloqueios, ter coragem para se permitir viver outros amores. E excecionalmente ajuda especializada para o efeito. Salvaguardando situações desta natureza, é importante adotar hábitos saudáveis e libertadores como, por exemplo, o exercício físico: "Hoje, há muitas aulas em grupo, até ao ar livre, o que pode ser uma boa opção para a pessoa sentir que está outra vez ligada ao seu corpo e à sua mente. Quando as pessoas estão mais seguras delas até o peso social, a existir, acaba por diminuir. Sente que quer voltar a sentir-se tocada, amada, desejada, e a desejar também", frisa a terapeuta Isabel Sequeira.

Reforçando a ideia de que as mulheres com 50 anos de hoje são muito diferentes das de há vinte ou trinta anos, pois continuam disponíveis para sair e estar com os amigos, olham para si mesmas de outra forma e estão cada vez mais independentes, financeiramente e não só: "Não há que ter medo, é aproveitar a vida, tanto mais que não têm de tomar conta dos filhos. Têm de se focar nelas no bom sentido."

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